Diplomacia e o Caminho para a Paz na Guerra da Ucrânia
Desde o início de 2025, os Estados Unidos têm se empenhado intensamente em esforços diplomáticos para terminar o conflito na Ucrânia. As negociações ocorreram em locais como Abu Dhabi, Berlim, Genebra, Istambul, Paris e Riade, com enviados fazendo a ponte entre Moscou e Miami. Embora tais movimentações sejam dignas de nota, a realidade é que atividade sem uma estratégia bem definida não garante resultados significativos.
A situação atual, marcada por intensos ataques em ambas as nações, mostra que precisamos repensar a abordagem diplomática. Para realmente avançar em direção à paz, Washington deve tirar lições de décadas de experiências em mediação internacional. Cada conflito tem suas peculiaridades, mas as negociações anteriores nos ensinam que um processo bem estruturalizado é fundamental. A sensação de pertencimento, um acordo sobre os procedimentos e a construção de relações pessoais são fatores que aumentam as chances de sucesso nas negociações. Sem esses elementos, os esforços para cessar as hostilidades tendem a falhar, resultando em custos estratégicos, econômicos e humanos cada vez mais altos.
A Disposição para Dialogar
Para que as negociações aconteçam, é imprescindível que todas as partes estejam abertas ao diálogo. Apesar de Kiev expressar interesse por um cessar-fogo e conversações, a retórica agressiva de Vladimir Putin – que chamou o governo ucraniano de “junta” em maio – e os ataques crescentes em cidades ucranianas indicam que ele não parece estar disposto a conversar por enquanto.
No entanto, Putin enfrenta, atualmente, a maior pressão econômica, militar e política desde que iniciou a invasão em fevereiro de 2022. Em junho de 2026, suas forças avançaram menos de meio quilômetro por dia, uma redução impressionante em comparação com o ano anterior. Enquanto isso, os ataques da Ucrânia, agora mais eficazes, têm desestabilizado o setor energético russo e diminuído a receita estatal. As ações de Kiev afetam a vida cotidiana nas grandes cidades, e a opinião pública russa começa a mostrar sinais de descontentamento. A pressão crescente sobre o Kremlin torna as coisas complicadas para apresentar um resultado robusto nas eleições da Duma de setembro. Não dá para afirmar que isso levará Putin a optar por negociações, mas a pressão atual merece ser testada.
A Importância do Processo
Um processo bem desenhado é essencial não só para medir as intenções de Putin, mas também para influenciá-las. A história mostra que líderes buscam negociações quando percebem que estão lutando para alcançar seus objetivos militares ou quando enxergam uma alternativa viável à guerra. Um processo sério pode ajudar as partes a imaginar um resultado negociado que atenda a seus interesses e preocupações principais. Sem isso, a paz se torna uma ideia distante.
A Complexidade da Mediação em Guerras
Medir um conflito em larga escala é um dos desafios mais complicados nas relações internacionais. Com o prolongamento das hostilidades, a animosidade e o desejo de vingança tornam a guerra um ciclo vicioso. Os líderes normalmente se veem em uma luta existencial contra um inimigo impiedoso, tratando as negociações como uma distração sem sentido.
Resolver esses problemas exige esforços persistentes e contínuos de uma equipe altamente capacitada. É vital reunir profissionais com experiência e conhecimento profundo do contexto do conflito. Além disso, a mediação geralmente envolve mais de um terceiro. Nos processos bem-sucedidos, temos um mediador principal trabalhando em conjunto com estados ou organizações de apoio. Por exemplo, a França, Alemanha, Itália, Rússia e Reino Unido formaram um grupo de contato que apoiou as negociações lideradas pelos EUA que puseram fim à guerra da Bósnia em 1995. Já em relação à Ucrânia, Washington tem operado de forma quase isolada, com os aliados europeus e parceiros do Golfo, apesar de seu papel crucial, muito restritos.
O Papel da Europa nas Negociações
É fundamental que governos europeus, como partes interessadas essenciais no futuro da Ucrânia e na segurança do continente, sejam incluídos nas discussões. Com sua vasta experiência em mediação, eles deveriam co-patrocinar o processo junto aos Estados Unidos. Há muitos oficiais na Europa com experiência relevante, como Jonathan Powell, o principal negociador britânico durante os diálogos do Acordo de Diretório. Um grupo de contato poderia ser estabelecido, seguindo o modelo que apoiou o acordo de paz bósnio. Isso garantiria maior coerência diplomática e ajudaria a articular recursos, expertise e apoio político.
O Desenho do Processo
Embora não exista um modelo único para negociações bem-sucedidas, todas as experiências passadas revelam um ponto em comum: as partes devem estar genuinamente investidas no processo. É natural que qualquer processo de paz enfrente reveses e tentativas de sabotar os esforços. Assim, a dedicação às conversas é crucial para superar essas barreiras. Sem um sentimento de propriedade, o resultado final é pouco significativo. Um dado alarmante indica que quase metade dos acordos de paz falham dentro de cinco anos. Um settlement entre Rússia e Ucrânia encontra desafios ainda mais complexos, como reivindicações territoriais inconsistentes e o legado fracassado dos acordos de Minsk.
As partes precisam moldar o processo para que se sintam responsáveis pelo seu sucesso. Quando envolvidas em um processo que foi imposto por outros, tendem a seguir o fluxo, mas frequentemente sem o compromisso necessário.
Estrutura e Regras
Mediadores devem trabalhar com as partes para concordar sobre um processo que elas apoie. Um acordo de processo deveria estabelecer a frequência e o local dos diálogos. O ideal é que as partes se reúnam regularmente em um mesmo lugar para simplificar a logística. Além disso, as negociações tendem a ser mais eficazes quando todos os envolvidos estão na mesa conversando sobre um único texto.
Por outro lado, as discussões sobre a guerra na Ucrânia têm ocorrido de forma intermitente, em múltiplos locais e sem a presença conjunta de todos os atores relevantes. As conversas têm gerado diferentes rascunhos, mas sem um texto central que una as questões. Se um acordo em um canal é inaceitável para outro lado, isso pode rapidamente comprometer todo o processo.
É crucial que um acordo de processo também trace um mapa para as conversas, com uma agenda sequencial que garanta direção e coerência. Interesses variados e preocupações de cada parte precisam ser abordados; de um lado, Kiev pode exigir garantias de segurança e respeito por seus direitos soberanos, enquanto do outro, Moscou pode pleitear exclusão da Ucrânia na OTAN e alívio de sanções.
Construindo Confiança ao Longo do Caminho
Um processo bem estruturado serve a dois propósitos: cria relações funcionais entre as partes e possibilita avanços nas disputas. O engajamento entre os lados em conflito, embora possa não extinguir a desconfiança imediata, estabelece expectativas de comportamento que trazem previsibilidade na interação.
O meio mais confiável para promover essas expectativas é o diálogo contínuo e discreto entre as partes. Difícil encontrar processos de paz exitosos que não tenham dependido de um planejamento cuidadoso e uma abordagem reservada nas etapas iniciais.
Conclusões de médias e práticas
Os mediadores têm várias estratégias à disposição que podem ajudar nas conversações entre Rússia e Ucrânia. O foco deve ser direcionado para as preocupações e interesses mais profundos de cada lado, em vez de suas posições e demandas superficiais. Essa tática pode ajudar a desfazer as narrativas de “perda ou ganho” e dar razões para que ambos permaneçam às mesas de discussões.
O futuro pode ser incerto, mas com os custos da guerra crescendo a cada dia, é fundamental buscar incansavelmente pela paz. Algumas teorias e práticas da diplomacia internacional podem nos guiar nesse processo. Os desafios são significativos, mas com uma abordagem cuidadosa e a disposição de todos os envolvidos, o diálogo pode abrir caminho para um futuro de paz. Que as lições do passado sirvam para moldar um caminho mais promissor adiante.
