Multas regulatórias podem levar funcionários a pedir demissão, além de gerar custos jurídicos e financeiros para as empresas. Um estudo publicado no Academy of Management Journal analisou dados de 735 companhias de capital aberto dos Estados Unidos ao longo de oito anos e identificou aumento na saída voluntária de trabalhadores após violações que prejudicaram funcionários, consumidores, comunidades ou o meio ambiente.
Infrações elevam a rotatividade
Os pesquisadores combinaram informações de carreiras do LinkedIn, registros de penalidades regulatórias da base Violation Tracker e dados financeiros da Compustat, entre outras fontes. A análise considerou infrações sancionadas por órgãos reguladores, como derramamentos ambientais, violações trabalhistas, falhas de segurança de produtos, fraudes contra consumidores e irregularidades financeiras.
Para comparar a gravidade das penalidades entre empresas de portes diferentes, o estudo relacionou o valor total das multas à receita anual de cada companhia. A medida permite distinguir, por exemplo, o peso de uma penalidade de US$ 100 milhões para uma empresa que fatura US$ 2 bilhões daquele que teria para uma companhia com receita de US$ 200 bilhões.
Segundo os resultados, infrações equivalentes a 5% da receita anual estão associadas a um aumento de 3,93% na rotatividade de funcionários. Em uma empresa mediana da amostra, com receita de US$ 4,9 bilhões e cerca de 13 mil trabalhadores, isso corresponderia a aproximadamente 55 desligamentos voluntários adicionais em relação ao nível normal.
O efeito foi observado em diferentes níveis hierárquicos, faixas de renda, níveis de formação e regiões geográficas. Portanto, as saídas não se restringiram a executivos ou a grupos específicos de empregados.
Os autores estimaram que substituir cada profissional que deixa a empresa pode custar o equivalente a 100% de seu salário anual. Esse cálculo não inclui perdas indiretas, como conhecimento acumulado, rompimento de relações dentro das equipes e redução de produtividade. Também não considera eventuais aumentos no tempo e no custo de recrutamento depois de novas violações públicas.
Repetição e alcance ampliam o impacto
O estudo identificou três fatores que influenciam a reação dos funcionários: a extensão geográfica das infrações, o intervalo entre episódios semelhantes e o grau de novidade do problema em relação ao histórico da empresa.
O alcance territorial ajuda a determinar se os trabalhadores interpretam uma ocorrência como localizada ou como sinal de uma falha organizacional. Quando os problemas se concentram em uma fábrica ou unidade, eles podem ser atribuídos a circunstâncias locais ou à atuação de um gestor. Quando aparecem em vários estados ou instalações, essa explicação se torna menos convincente.
Na amostra, violações registradas em seis estados foram associadas a um aumento de 10,5% nos desligamentos. Quando ocorreram em dois estados, a elevação foi de 1,5%. Nos casos mais localizados, a intensidade das multas não teve efeito estatisticamente relevante sobre a rotatividade.
A sequência dos episódios também importa. Infrações de intensidade semelhante ocorridas em rápida sucessão praticamente dobraram o efeito sobre as demissões. Já quando havia um intervalo de quatro anos ou mais entre elas, o impacto desaparecia.
Outro fator é a natureza da infração. Empresas que repetem uma categoria de irregularidade tendem a reter mais funcionários do que aquelas que passam a enfrentar novos tipos de problema. Os pesquisadores chamam de “deriva moral” a percepção de que as falhas estão se espalhando pela organização. Uma empresa conhecida por problemas ambientais que passa a ser envolvida em fraude financeira, por exemplo, pode sinalizar aos trabalhadores uma deterioração mais ampla de sua cultura.
Reputação influencia decisões de carreira
Os pesquisadores não encontraram evidências de que as violações reduzam salários, benefícios de aposentadoria ou gastos com funcionários. Os dados indicam que as saídas parecem estar mais ligadas a preocupações com reputação e valores pessoais do que a incentivos financeiros.
Os trabalhadores que deixam empresas com muitas violações também não se distribuem aleatoriamente pelo mercado. Segundo o estudo, eles tendem a migrar para companhias do mesmo setor com histórico mais positivo. Esse movimento é mais forte em setores em expansão, nos quais há mais oportunidades profissionais e os trabalhadores podem escolher entre empregadores.
Com isso, empresas com boas práticas podem atrair profissionais experientes que saem de concorrentes envolvidos em problemas. O movimento também pode reforçar a diferença entre organizações: companhias que perdem trabalhadores qualificados podem se tornar menos atraentes para novas contratações, enquanto as que mantêm um histórico positivo ganham vantagem na disputa por talentos.
Para as empresas penalizadas, a resposta à infração pode influenciar a decisão de seus funcionários. Uma explicação clara sobre o que falhou, acompanhada de responsabilização e mudanças, pode ajudar a demonstrar que o episódio foi uma exceção. Respostas defensivas ou evasivas, por outro lado, podem reforçar a impressão de que o problema é estrutural.
Os resultados indicam que multas não são o único custo de uma violação regulatória. A perda de profissionais pode levar embora conhecimento institucional, relações com clientes e capacidade de trabalho das equipes. Por isso, o estudo aponta que controles internos, prevenção e responsabilização também têm efeito sobre a retenção de pessoas, além de ajudar a evitar penalidades.