Os Caminhões Vazios e a Inflação dos Alimentos: Um Problema Global
Quando se fala em inflação alimentar, muitos imediatamente pensam em questões como clima, política externa ou pragas agrícolas. No entanto, Gary Atkinson, CEO da Algorhythm Holdings, uma empresa de logística baseada em inteligência artificial, aponta para um aspecto menos visível, mas crucial: os caminhões que voltam vazios dos supermercados. “Imagine se um em cada três voos que você opera estivesse completamente vazio”, diz ele. “Ninguém consegue imaginar uma companhia aérea sobrevivendo a isso. Mas é assim que o transporte rodoviário de alimentos tem funcionado.”
A Ineficiência do Transporte Rodoviário
Essa comparação crua destaca uma ineficiência inaceitável que existe no sistema alimentar global. No mundo todo, mais de 30% dos caminhões de carga estão rodando sem carga, resultando em custos que acabam elevando o preço dos alimentos. Depois de entregar produtos, esses veículos, muitas vezes, percorrem longas distâncias sem transportar nada, consumindo combustível e contribuindo para as emissões de gases de efeito estufa.
Custos Ocultos na Cadeia Alimentar
A dinâmica de transporte de alimentos se agrava devido a fatores como:
- Oscilações na demanda: Caminhões têm que operar vazios para chegar à próxima carga.
- Fluxos de carga desequilibrados: A falta de carga requisitada em uma direção significa que o caminhão irá retornar vazio.
- Regulamentações e alta complexidade: A comunicação ineficiente entre embarcadores e transportadores gera ainda mais ineficiência.
Esses quilômetros “deadhead”, ou vazios, não são só um detalhe técnico; eles contribuem para o aumento dos preços que os consumidores pagam nas prateleiras dos supermercados.
Uma Perspectiva Global
De acordo com a Uber Freight, cerca de 35% dos caminhões nas estradas estão se deslocando vazios, absorvendo custos que, no fim, recaem sobre o consumidor. Uma pesquisa da Flock Freight mostrou que 77% dos embarcadores consideram o transporte um fator crítico para o aumento dos preços de alimentos e bebidas.
O Que Aumenta os Custos?
Atkinson frisa que a inflação alimentar se acumula majoritariamente após a entrega ser realizada. “O problema não está em encontrar uma carga, mas em como manejar o caminhão depois de realizada a entrega”, afirma ele. E é precisamente nesse ponto que muitos empresários da indústria de alimentos começam a ver o impacto dos custos logísticos.
Caminhões Como a Espinha Dorsal do Setor Alimentar
Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 83% dos produtos agrícolas e mais de 90% dos laticínios, frutas e vegetais são transportados por caminhões. Em 2021, o transporte representou aproximadamente cinco centavos de cada dólar gasto em mantimentos, tornando-se o terceiro maior responsável por preços altos, atrás apenas da produção agrícola e do comércio atacadista. E esses custos aumentam significativamente quando se falam de caminhões refrigerados, que são essenciais para manter a qualidade dos alimentos frescos.
A Situação na Europa e Além
Na Europa, o problema de caminhões vazios é igualmente preocupante. A Eurostat estima que 20% dos quilômetros percorridos por caminhões são realizados sem carga. Em países em desenvolvimento, essa taxa pode chegar a 45%, tornando o problema ainda mais crítico. No Brasil, o retorno vazio de caminhões após entregar soja ou milho no litoral eleva o custo logístico em até 50%.
O Banco Mundial estima que em partes da África, o custo de transporte pode consumir até 70% do orçamento familiar, ressaltando a importância de uma logística mais eficiente.
Superando as Ineficiências
Quando caminhões transportam cargas em ambas as direções, o custo por milha cai drasticamente. Mas, quando eles retornam vazios, isso se torna um passivo.
O Papel da Tecnologia
Atkinson sugere que a maioria das milhas vazias é resultado de falhas de planejamento e comunicação. As redes logísticas de alimentos, com suas janelas fixas e entregas frequentes, não são adaptáveis. “Na maioria das vezes, o transporte rodoviário de alimentos é imediatista”, observa Atkinson. “Muitas vezes, o foco está em entregar primeiro e resolver o que vem a seguir depois.”
Como fazer isso de forma eficaz? A resposta está na tecnologia. A Algorhythm, através de sua plataforma SemiCab, oferece uma solução inovadora ao prever e otimizar milhões de movimentos de carga em tempo real, transformando o transporte em uma rede contínua de entregas em vez de uma série de viagens desconectadas.
O Futuro da Logística Alimentar
Atkinson visualiza o futuro da logística alimentar como algo comparável ao controle de tráfego aéreo: preditivo e coordenado, ao invés de reativo. Ele acredita que, nas próximas décadas, os contratos de transporte incluirão métricas de redução de milhas vazias além da entrega no prazo.
Exemplos de Sucesso
Empresas como a Hindustan Unilever são exemplos de como a modernização e a colaboração podem levar a eficiência. Por meio da Bolsa Digital Nacional de Fretes da Índia, espera-se que as milhas vazias sejam cortadas em até 70%, ajudando a resolver a fragmentação que frequentemente impede os caminhões de recarregar nos retornos.
Benefícios Para Todos
A verdade é que a sincronização mais eficaz entre embarcadores e transportadores resulta em benefícios para todos os lados: os embarcadores pagam menos, os transportadores ganham mais e o desperdício de milhas vazias é drasticamente reduzido.
Um Caminho a Seguir
O potencial de melhoria ainda é enorme. Enquanto as principais companhias aéreas lideram suas indústrias em eficiência, o mesmo não pode ser dito para o setor de logística, que é ainda muito fragmentado e ineficiente.
Ao darmos atenção a essa questão, podemos transformar a logística de alimentos, facilitando um fluxo contínuo e eficiente entre a fazenda e a mesa do consumidor. Afinal, “os preços dos alimentos não sobem apenas nas fazendas”, ressalta Atkinson, “eles aumentam nos quilômetros entre a fazenda e a geladeira”.
E você, o que acha da situação da logística alimentar e do impacto que ela tem nos preços? Deixe suas opiniões nos comentários!
