Em um espaço sem janelas, localizado em um armazém alugado em Oakland, Califórnia, a história da Nabis começou em 2019. Seus cofundadores, Vince C. Ning e Jun Sup Lee, se reuniram com alguns colaboradores e uma amiga da aceleradora Y Combinator, Luana Lopes Lara, que mais tarde se tornaria uma influente empreendedora, contando US$ 2 milhões (aproximadamente R$ 10,3 milhões) em dinheiro vivo. O objetivo? Cumprir com os impostos sobre o consumo de maconha na Califórnia, onde a Nabis havia sido recém-lançada como distribuidora de cannabis.
A startup, com sede em São Francisco, surgiu durante a expansão do mercado de maconha medicinal no país. Ning e Lee tinham a crucial função de coletar e gerenciar esses tributos. Para garantir a segurança, contrataram um guarda armado e, após a contagem do dinheiro,ंगr armazenaram os montantes em malas, cada uma contendo US$ 1 milhão. Vestidos de uma maneira que pareciam turistas, partiram em direção ao prédio do governo estadual para efetuar o pagamento.
“Você faz coisas malucas quando sente que sua vida está em risco”, compartilha Ning, refletindo sobre aquela época, agora em um escritório da Nabis no Bronx, Nova York.
Uma Startup em Ascensão
No ano de 2019, após passar por Y Combinator, a Nabis levantou US$ 5 milhões (cerca de R$ 25,75 milhões), prometendo revolucionar a cadeia de suprimentos do mercado de cannabis. A dupla coletava produtos de cultivadores na região de Humboldt, transportando-os em uma van Mercedes Metris e um Lexus, que Lee ganhou como presente de casamento. Basicamente, eram apenas dois amigos com um caminhão e um SUV, desbravando um mercado em expansão.
No segundo ano, a Nabis contava com cerca de 50 clientes e 30 funcionários, gerando um faturamento anual em torno de US$ 2 milhões (cerca de R$ 10,3 milhões). Atualmente, é considerada a maior distribuidora de cannabis dos Estados Unidos, movimentando US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 7,725 bilhões) por ano, com uma receita de US$ 65 milhões (cerca de R$ 334,75 milhões). O objetivo é ultrapassar a marca de US$ 100 milhões até o final do ano, o que representa cerca de 7% de toda a movimentação de produtos de cannabis no atacado para o mercado legal americano.
- 32% dos produtos são distribuídos na Califórnia.
- 34% em Nevada.
- 15% em Nova York, onde as operações começaram em 2024.
A Nabis se expandiu recentemente para Nova Jersey, adquirindo uma licença da Hudson News, conhecida rede de lojas de conveniência de aeroportos. “Foi assim que tudo começou”, diz Ning, observando o depósito no Bronx. “Hoje, somos uma plataforma tecnológica moderna. A Nabis é como a Amazon da cannabis.”
A Tecnologia por Trás da Logística

A Nabis, embora não tenha o tamanho da Amazon, armazena cerca de US$ 200 milhões (R$ 1,03 bilhão) em produtos mensalmente e possui uma frota de 155 caminhões. Sua tecnologia se aproxima do modelo do Amazon Prime, facilitando transações diretas entre marcas e dispensários. A distribuidora garante a entrega, a conformidade legal e a arrecadação de impostos, retendo taxas que variam entre 7% e 18% do valor de cada transação.
A Nabis também disponibiliza softwares que ajudam os varejistas a analisar quais produtos têm maior giro e os que ficam mais tempo nas prateleiras. Além disso, criou a Nabis Capital, que oferece financiamento de curto prazo, antecipando pagamentos a marcas que desejam evitar os longos prazos de espera pelos dispensários.
Esse sistema de crédito é uma ferramenta eficaz no mercado de cannabis, onde grande parte das marcas enfrenta dificuldades financeiras. Com um histórico de inadimplência abaixo de 0,5%, a Nabis opera sob uma estratégia que permite que as marcas avaliem o risco de cada cliente antes de efetuar vendas. “Temos um poder de barganha significativo quando se trata de cobrança de pagamentos”, ressalta Ning.
Do Vale do Silício à Indústria da Cannabis
Diferente de muitos empresários que começaram no mercado informal, Ning e Lee trazem consigo a experiência típica do Vale do Silício. Eles se conheceram na escola, em uma turma de matemática avançada, e rapidamente se tornaram amigos, mesmo que só virando empreendedores uma década depois. Lee, formado em Harvard, trabalhou no Google e na Meta, enquanto Ning fez carreira na Microsoft antes de fundar a Scaphold, vendida para a Amazon.
Em 2017, com a Califórnia prestes a legalizar o uso recreativo da maconha, eles decidiram investir no setor. Com um amigo enfrentando dificuldades para distribuir sua produção, viram uma oportunidade de se tornar o FedEx do mercado de cannabis, fundando a Nabis com recursos obtidos na venda da Scaphold. Nos primeiros dias, eles cobriram as rotas por conta própria, até mesmo usando motoristas de Uber para entregas.
O Futuro da Nabis e do Mercado
Hoje, um dos principais parceiros da Nabis é Graham Farrar, cofundador da Glass House Brands, a maior produtora de maconha dos Estados Unidos. Farrar elogia a capacidade da Nabis em adaptar-se rapidamente ao ambiente competitivo do mercado californiano. “Eles investiram fortemente em tecnologia e têm um conhecimento profundo das regulamentações”, afirma.
Dentro do galpão do Bronx, onde uma variedade de produtos cannabis circula, Ning acredita que a estratégia de abertura de capital é o próximo passo, dependendo de futuras reformas legais. Recentemente, a maconha medicinal foi reclassificada na legislação federal, deixando de ser considerada uma substância de “Tabela I”.
A Nabis, que opera 90% de suas vendas em produtos recreativos, busca uma licença para atuar no segmento medicinal, o qual poderá ser ampliado com a potencial legalização interestadual da maconha. “Se conseguirmos a permissão para o comércio entre estados, teremos uma enorme oportunidade de expansão”, prevê Ning.
Com um ambiente em transformação e oportunidades crescendo, é claro que a Nabis está não apenas trilhando um caminho de sucesso, mas também ajudando a moldar o futuro do setor de cannabis no Brasil e no mundo.
*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com