
Em uma iniciativa ousada e inovadora, Pedro Plastino, 30 anos, ex-Faria Lima, e Rodrigo Brandão, de 45, com experiência no BNDES, uniram forças para lançar um projeto que busca transformar a preservação da Amazônia em uma oportunidade de renda e governança local. Com um investimento de R$ 1,5 milhão, anunciaram, em primeira mão à Forbes, o nascimento da empresa Jóias Ecológicas, que atuará no mercado de carbono nas comunidades amazônicas.
O nome da empresa não é por acaso. Para Plastino, “a joia representa áreas públicas de reservas florestais reconhecidas pela sua biodiversidade e a proteção das comunidades locais”, destacando a importância dessas regiões.
Com uma equipe técnica composta por ex-funcionários do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a Jóias Ecológicas tem sob sua gestão 740 mil hectares de florestas e manguezais, com uma meta ambiciosa de alcançar 2 milhões de hectares até 2026. O próximo ano promete ser significativo, já que será feita a primeira venda pública de créditos de carbono da empresa no primeiro semestre.
Plastino compartilha que “o nosso objetivo é gerar 1 milhão de toneladas de créditos de carbono anualmente”. Esta ambição, segundo ele, é enorme e tem um potencial transformador.
Compreendendo o mercado de carbono
A declaração de Plastino é relevante dentro do contexto atual dos mercados de carbono: o regulado e o voluntário. O mercado regulado é estruturado através do ETS (Sistema de Comércio de Emissões), onde são estabelecidas cotas de emissões e permissões, gerando 67% das receitas de carbono regulado, correspondente a US$ 69,1 bilhões (R$ 370,2 bilhões). Por outro lado, o mercado voluntário representa 33%, com cifras de US$ 33,1 bilhões (R$ 177,3 bilhões), conforme estudo da PwC Brasil.
- CBIOs: Créditos de Descarbonização são um exemplo importante no mercado regulado e fazem parte da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), onde produtores de cana recebem por tonelada de carbono sequestrado.
- No mercado voluntário, as empresas e indivíduos têm a liberdade de compensar suas emissões adquirindo créditos gerados por iniciativas de descarbonização.
Os preços dos créditos de carbono no mercado voluntário variam amplamente, girando entre US$ 5 (R$ 26,8) e US$ 24 (R$ 128,6) por tonelada de CO2, podendo ultrapassar US$ 170 (R$ 910,6) em créditos tecnológicos.
Um propósito com impacto social
Mesmo sendo um mercado desafiador, a visão de Plastino é clara: “O crédito de carbono deve ser visto como o início de uma conversa”, enfatizando o compromisso da Jóias Ecológicas em destinar 70% dos resultados líquidos às comunidades locais, apoiando a governança e promovendo infraestrutura como água, eletricidade e conectividade.
A empresa está se estabelecendo com três bases: duas no Pará (Belém e Santarém) e uma em Rondônia (Porto Velho). Em Belém, estão desenvolvendo projetos em manguezais, com a ambição de conservar 200 mil hectares, gerando o que é conhecido como crédito de carbono azul (Blue Carbon).
Os outros núcleos estão focados na Floresta Amazônica, com o objetivo de transformar a conservação em um ativo econômico que beneficie diretamente as comunidades extrativistas.
Inovação e bioeconomia
A estrutura operacional da Jóias Ecológicas visa a geração de créditos de carbono com total integridade técnica, contando com a certificação internacional da Verra, que segue os CCB Standards (Padrões de Clima, Comunidade e Biodiversidade).
Além de alocar parte significativa dos resultados em investimentos comunitários, a empresa visa fortalecer a bioeconomia, valorizando produtos locais como açaí, pirarucu e castanha.
“Imaginemos o impacto positivo que podemos gerar ao agregar valor às cadeias produtivas tradicionais”, reflete Plastino.
Desafios do mercado voluntário
Embora o mercado voluntário esteja crescendo, enfrenta desafios relacionados à integridade e ao risco de lavagem verde, uma prática enganosa que diz respeitar padrões de sustentabilidade mas não tem fundamentos reais. Este tema foi amplamente discutido na COP30.
A Jóias Ecológicas adota uma abordagem para mitigar esses riscos, com uma certificação robusta e um rigoroso processo de avaliação dos compradores, garantindo que tenham metas reais de redução de emissões.
“Nossos projetos são certificados conforme a metodologia da Verra e seguem o marco legal brasileiro de carbono comunitário, assegurando a participação justa das comunidades”, explica Plastino.
Perspectivas promissoras para o futuro
Se a Jóias alcança sua meta de 2 milhões de hectares, o impacto social pode ser vasto, beneficiando milhares de pessoas em comunidades extrativistas. Os benefícios esperados vão desde serviços essenciais, como abastecimento de água e eletricidade, até a ativação de cadeias produtivas com maior valor agregado.
Essa trajetória é alentadora, já que a demanda por créditos de carbono está prevista para aumentar significativamente, impulsionada pela crescente importância da agenda ESG (Ambiental, Social e Governança).
Globalmente, o mercado de créditos de carbono que atingiu US$ 200 milhões há uma década, escalou para US$ 1 bilhão em 2021, e projeta-se que poderá chegar a US$ 50 bilhões até 2030, conforme relata a McKinsey.
O Brasil se destaca nesse cenário por concentrar 15% do potencial global de captura de carbono por meio de soluções naturais, o que pode atender até 48,7% da demanda global, segundo estudos.
O fortalecimento deste mercado se intensifica com a sanção da lei que cria o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) no final de 2024, que estabelece um marco regulatório para o mercado de carbono no país.
De acordo com a PwC Brasil, o Brasil pode potencialmente gerar 370 milhões de toneladas de créditos de carbono até 2030, um montante que supera em nove vezes a demanda interna prevista.