A Rivalidade EUA-China: Lições da História para um Futuro Mais Seguro
O Drama da Rivalidade Global
Poucos temas despertam tanto interesse quanto a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China. Analistas de várias áreas se debruçam sobre as tendências políticas e as personalidades que lideram esses países. Economistas se preocupam com os indicadores de força financeira e comercial, enquanto especialistas em segurança avaliam com ansiedade a evolução das capacidades militares da China. O que se observa é um paradoxo: duas potências econômicas que são simultaneamente interdependentes e incompatíveis.
Olhar para o Passado
Apesar da empolgação com os eventos recentes, uma análise histórica pode oferecer nova perspectiva sobre o que está em jogo nas relações EUA-China. O renomado cientista político Graham Allison apresentou a ideia do “trapaça de Tucídides”, que sugere que a guerra se torna provável quando uma potência em ascensão ameaça desbancar a potência predominante. Ele baseou sua teoria em Tucídides, um historiador da Grécia Antiga que registrou a longa e destrutiva guerra entre Atenas e Esparta.
No entanto, a verdadeira advertência do conflito entre Atenas e Esparta não era sobre a transição de poder iminente, pois não havia uma mudança clara no equilíbrio de poder antes do início da guerra. Em vez disso, ambos os lados desfrutavam de um equilíbrio estável, com Atenas dominando o mar e Esparta sendo a força terrestre.
Essa estabilidade foi destruída quando os conflitos irromperam, revelando ilusões de vitória rápida por parte dos grandes poderes. Gostando de pensar que conseguirão ganhar rapidamente, Atenas e Esparta se encontraram presos em uma guerra prolongada e devastadora — essa é a verdadeira armadilha de Tucídides.
A Armadilha Atual
Atualmente, os EUA e a China parecem estar se dirigindo para uma dinâmica semelhante. Assim como Atenas e Esparta, ambos os países têm vantagens comparativas significativas: a China é a principal potência terrestre na Ásia Oriental, enquanto os EUA detêm supremacia marítima.
- A Força da China: A vastidão de seu território proporciona um abrigo seguro para suas forças, e sua habilidade de defesa em terra é amplamente reconhecida.
- O Poder dos EUA: Com uma notável capacidade de projetar poder naval ao redor do mundo, os EUA operam eficazmente em grandes distâncias marítimas.
Apesar de toda sua força, ambos os países parecem incapazes de confrontar diretamente as principais forças de seu adversário — uma complicação que deveria, teoricamente, desencorajar conflitos abertos. Contudo, a busca por uma vitória rápida permeia a mentalidade de ambos os lados.
O Sonho da Vitória Rápida
A estratégia da China é baseada na crença de que um ataque rápido utilizando suas armas avançadas e operações cibernéticas pode neutralizar as forças dos EUA. A aposta é que a implementação de inteligência artificial em suas operações militares permitirá decisões mais ágeis e precisão nos ataques.
Por outro lado, os estrategistas americanos também planejam uma guerra curta, esperando alcançar resultados rápidos como ocorreu em conflitos passados. Desde a Guerra do Golfo, a doutrina militar dos EUA enfatiza ataques surpresa em pontos críticos do comando inimigo. O objetivo é deixar a China incapaz de resistir a uma onda de forças aéreas e navais, levando a um resultado favorável.
Entretanto, a história nos ensina que líderes que se comprometem com a guerra muitas vezes têm visões distorcidas de vitória rápida. Essas ilusões podem levar a campanhas prolongadas, repletas de custos e incertezas, de modo que, se a rivalidade entre EUA e China for tratada como os conflitos do passado, o resultado poderá ser uma guerra desgastante que prejudicará ambos.
Estratagemas e Diplomacia
Tucídides compreendeu bem como as guerras curtas podem se arrastar pelo tempo. Seu trabalho destaca a diferença entre estratégia e grande estratégia. A estratégia se refere a uma teoria de vitória, enquanto a grande estratégia aborda a segurança do estado em um mundo global. Ambas devem trabalhar em conjunto para evitar desastres.
Atenas e Esparta estavam cientes de suas vantagens e desenvolveram grandiosas estratégias, mas a incapacidade de engajar diretamente no combate levou a um conflito prolongado. Por exemplo:
- Atenas: Dominava os mares e dependia de sua vasta frota. Contudo, apostou em uma série de ataques diretos que não conseguiram provocar uma revolta entre os espartanos.
- Esparta: Optou por evitar confrontos diretos no mar, focando em incomodar as forças terrestres de Atenas, mas essa estratégia também falhou em garantir uma vitória imediata.
Com o tempo, as esperanças de ambos se transformaram em desespero, e as consequências econômicas e políticas se tornaram insuportáveis, levando ao esgotamento protraído que ambos não esperavam enfrentar.
Evitando a Repetição da História
Como EUA e China podem evitar a repetição da tragédia da longa guerra? Algumas estratégias podem ser exploradas:
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Incrementar a Diplomacia Militar:
- A abertura de canais de comunicação militar regulares pode ajudar a mitigar mal-entendidos. Propostas como intercâmbios entre oficiais podem fomentar uma melhor compreensão mútua.
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Moderadas Comunicações Sobre Capacidades:
- Reduzir a euforia em declarações públicas sobre capacidades tecnológicas pode prevenir a construção de uma imagem de invencibilidade, que pode incitar riscos desnecessários.
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Considerar Operações Secretas:
- A história mostra que operações encobertas podem controlar a escalada. Se mantidas dentro de limites aceitáveis, podem permitir que as potências concorram sem chegar a um ponto de destruição mútua.
Nesse contexto, a diferença entre a retórica e a realidade precisa ser bem compreendida. O desafio é evitar que a crença em uma vitória fácil leve a um conflito indesejado.
Reflexão Final
Atualmente, tanto os EUA quanto a China estão caminhando para um impasse que pode se assemelhar à antiga rivalidade de Atenas e Esparta. A ideia de que novas tecnologias garantem uma vitória rápida pode ser tentadora, mas já aprendemos que isso é uma ilusão perigosa. Ao buscar compreender melhor seus próprios limites e o do adversário, as potências podem evitar o ciclo destrutivo da guerra.
Um futuro seguro e mais harmonioso depende da capacidade de ambos os países de aprender com as lições do passado, transformando fraquezas em oportunidades para cooperação e entendimentos pacíficos. Ao final, o verdadeiro desafio é como usar a história para moldar uma nova narrativa de paz e estabilidade no cenário global.
