A Nova Era da Guerra Econômica: A Jogada de Trump nas Marés da Indústria do Petróleo
O movimento de Donald Trump no final do ano passado para apreender petroleiros venezuelanos em alto-mar marca uma virada significativa na estratégia econômica dos Estados Unidos. Durante mais de duas décadas, Washington traçou uma linha clara entre o uso de ferramentas econômicas, como sanções e controles de exportação, e suas capacidades militares. Enquanto as sanções — como as impostas ao petróleo venezuelano desde 2019 — visam pressionar adversários sem incluir o uso da força militar, ações como bloqueios e apreensões de navios são claramente militares, destinadas a contextos de conflito armado.
A Transição para um Bloqueio Total
Em dezembro, Trump anunciou um “bloqueio total e completo” a petroleiros que transportavam petróleo da Venezuela, aumentando rapidamente a presença da Marinha dos Estados Unidos para enforcing as sanções. Já foram apreendidos ou detidos pelo menos dez petroleiros com conexões venezuelanas. Além disso, ele ameaçou tarifas sobre países que enviam petróleo a Cuba, utilizando a Guarda Costeira para reforçar essa ameaça, interceptando pelo menos um navio que se dirigia à ilha. Esse movimento foi acompanhado por aliados, como a Índia, que apreendeu vários petroleiros iranianos sancionados, e a França, que deteve um navio russo também sancionado.
Essa mudança de abordagem pode revitalizar a eficácia das sanções Americanas e aliadas, que perderam parte de seu impacto nos últimos anos. Contudo, essa estratégia é arriscada, pois pode provocar retaliações de outros países. Se Washington visa estabelecer uma nova fase de guerra econômica híbrida, precisa formular uma doutrina clara que defina quando aplicar sanções, quando usar força para sustentá-las e definir um fundamento legal para suas ações. Sem essa clareza, os Estados Unidos correm o risco de enfrentar retalições econômicas, cibernéticas ou até mesmo militares, além de criar precedentes perigosos para a captura de propriedades americanas e aliadas, mesmo fora de contextos bélicos.
A Fuga das Sanções
A lógica por trás da virada de Trump para a guerra econômica híbrida é simples: ele precisa manter a pressão econômica sobre adversários exportadores de petróleo. Nas semanas recentes, os Estados Unidos afrouxaram temporariamente as sanções sobre o petróleo russo e iraniano em resposta ao fechamento do Estreito de Ormuz e ao aumento rápido dos preços globais do petróleo. No entanto, a realidade é que a maior parte do petróleo da Rússia e do Irã já estava disponível no mercado global, apesar das sanções.
Nos últimos anos, a eficácia das sanções tem diminuído, especialmente em relação à redução do volume das exportações de petróleo dos países visados. Após os ataques de 11 de setembro, as sanções se tornaram a principal ferramenta dos formuladores de políticas dos EUA, chegando a ter sucesso em evitar que os adversários lucrassem com a venda de petróleo. Por exemplo, as sanções impostas ao Irã reduziram suas exportações de mais de dois milhões de barris por dia em 2011 para menos de um milhão em 2014, ajudando a levar Teerã a aceitar o acordo nuclear de 2015.
Trump utilizou sanções com forte impacto econômico durante seu primeiro mandato. Após retirar os EUA do acordo nuclear iraniano em 2018 e reimpôr sanções, as exportações de petróleo do Irã caíram em 75%. A campanha de “máxima pressão” sobre a Venezuela, um país já afetado por corrupção e má administração, fez suas exportações despencarem de 1,6 milhão de barris por dia em 2017 para menos de 500 mil em 2020.
Um Novo Cenário Geopolítico
Contudo, sob a administração Biden, as exportações de petróleo do Irã começaram a se recuperar, apesar da decisão de não retomar o acordo nuclear. Essa recuperação pode ser atribuída a uma postura menos rigorosa em relação à aplicação das sanções. Contudo, a real explicação para o aumento das exportações iranianas é a diminuição da eficácia das sanções dos Estados Unidos.
A resistência das vendas de petróleo da Venezuela às sanções já era evidente antes do bloqueio naval de Trump. Embora os dados sobre as exportações de petróleo venezuelano sejam difíceis de rastrear, elas parecem ter se mantido estáveis ou até aumentado em relação a 2024. As sanções também mostraram pouco impacto no volume de exportações de petróleo da Rússia, que se manteve relativamente estável, mesmo com sanções europeias. O descontentamento da Ucrânia com a ineficácia das sanções ocidentais levou a uma intensificação de ataques militares à infraestrutura energética da Rússia.
O Novo Paradigma das Sanções
A capacidade das sanções de provocar mudanças significativas tem diminuído, em parte devido à formação de uma rede econômica global alternativa. As sanções dos EUA tinham como base a posição de oferecer uma escolha às empresas: negociar com Washington ou com os adversários, mas não com ambos. Aquele que optasse por fazer negócios com adversários enfrentaria a possibilidade de ser excluído do mercado americano, perdendo acesso ao dólar, tecnologia e seguros ocidentais, bem como a capacidade de realizar pagamentos através de bancos dos EUA.
No entanto, a escolha já não é tão clara para muitas empresas. Um número crescente está disposto a correr o risco de ser excluído do mercado americano devido às oportunidades comerciais em outros lugares. À medida que os EUA intensificam as sanções sobre grandes países, como a Rússia, esses países estão formando suas próprias redes independentes da economia dos EUA.
O Impacto das Novas Estratégias
Após a invasão da Ucrânia, Washington e seus aliados do G-7 tentaram limitar os lucros de Moscou com uma “tampa de preço” sobre o petróleo russo. Isso significava que a Rússia não poderia usar serviços de transporte ocidentais para seu petróleo. Em resposta, a Rússia gastou cerca de US$ 10 bilhões em novos petroleiros para garantir a capacidade de enviar seu petróleo sem depender de outros países. Hoje, essa frota “sombra”, composta de mais de 1.000 navios, continua a operar, mesmo sob sanções.
Por outro lado, a China tem um papel vital nesse novo ecossistema de comércio. Em 2025, o país adquiriu cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã, sendo também o maior comprador dos carregamentos venezuelanos e russos. Embora algumas grandes empresas chinesas cumpram sanções americanas, outras não têm o mesmo temor, por isso, eles estão explorando as oportunidades nesse comércio desafiador.
O Desafio do Uso Militar
A decisão de Trump de usar a Marinha para intervir em navios de petróleo sancionados altera a dinâmica das sanções e também levanta questões legais e políticas que os EUA devem enfrentar. Tradicionalmente, as sanções operaram segundo um princípio de “congelamento”: os ativos sancionados eram congelados, mas a propriedade não era transferida para os EUA. Porém, apreender um navio significa que o governo assume a posse do ativo, criando um desafio legal.
Atualmente, a administração Trump usa leis que permitem a apreensão de recursos ligados a grupos designados como terroristas. Trump classificou a Guarda Revolucionária Islâmica, do Irã, como uma organização terrorista em 2019 e agora utiliza essa designação como base legal para as apreensões. No entanto, para alvos que não possuem ligação clara com o terrorismo, Washington precisará de uma base legal alternativa para proceder.
A resposta de outros países também deve ser considerada. A adoção total da guerra econômica híbrida pode provocar retaliações. Autoridades russas já descreveram as apreensões de petroleiros dos EUA como “pirataria”. Nesse contexto, as tensões podem aumentar e gerar mal-entendidos que levarão a uma escalada militar.
Perspectivas Futuras
A era da guerra econômica híbrida traz desafios e oportunidades. O papel da cibernética também complica a estratégia americana. Desde os anos 90, Washington evitou a guerra econômica híbrida, condenando ações como as apreensões de navios do Irã no Golfo Pérsico. No entanto, a realidade atual exige uma reconsideração das estratégias, à medida que as ameaças cibernéticas se intensificam.
Enquanto os EUA buscam se adaptar, a criação de uma doutrina clara sobre a guerra econômica seria um passo positivo. Essa doutrina poderia constituir princípios orientadores sobre o uso de sanções e a força militar para assegurar uma abordagem coerente e evitar uma escalada desnecessária.
É evidente que os meses vindouros trarão uma expansão das operações de guerra econômica híbrida, mas, sem diretrizes firmes, o futuro permanece incerto e envolto em complexidade. O cenário global está mudando, e os movimentos de hoje definirão o campo de batalha econômico de amanhã. Que outros países também estejam cientes de seus próximos passos é um lembrete de que cada ação gera uma reação, e o jogo apenas começou.
