A Segurança Alimentar em Tempos de Conflito: O Impacto do Oriente Médio nas Exportações de Carnes do Brasil
“Mesmo em meio a um conflito, a segurança alimentar precisa prevalecer.” Esta afirmação de Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), destaca um dilema que se intensifica com a escalada das tensões no Oriente Médio. Em uma conversa exclusiva com a Forbes Agro, Santin discorreu sobre os possíveis impactos da guerra entre os Estados Unidos e o Irã no setor avícola brasileiro.
O Papel da ABPA e das Importações
A ABPA representa um setor vital, incluindo grandes nomes como JBS, MBRF, Cargill, Aurora Alimentos, Granja Faria e Lar Cooperativa. Diante da situação delicada, a associação intensificou suas ações. Entre as iniciativas, destacam-se o monitoramento constante das rotas marítimas, a comunicação com importadores e a avaliação dos riscos logísticos que podem comprometer o abastecimento.
Em 2025, impressionantes US$ 3,2 bilhões em carne de frango foram exportados para 14 países do Oriente Médio, um volume que representou 33,1% do total exportado, com esses mercados altamente dependentes de proteína importada. A interrupção no fluxo comercial é uma preocupação que pode afetar tanto os países compradores quanto o planejamento das indústrias brasileiras.
Um Cenário Geopolítico Precarizado
No centro de toda essa dinâmica está o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, que, por causa do conflito, estava paralisado há cinco dias. A ABPA comunicou, em nota, que várias companhias de transporte marítimo adotaram medidas de segurança, como a suspensão de novas reservas e redirecionamento de rotas. Essas mudanças podem impactar prazos e custos logísticos, especialmente para cargas que requerem refrigeração.
“Até agora, conseguimos contornar a situação. Estamos fazendo o possível para garantir o abastecimento dessas regiões. Nenhum impacto desacelerou as indústrias, nem mesmo a redução de produção nas granjas,” afirmou Santin, enfatizando a importância de uma resposta rápida e eficaz.
A Dualidade entre Energia e Alimentos
Embora o Estreito de Ormuz seja conhecido principalmente por sua relevância no comércio de petróleo, suas implicações vão além. O local também é crucial para a logística de transporte de alimentos, sendo uma vital fonte de abastecimento para muitos países do Oriente Médio, que se dependem fortemente das importações.
Santin mencionou que a ABPA está em diálogo com o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, a fim de explorar corredores emergenciais para o transporte de alimentos, uma tarefa que requer documentação específica. Como maior exportador global de carne de frango, o Brasil é fundamental para mercados como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.
Desafios Logísticos Crescentes
O impacto nos custos de transporte é imediato. As seguradoras aumentam os prêmios de risco para embarcações que transitam por áreas tensas, e os fretes elevam-se, ocasionando atrasos e mudanças de rotas. Santin alertou que a Sobretaxa de Risco de Guerra pode adicionar entre US$ 3 mil e US$ 4 mil a cada contêiner transportado na região de conflito, representando um desafio significativo para a indústria avícola.
O setor de carne de frango, que requer logística refrigerada e contratos rígidos de entrega, pode sofrer deslizamentos importantes devido a atrasos ou alterações nas rotas. Diante desse cenário, a ABPA está adotando uma postura proativa, mantendo o diálogo com as indústrias e monitorando a situação de perto.
Compromisso com o Abastecimento
Em tempos de tensão, a ABPA se mobiliza para manter o fluxo comercial e reduzir incertezas. “Estamos buscando alternativas para garantir o abastecimento,” reforçou Santin, reiterando a necessidade de um esforço coletivo em momentos críticos.
No Oriente Médio, as preocupações com o abastecimento de alimentos são exacerbadas pelas limitações de produção agrícola. Muitas dessas nações dependem integralmente das importações para atender às demandas internas.
Com o início do Ramadã, uma época de grandes celebrações, as reservas estratégicas de alimentos em muitos destinos atendidos pelo Brasil são cruciais. No entanto, Santin enfatiza que o setor deve permanecer vigilante e ágil, observando as mudanças na situação geopolítica.
Caminhos Alternativos
Entre as soluções viáveis, destacam-se a utilização de portos no Mar Vermelho e o transporte terrestre até os destinos finais das cargas brasileiras. Essa estratégia pode mitigar os impactos negativos do conflito, garantindo um fluxo contínuo de alimentos.
O Futuro das Exportações de Carne de Frango
Os desafios logísticos e geopolíticos evidenciam a interdependência do comércio internacional. A situação atual serve como um lembrete da vulnerabilidade do sistema de abastecimento global, onde eventos inesperados podem ter consequências significativas.
Com a ABPA alertando para o aumento dos custos logísticos, os operadores do setor devem se preparar para um cenário com taxas elevadas e possíveis alterações nas rotas comerciais. A incerteza é um fator que pode conturbar a estabilidade de um sistema já fragilizado por desafios anteriores.
Reflexões Finais
À medida que o mundo enfrenta novas incertezas, a citação de Santin ressoa com mais força: a segurança alimentar não deve ser comprometida, mesmo em tempos de conflito. O papel da ABPA e de outras entidades é vital para garantir que as cadeias de suprimento alimentares permaneçam operantes. Manter esse fluxo é fundamental não apenas para a indústria, mas também para milhares de vidas que dependem desses abastecimentos.
Portanto, ao olhar para o futuro, um questionamento persiste: como estaremos preparados para enfrentar os desafios que ainda estão por vir? Essa é uma reflexão que todos, desde os consumidores até os líderes do setor, devem considerar.
