A Revolução Silenciosa: Como o Oriente Médio Está Transformando Suas Liberdades


O Surgimento de um Oriente Médio Mais Liberal: Uma Nova Perspectiva

A ideia de que o Oriente Médio está se tornando mais liberal pode parecer surpreendente. Afinal, faz quase meio século desde a revolução no Irã, que desmantelou uma ordem secular e instaurou um regime clerical absolutista, impulsionado por um fundamentalismo xiita que bradava “Morte à América”. Desde então, a região tem sido palco de uma série de ataques terroristas e movimentos insurgentes que defendem teocracias autoritárias, além de regimes repressivos que marginalizam mulheres e restringem a liberdade de expressão.

É fácil pensar que as sociedades do Oriente Médio não têm interesse em liberalismo, como se estivessem sob um “regime da verdade” profundamente religioso, como afirmou o filósofo Michel Foucault em 1978 sobre o Irã. Nesse cenário, a autoridade dos fundamentalistas que definem a fé à sua maneira e impõem normas rígidas de comportamento, muitas vezes prejudiciais à liberdade individual, parece garantir que essa região permanecerá sempre distante do Ocidente.

No entanto, esse entendimento confunde as consequências da dominação com suas causas. Sob a superfície da autoritarismo, outra história vem se desenrolando. Entre 2000 e 2020, realizei uma série de pesquisas no Oriente Médio, entrevistando um número representativo de pessoas em cinco países estratégicos para entender os valores que sustentam seus cidadãos e as mudanças que ocorrem nesses valores ao longo do tempo.

A Ascensão dos Valores Liberais: O Que Dizem os Dados?

As pesquisas realizadas em países como Egito, Irã, Iraque, Arábia Saudita e Turquia revelaram um aumento na preferência por valores liberais, embora os governos tentassem suprimir a demanda popular por mudanças democráticas. Focamos nessas nações devido à sua relevância política e ao tamanho de suas populações, o que as torna interessantes para testagem de teorias sociológicas.

Metodologia das Pesquisas

A pesquisa incluiu perguntas sobre uma variedade de valores, distribuídas em três dimensões principais:

  • Individualismo Expressivo: Preferência por casar por amor, independentemente de aprovação parental e valorização da independência sobre a obediência.
  • Igualdade de Gênero: Opiniões sobre poligamia, obediência conjugal e representatividade masculina na política e educação.
  • Política Secular: Atitudes sobre a separação entre religião e política, e a aceitação de modelos de governança ocidentais.

Essas respostas geraram um índice de liberalismo que variava de 1 a 4, onde notas mais altas indicavam um maior apoio a ideias liberais.

Resultados Reveladores

Os índices mostraram um aumento significativo nos valores liberais, com variações entre os países e as dimensões avaliadas. O apoio ao governo islâmico e à sharia diminuiu em toda a região. No Irã, a demanda por uma clara separação entre religião e política aumentou, assim como as reivindicações por igualdade de gênero e liberdade de vestuário. Isso se traduziu em ação política, notadamente no movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, em 2022.

  • No Egito, a proporção de pessoas que consideravam o governo islâmico “muito bom” caiu de 25% em 2011 para apenas 16% em 2020.
  • No Iraque, o apoio contundente ao governo islâmico diminuiu de 30% em 2004 para 15% em 2011.

Embora questões sobre formas de governo tenham sido limitadas na Arábia Saudita devido a sensibilidades políticas, as mudanças significativas também foram visíveis: a importância atribuída à implementação da sharia caiu de 73% em 2003 para 35% em 2011.

Exemplos Práticos de Mudanças em Valorações

No caso da Turquia, entre 2013 e 2020, o índice de liberalismo subiu, especialmente nas questões de igualdade de gênero. Essa mudança ocorreu apesar da agenda autoritária e islâmica do presidente Recep Tayyip Erdogan. De fato, seus esforços de pan-islã acabaram por intensificar a busca por valores liberais, enquanto a identificação nacional tomava espaço em detrimento da religiosa.

A Influência da Repressão para a Mudança de Valores

A ironia da história é que forças que tentam desacreditar o liberalismo acabam gerando apoio a ele. Movimentos de descontentamento, como os que surgiram após a experiência do governo do Irã, mostram que a opressão religiosa pode intensificar o desejo de uma ordem política mais responsiva e democrática. Mesmo que as mudanças históricas levem tempo para refletir nas instituições governamentais, os valores que emergem com a contestação são fundamentais para a reorganização social e política.

  • Experiências Coletivas: A experiência de domínio religioso pode, em última análise, alimentar o desejo de mudança, como observamos em várias nações do Oriente Médio ao longo dos últimos anos.
  • Mobilização Popular: Em países como o Egito, a desaprovação do Islã político fortaleceu a ideia de uma política secular, evidenciando que mudanças sociais acontecem em resposta a padrões opressivos.

Acompanhando a Mudança: Reflexões da Sociedade

No Egito, a média de frequência às mesquitas caiu de 2.65 em 2011 para 2.30 em 2020, enquanto na Turquia, a frequência caiu para 1.82. Essas mudanças refletem uma desaceleração do controle religioso sobre as vidas cotidianas, favorecendo uma maior aceitação de ideais liberais, especialmente entre as mulheres.

É um panorama promissor, mas que não deve ser encarado como uma garantia de que a democratização será imediata. A história do Oriente Médio, repleta de experiências com nacionalismo árabe, socialista e islâmico, não resultou em governações legítimas ou bem-sucedidas.

O Caminho a Seguir

O futuro do Oriente Médio depende da capacidade das instituições políticas em acompanhar o aumento do apoio à liberdade e aos direitos individuais. Ideias moldam a história e, em uma região que já foi marcada por diversos regimes falhos, a possibilidade de um novo capítulo liberal é mais real do que nunca.

  • A luta pela democracia não é apenas um ideal ocidental; ela surgiu das tendências regionais frente a autoritarismos e repressões.
  • As aspirações democráticas da população são um reflexo dos fracassos dos regimes que os precederam, incluindo os regimentos religiosos que falharam em suportar as exigências modernas.

A pergunta que fica é: estamos prontos para acompanhar essa transformação? O Oriente Médio não está apenas buscando democracia, mas também um espaço onde liberdade e individualidade possam florescer de maneira efetiva. Que esse seja um processo enriquecedor, nos unindo em busca dos direitos e liberdades que todos merecem. Que venham as conversas e as reflexões sobre esses tópicos apaixonantes—é hora de debater e compartilhar ideias, sem medo de se expressar.

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