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Como os Novos Hábitos do Consumidor Chinês de Carne Bovina Ajudam a Proteger a Floresta Amazônica

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### A Visita Transformadora de Xing Yanling à Amazônia

Em abril, Xing Yanling compartilhou uma experiência marcante em sua visita à Amazônia brasileira em uma postagem no WeChat. Para ela, estar “envolvida por dezenas de milhares de tons de verde” foi uma sensação inesquecível. No entanto, essa não foi uma viagem qualquer; Xing lidera a Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, um papel que a coloca em um ponto crucial do comércio global de carne bovina.

### Um Compromisso com a Sustentabilidade

Sob sua liderança, a associação de importadores de Tianjin se comprometeu a adquirir 50 mil toneladas de carne bovina brasileira certificada e livre de desmatamento até o final do ano. Esse movimento representa um avanço significativo, sugerindo que a China, uma das potências comerciais globais, está aberta a pagar mais por cadeias de suprimento que priorizam a sustentabilidade. Para se ter uma ideia, essa quantia corresponde a 4,5% do que os exportadores brasileiros devem vender ao mercado chinês neste ano.

Esse compromisso questiona a visão tradicional entre os produtores brasileiros de que a China se preocupa apenas com o preço ao invés das condições de produção. O cenário atual indica que, ao mesmo tempo em que busca proteger sua indústria, o governo chinês está tomando iniciativas para mitigar os impactos ambientais do comércio.

### O Novo Enfoque da China em Relação ao Comércio

Em 2019, o governo chinês modificou sua legislação florestal para proibir o comércio de madeira ilegal. No ano seguinte, um pacto foi assinado com o Brasil para erradicar o desmatamento ilegal vinculado ao comércio. Também em 2022, a COFCO, uma empresa estatal de comércio exterior da China, se comprometeu a eliminar práticas de desmatamento em sua cadeia de suprimentos.

### Carne Bovina e Desmatamento: A Questão Crucial

A cadeia de fornecimento de carne bovina é particularmente sensível devido à sua associação com o desmatamento. Segundo André Vasconcelos, chefe de engajamento global da plataforma Trase, que monitora o impacto ambiental de várias cadeias de suprimento, a carne bovina, especialmente a brasileira, é a commodity agrícola que mais contribui para essa questão no mercado chinês.

A floresta amazônica, reconhecida como a maior e mais biodiversa do mundo, continua a perder vastas áreas a cada ano, principalmente para pastagem de gado. De acordo com o MapBiomas, 90% da terra desmatada é destinada a essa finalidade.

### Consumidores Chineses em Busca de Sustentabilidade

Embora a maioria dos consumidores ainda esteja limitada a escolhas baseadas em preço, há uma crescente consciência sobre questões ambientais. Xing observa que, com o aumento da renda, muitos chineses estão se tornando consumidores mais exigentes. “A carne bovina livre de desmatamento e sustentável terá um mercado cada vez mais forte no futuro”, afirma ela.

### A Inovação do Selo “Beef on Track”

Para atender a essa demanda por transparência e segurança alimentar, a carne bovina será comercializada com o selo “Beef on Track”, desenvolvido pela ONG brasileira Imaflora. Essa certificação possui quatro níveis, que variam de acordo com a rastreabilidade da carne e a legalidade da propriedade onde os gados são criados.

Os importadores de Tianjin estão dispostos a pagar até 10% a mais pela carne proveniente de frigoríficos que comprovem a localização legal e sustentável de suas fazendas. Se essa mudança ganhar força, seu impacto pode ser significativo para o mercado de carnes brasileiras.

### Desafios da Rastreabilidade no Brasil

Entretanto, o frágil sistema de rastreabilidade do Brasil ainda é um desafio. Documentos de transporte de gado podem ser facilmente fraudados por pessoas mal-intencionadas, um problema amplamente conhecido como “lavagem de gado”. Melhorias nesse sistema de controle podem levar anos, o que adiciona uma camada de incerteza ao plano de Xing.

### Oportunidades e Obstáculos na Indústria

Durante a visita à fazenda Carioca, em Castanhal, no coração da Amazônia, o fazendeiro Altair Burlamaqui recebeu a delegação de Xing e ficou surpreso ao saber que sua carne poderia um dia ser parte desse movimento de valorização ambiental. “O que percebi é que eles estão buscando agregar valor ao produto, pensando em uma população disposta a investir mais”, disse.

No entanto, a recepção ao projeto de sustentabilidade em Tianjin foi morna entre outros setores. A Abiec, associação exportadora de carne bovina, manifestou ceticismo em relação à demanda por carne sustentável, temendo que isso se tornasse um obstáculo em um mercado já restritivo.

### O Papel das Cotas e a Ameaça à Sustentabilidade

As cotas de importação impostas pela China também são uma preocupação. Se o Brasil atingir o limite de 1,1 milhão de toneladas, qualquer importação futura estará sujeita a taxas elevadas, o que pode atrasar o lançamento da carne certificada de Tianjin.

### Consumidores e Rastreabilidade

Os consumidores chineses estão acostumados com produtos rastreáveis. Durante sua visita, a equipe de Xing destacou como utilizam códigos QR nos ovos, permitindo que os consumidores acompanhem a origem do produto. Essa rastreabilidade não apenas melhora a confiança do consumidor, mas também facilita a identificação e a resolução de problemas, como surtos de doenças.

### A Certificação “Beef on Track” como Futuro

O selo “Beef on Track” estará disponível até o final do ano, proporcionando uma oportunidade para a indústria da carne bovina brasileira se alinhar às demandas globais. Embora ainda não haja nenhuma empresa frigorífica brasileira anunciando planos para a certificação, a Imaflora acredita que essa abordagem pode criar oportunidades, ao contrário do que ocorreu com outros setores, como madeira e café.

### Reflexões sobre o Futuro

À medida que o setor de carne bovina enfrenta pressões tanto ambientais quanto econômicas, é vital que os produtores brasileiros reconheçam as oportunidades oferecidas pela certificação e pela demanda crescente por transparência e práticas sustentáveis.

As palavras de Xing ressoam: “Esse selo pode reconhecer e valorizar a produção brasileira”. Se o Brasil conseguir superar os desafios e se adaptar às exigências do mercado, ficará mais bem posicionado para o futuro. Quais são suas opiniões sobre esse tema? Você acredita que a sustentabilidade pode realmente transformar a indústria da carne bovina no Brasil? Compartilhe seus pensamentos!

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