“As sementes são muito mais do que um simples ponto de partida para uma colheita; elas são a essência do futuro agrícola.” Essa definição de Fernando Henning, pesquisador da Embrapa Soja e presidente da Abrates, destaca a importância crucial desse insumo no agronegócio brasileiro.
Residente no Paraná, Henning fez uma pausa em São Paulo para uma conversa com a Forbes Agro, pouco antes do 23º Congresso Brasileiro de Sementes, que aconteceu no mês passado em Foz do Iguaçu. Ele chamou a atenção para o fato de que, antes mesmo de chegar às lavouras, cada semente é o resultado de anos de pesquisa, aprimoramento genético e inovações como a biotecnologia e a inteligência artificial (IA).
Essas inovações sustentam um setor que gera, em média, R$ 38 bilhões anualmente no Brasil. Na soja, por exemplo, cerca de 80% das sementes utilizadas são oficiais, enquanto o mercado informal representa a parcela restante. De acordo com um estudo recente da CropLife Brasil, a pirataria de sementes gera perdas em torno de R$ 10 bilhões por safra apenas nessa cultura, colocando o Brasil entre os três maiores mercados de sementes do mundo, atrás apenas dos EUA e da China.
Para a safra de 2025/26, a área cultivada com sementes no Brasil é de 3,9 milhões de hectares, conforme dados da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem). Este número se manteve estável em relação à safra 2024/25, levando em conta as principais culturas, como soja e milho, além de pastagens e hortaliças.
Essas estatísticas explicam o porquê de empresas e instituições de pesquisa estarem apostando fortemente em tecnologias que maximizem as informações que podem ser extraídas de objetos tão pequenos quanto uma semente. A pesquisa não se limita mais a avaliar o quanto uma semente pode produzir, mas busca entender o que esses pequenos grãos podem nos contar antes mesmo de serem semeados.
Dentro de uma semente, há muito mais do que alimento e potencial produtivo; há, também, uma riqueza de dados que a inteligência artificial começa a explorar de maneira surpreendente e veloz.
Tecnologia que Antecede o Plantio

Historicamente, as inovações no setor de sementes estiveram ligadas principalmente ao aprimoramento genético e à biotecnologia. No entanto, a introdução da inteligência artificial representa um salto significativo nessa evolução.
“Os produtores de sementes são grandes consumidores de tecnologia e inovação”, aponta Henning. Ele acredita que a evolução do setor depende da adoção contínua de conhecimentos científicos, sem esquecer os princípios básicos da produção. “Qualidade é a palavra-chave”, enfatiza.
Essa mudança de paradigma faz com que as sementes deixem de ser vistas apenas como o começo de uma colheita e passem a ser reconhecidas como fontes de dados valiosos, vital para decisões agronômicas mais informadas, mitigação de riscos e aumento da eficiência na cadeia produtiva.
Quando a Máquina Aprende a Ver
Um exemplo notável dessa transformação é o sistema desenvolvido pela Universidade de São Paulo (USP), que utiliza iluminação especial, imagens hiperespectrais e algoritmos de IA para a avaliação de sementes de soja. Ao contrário dos métodos tradicionais, essa tecnologia consegue identificar características que não são visíveis a olho nu, estimando rapidamente o potencial de germinação e vigor das sementes de forma não destrutiva.
Na prática, a máquina reconhece padrões que indicam quais sementes têm maior probabilidade de originar plantas saudáveis. Embora essa mudança possa parecer sutil, representa um avanço significativo no controle de qualidade das sementes. Enquanto os métodos convencionais podem levar dias para fornecer resultados, a visão computacional reduz o tempo de análise, permitindo decisões mais ágeis sobre armazenamento, comercialização e uso.
Henning observa que esse é um dos principais avanços trazidos pela inteligência artificial. “A IA potencializa a análise de grandes volumes de dados. Ferramentas analíticas conseguem diagnosticar a qualidade de um lote em poucas horas, estabelecendo correlações com testes tradicionais que normalmente demoram mais para serem concluídos”, ressalta.
Após Ver, A IA Começa a Prever
Um passo adiante já está em progresso: pesquisas na Universidade Estadual Paulista (Unesp) focam em modelos de IA capazes de prever o comportamento fisiológico das sementes antes da semeadura. A meta é usar grandes conjuntos de dados para antecipar informações sobre a germinação, vigor e desempenho em diversas condições ambientais.
Essa evolução expande o papel da IA, que agora não só interpreta imagens, mas também cria modelos preditivos essenciais, especialmente em um cenário agrícola afetado por extremos climáticos. Eventos como El Niño e La Niña aumentam a necessidade de prever como as sementes se comportarão em diferentes ambientes. “Produzir sementes é como gerir uma fábrica ao ar livre”, comenta Henning.
“Não adianta cruzar os braços e esperar pela próxima crise climática. É fundamental saber como produzir mesmo diante das adversidades e ter ferramentas que ajudem nessa tarefa.”
Nesse quadro, sistemas preditivos começam a integrar um volume maior de informações, que vão desde aspectos genéticos e condições ambientais até históricos climáticos e práticas agrícolas. O resultado esperado é a redução das incertezas e o apoio à tomada de decisões técnicas antes que desafios surjam no campo.
Dados se Tornam Tão Valiosos Quanto a Genética
O impulso da inteligência artificial não se restringe apenas ao âmbito acadêmico. Empresas de biotecnologia no mundo todo também estão adotando IA no desenvolvimento de novas variedades de sementes.
O Syngenta Group, por exemplo, que opera no setor de proteção de cultivos e biotecnologia e obteve um faturamento de US$ 28,4 bilhões (aproximadamente R$ 146,3 bilhões) em 2025, colocou a inteligência artificial como prioridade estratégica. Em parceria com instituições, a empresa está usando IA para prever quais variedades se sairão melhor em diferentes regiões produtoras, além de investir em novas instalações de pesquisa e controle de qualidade.
Essa estratégia evidencia uma mudança crucial: o diferencial competitivo não se limita mais apenas ao desenvolvimento genético, mas se estende à habilidade de interpretar grandes volumes de dados sobre o comportamento das plantas em ambientes variados. A semente, enquanto produto final, continua valiosa, mas o conhecimento gerado a partir dela tornou-se um ativo igualmente fundamental.
Ciência em Primeiro Lugar
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, Henning adverte que a eficácia da tecnologia depende da qualidade das informações utilizadas no treinamento dos sistemas. “A IA não dirá ‘não sei’. Ela sempre dará uma resposta, e cabe ao pesquisador e ao produtor usá-la fundamentados em dados confiáveis”, ensina.
Isso ajuda a elucidar por que universidades, Embrapa e empresas privadas continuam a investir em pesquisa básica, experimentação em campo e construção de bases científicas sólidas. Para Henning, a inteligência artificial não substitui o conhecimento agronômico, mas o potencializa, ampliando a capacidade humana de análise.
A Tecnologia e as Sementes andam Juntas
Embora a inteligência artificial seja uma das principais inovações do setor, Henning enfatiza que muitos ganhos de produtividade ainda dependem da aplicação correta de práticas conhecidas. Considerações como secagem adequada, beneficiamento, armazenamento apropriado e rastreabilidade continuam a ser etapas cruciais para manter o potencial fisiológico das sementes.
“Às vezes, deixamos de lado o básico”, observa.
Ele lembra de casos em que sementes não são adequadamente secas para economizar, ficam expostas às intempéries ou são armazenadas em condições inadequadas, resultando em perda de vigor antes mesmo de serem plantadas.
Portanto, a inteligência artificial não elimina os fundamentos da tecnologia de sementes, mas se torna uma aliada na tomada de decisões mais precisas, sempre que combinada com boas práticas de produção. Essa sinergia é o que explica o crescente investimento do setor em tecnologia.