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Etna: O Vinho do Vulcão que Conquista o Mundo e Redefine sua Identidade

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A Magia dos Vinhos do Etna: Entre Terroir e Inovação

Quando a Denominação de Origem Controlada (DOC) Etna convoca a imprensa e os operadores do setor vitivinícola, o impressionante vulcão italiano revela seu poder magnético. Com vinhedos que se agarram a encostas íngremes e terraços feitos de pedra vulcânica, o cenário é um espetáculo de viticultura heroica, algo que nenhuma outra região da Itália consegue igualar.

No entanto, por trás desse espetáculo, o Etna enfrenta um desafio intrínseco: a ambiguidade de sua identidade. Nesse território, onde beleza e vulnerabilidade coexistem, o sucesso na produção de vinhos depende tanto de técnicas apuradas quanto do terroir único da região.

Os Brancos: Um Novo Referencial

Os vinhos brancos do Etna estão conquistando destaque no cenário internacional, especialmente o Carricante. Este tipo de uva revela uma clareza e tensão que podem competir com os melhores brancos minerais da Europa. Na região de Milo, localizada na vertente oriental do Etna, essa variedade se sobressai, mostrando que, em condições ideais e altitudes elevadas, é possível alcançar uma acidez vibrante, notas salinas e uma verticalidade impressionante.

O surgimento da categoria Etna Bianco Superiore destaca ainda mais essa promissora potencialidade. Contudo, a regulamentação que permite a inclusão de várias outras variedades ao lado do Carricante, sem definir um percentual mínimo, pode diluir a identidade do vinho, resultando em estilos diversos e uma percepção de qualidade inconsistente.

Desafios da Identidade

A situação é ainda complicada pela proibição de indicar no rótulo quais variedades foram usadas. Essa decisão, apesar de ter como intenção elevar a classificação do Etna acima das castas específicas, gera confusão para consumidores menos experientes. Os brancos do Etna falam de precisão e frescor, mas carecem de clareza normativa que ajudaria na construção de uma identidade forte e reconhecível.

Os Tintos: Uma História Mais Complexa

Já os vinhos tintos do Etna, principalmente elaborados com a uva Nerello Mascalese, apresentam um enredo mais intricado. Conhecida como o “Nebbiolo do Sul”, essa variedade é desafiadora. Seus taninos, naturalmente austeros, exigem cuidados rigorosos tanto no cultivo quanto na vinificação. Um manejo inadequado pode resultar em taninos verdes e texturas secantes, comprometendo o equilíbrio do vinho.

A madeira também precisa de atenção para não sobrecarregar a delicadeza da fruta. Quando bem trabalhada, a Nerello Mascalese é capaz de produzir vinhos sofisticados, com aromas elegantes e estrutura delicada, mas a inconsistência técnica ainda é um ponto a ser superado.

A Influência do Vulcão

O grande charme do Etna atrai apaixonados, investidores e pequenos viticultores, criando uma imagem sedutora. Entretanto, essa glamourização pode levar à produção de vinhos de qualidade desigual, já que muitos pequenos produtores, sem a expertise necessária, não conseguem dominar a complexidade do Nerello Mascalese. O resultado é uma diversidade de rótulos que, embora interessantes, colidem com uma qualidade muitas vezes oscilante.

A fragmentação do mercado apresenta outro problema crônico: a escassez de vínculos entre pequenos produtores que não conseguem se consolidar na distribuição. Isso significa que, apesar da fama crescente, muitos consumidores não têm acesso ao vinho do Etna, criando um paradoxo: fala-se muito sobre o Etna, mas sua presença nos copos é limitada.

Uma Região em Crescimento e Desafios

Os dados de mercado revelam um território que mescla vitalidade e fragilidade. A produção tem seguido uma curva crescente, com um aumento de 6,2% em garrafas comparado ao ano anterior, totalizando 3,5 milhões de unidades. A vindima de 2024 trouxe uma recuperação impressionante de 60%, em resposta a um ano anterior afetado pela seca.

Atualmente, a DOC do Etna abrange cerca de 1.500 hectares, distribuídos em vinte municípios e mais de 140 contrade. Aproximadamente 60% da produção é destinada à exportação, com os Estados Unidos, Canadá, Suíça e Reino Unido como principais mercados. Apesar de demonstrar dinamismo, a quantidade ainda é insuficiente para construir uma presença sólida nos mercados internacionais.

O Comportamento do Consumidor

Nos mercados externos, principalmente nos EUA, os vinhos do Etna têm se mostrado competitivos, especialmente no setor de HoReCa (hotéis, restaurantes e cafés). A performance do vinho Etna se mantém estável, com uma leve queda de apenas 0,2% no primeiro semestre de 2024, em contrastes com a queda de 8,8% do vinho italiano em geral. Isso demonstra que, enquanto os vinhos do Etna se destacam em ambientes de consumo fora de casa, enfrentam desafios em redes de varejo.

Na Itália, o panorama geral do vinho apresenta leve crescimento em valor nas grandes distribuições, mesmo sem dados específicos para o Etna. A imagem do “vinho do vulcão” pode atrair a atenção, mas isso não garante fidelidade ou reconhecimento por parte dos consumidores.

Entre Pontos Fortes e Riscos

A DOC Etna tem plena consciência dos riscos que enfrenta. A expansão dos vinhedos foi limitada a 50 hectares por ano entre 2024 e 2027, uma estratégia prudente que visa evitar um crescimento descontrolado. A busca pela classificação DOCG reflete a intenção de formalizar regras mais rigorosas e estabelecer hierarquias qualitativas eficientes. O verdadeiro desafio não é apenas tornar o Etna famoso, mas garantir que essa fama esteja alicerçada em uma base sólida de excelência.

Oportunidades de Melhoria

Os esforços em práticas orgânicas e biodinâmicas por parte de uma nova geração de viticultores têm gerado resultados promissores. O resgate de terras e a biodiversidade são riquezas para a região, enquanto o enoturismo cresce, atraindo visitantes que se encantam com o vulcão e sua rica história vitivinícola. A proximidade com cidades como Catânia e Taormina torna o Etna um destino irresistível.

Vinhos Imperdíveis do Etna

Aqui estão alguns vinhos em destaque que você não pode deixar de experimentar:

Brancos

  • Ammara 2022: Com boa densidade e acidez marcante, é um branco que impressiona pela clareza e caráter floral.

  • Calcagno “Ginestra” 2024: Um vinho concentrado que preza pela definição e verticalidade, ideal para aqueles que buscam evolução.

  • Benanti Pietra Marina 2020: Grande complexidade e estrutura, este vinho resiste ao tempo com elegância.

Tintos

  • Fede Graziani Profumo di Vulcano 2022: Um vinho equilibrado, com aromas refinados e uma textura tânica suave.

  • Girolamo Russo Feudo 2022: Elegante e complexo, é um dos tintos mais equilibrados, pronto para ser degustado agora, mas com potencial para evolução.

  • Tasca d’Almerita Rampante 2021: Um tinto estruturado, com acidez suculenta, ideal para quem aprecia complexidade.

A jornada pelos vinhos do Etna é fascinante e cheia de potencial. Se essa incrível denominação conseguir equilibrar sua diversidade com uma identidade robusta, o Etna não apenas será conhecido como o vinho atraente de um vulcão, mas como um dos terroirs vitivinícolas mais respeitados da Europa.
As promessas estão no copo e apenas aguardando para serem descobertas. Que tal brindar a essas possibilidades e explorar o que o Etna tem a oferecer?

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