A Coreia do Norte enfrenta inimigos dentro do próprio país


A insatisfação entre integrantes da elite norte-coreana cresceu desde que Kim Jong Un assumiu o poder, em dezembro de 2011, em meio a expurgos, vigilância e punições que também atingem familiares. Entrevistas com ex-diplomatas, militares, funcionários do partido e empresários indicam que muitos mantêm uma demonstração pública de lealdade por medo e interesse, mas não confiam na segurança que o regime oferece. O descontentamento, porém, não significa que uma queda do governo seja iminente: o Estado continua impedindo que divergências privadas se transformem em oposição organizada.

Privilégio e vulnerabilidade

O diplomata Thae Yong Ho percebeu a distância entre a retórica oficial e a vida da elite em 2015, quando foi encarregado de acompanhar Kim Jong Chol, irmão mais velho de Kim Jong Un, a um show de Eric Clapton em Londres. Seus filhos reagiram com indignação: norte-coreanos comuns poderiam ser expulsos da universidade — ou sofrer punições mais severas — por ouvir música ocidental, enquanto a família Kim gastava milhares de dólares em um entretenimento proibido para os demais.

Em suas memórias, Thae escreveu que os filhos o viam como um prisioneiro obrigado a cuidar de um carcereiro. No ano seguinte, ele, a mulher e os dois filhos fugiram para a Coreia do Sul. A deserção surpreendeu porque, poucas semanas antes, Thae defendia publicamente o regime. Para integrantes da elite, no entanto, a demonstração de fidelidade pode coexistir com dúvidas e ressentimento até o momento da fuga.

O número de desertores da classe alta registrados durante o governo de Kim Jong Un é pequeno, na casa das centenas, mas representa uma mudança. Em agosto de 2024, o Serviço Nacional de Inteligência sul-coreano informou que o total de deserções dessa camada sob Kim era duas vezes e meia maior que a soma registrada nos governos de Kim Il Sung, entre 1948 e 1994, e Kim Jong Il, entre 1994 e 2011. A quantidade de pessoas que chegam à Coreia do Sul caiu drasticamente depois que Pyongyang fechou as fronteiras durante a pandemia de Covid-19.

Os integrantes da elite têm acesso a melhores escolas, moradia, alimentos e redes de influência do que a maioria da população. Mas a proximidade com o poder também os expõe a um controle rigoroso. Diplomatas enviados ao exterior precisam entregar seus passaportes e deixar parentes na Coreia do Norte, usados como garantia contra deserções. Ao voltar, passam por revisões ideológicas e devem relatar o que fizeram e observaram fora do país.

O medo de cair em desgraça

A execução de Jang Song Thaek, tio de Kim Jong Un, em 2013, transmitiu uma mensagem direta aos funcionários do regime. Jang havia servido aos três líderes da família Kim e era casado com a filha de Kim Il Sung. Sua queda mostrou que nem mesmo um integrante da família governante estava protegido de punição.

Ri Jong Ho, que trabalhou por três décadas no Escritório 39, órgão responsável por obter e administrar divisas para a liderança, decidiu fugir com a família em 2014. Seu filho, Hyunseung Lee, havia estudado em instituições de prestígio e trabalhava na China, ajudando a intermediar comércio com empresas chinesas. Apesar dos privilégios e das honrarias recebidas, a família se sentia vulnerável diante da possibilidade de ser eliminada pelo regime.

Na Coreia do Norte, a lealdade é avaliada desde a infância. A classificação hereditária conhecida como songbun divide a população em grupos conforme a proximidade atribuída ao governo e influencia o acesso à universidade, ao Partido dos Trabalhadores e a promoções. Adultos participam de sessões de autocrítica, enquanto órgãos de segurança e comitês locais monitoram informações e condutas.

Um ex-funcionário resumiu o dilema dos integrantes da elite: “Nós sabemos tudo, mas simplesmente não expressamos”. A falsificação de preferências — ocultar crenças e opiniões para evitar punições — permite que pessoas critiquem o sistema em privado e, ao mesmo tempo, repitam as narrativas oficiais em público. Essa encenação dificulta que descontentes identifiquem aliados confiáveis.

Dinheiro, carreira e futuro dos filhos

Kim Jong Un também mantém o apoio de funcionários com benefícios materiais, como apartamentos, carros, relógios e acesso a negócios. O cargo oferece status e influência, mas essa posição pode desaparecer de forma abrupta. Depois da aposentadoria, generais e altos funcionários não recebem pensão; o Estado recolhe veículos e moradias concedidos, e alguns acabam trabalhando como guardas ou vendedores.

Entre os mais jovens, cresce o interesse por negócios, formação técnica, estudo no exterior e acumulação de riqueza, em vez de carreiras longas no Exército ou no partido. As entrevistas relatadas na fonte indicam que pais da elite querem para os filhos vidas menos limitadas. O dinheiro também ganhou espaço numa sociedade em que mercados, antes proibidos, passaram a ser regulados e tributados pelo Estado. Ainda assim, as atividades econômicas continuam subordinadas às decisões do governo, e funcionários podem perder bens ou posição sem garantia de proteção.

Sem espaço para ação coletiva

O descontentamento não se converte facilmente em protesto. O regime controla associações, vigia famílias e pune coletivamente os parentes de pessoas consideradas desleais. Para um ex-integrante de alto escalão do Ministério da Segurança do Estado que fugiu em 2016, desafiar essa estrutura seria “absolutamente insano”. A desconfiança mútua torna difícil saber quem apoiaria uma tentativa de mudança.

A deserção é uma alternativa individual, mas também traz riscos: a China repatria norte-coreanos que cruzam sua fronteira, e funcionários no exterior precisam escapar da vigilância estatal sabendo que seus familiares podem ser punidos. A fonte cita ainda o caso de um intérprete norte-coreano que pediu asilo na embaixada sul-coreana na Mongólia, em agosto de 2025, e permanecia sem solução um ano depois.

O regime ainda dispõe de instrumentos para se manter, incluindo comércio com a China, venda de armas, operações cibernéticas e envio de trabalhadores ao exterior. O risco apontado pelas entrevistas é menos uma revolta popular imediata do que uma eventual crise política ou econômica em que funcionários, já desconfiados, deixem de cooperar. A lealdade demonstrada por integrantes do governo pode parecer sólida em períodos normais, mas ser motivada cada vez mais pela autopreservação.

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