
Lúcio Lopez, um administrador de empresas paranaense, é o fundador e CEO da Greenline, uma inovadora empresa brasileira focada no setor de tecnologia para o mercado de carbono. Ele tem grandes planos para sua companhia, que incluem um faturamento projetado de R$ 250 milhões e a ampliação da operação envolvida no monitoramento de impressionantes 1,5 milhão de hectares de florestas em propriedades privadas no Brasil. Lopez estima que os projetos geridos pela Greenline realizam um sequestro médio anual de aproximadamente 25 milhões de toneladas de CO₂.
Após um investimento pessoal superior a R$ 35 milhões no desenvolvimento de sua tecnologia, Lopez está se preparando para uma nova empreitada: a criação de créditos de carbono respaldados por um seguro que protege contra riscos fundiários, cibernéticos e políticos. Recentemente, a Greenline anunciou uma colaboração com a RCGI-USP Carbon Registry, que visa fornecer evidências digitais a serem validadas no registro de projetos. Essa estratégia inovadora combina a capacidade de monitoramento por satélite com mecanismos de rastreabilidade, oferecendo uma maior confiabilidade ao mercado e, segundo Lopez, uma oportunidade de acesso ampliado.
“Em oito anos, todo o financiamento veio de mim e da minha família. Se somar tudo, já passam de 35 milhões de reais”, revela o executivo. A trajetória de Lopez em direção à criação da Greenline começou em 2018, enquanto ele acompanhava da distância, nos Estados Unidos, as notícias sobre desmatamento e incêndios florestais no Brasil. Com experiência em diversos setores, como a indústria moveleira, comércio exterior e mercado financeiro, passou a investigar como incentivos econômicos poderiam transformar a preservação florestal em uma alternativa lucrativa para os proprietários de terras.
“Uma maneira de desincentivar o uso do solo é oferecer ao proprietário uma opção rentável que o motive a preservar a floresta”, comenta.
Segundo informações da Embrapa Territorial, 66,3% do território brasileiro (aproximadamente 564 milhões de hectares) é coberto por vegetação nativa, sendo que 25,6% (218,2 milhões de hectares) estão protegidos dentro de propriedades rurais privadas pelos próprios produtores. Isso representa uma enorme oportunidade para a Greenline, que busca conectar os produtores que preservam e sequestram carbono com empresas desejosas de atenuar sua pegada de carbono. Entre essas empresas estão aéreas como Gol, Latam, e Azul; instituições financeiras como Banco do Brasil e Bradesco; e grandes indústrias como CSN, Gerdau e Vale. Lopez já teve reuniões com todos esses setores. “Em cada um, procuramos entender se seria vantajoso criar um novo padrão de crédito de carbono com base em dados espaciais”, afirma.
Analisando o potencial, o agronegócio brasileiro poderá gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035, com a capacidade de movimentar até R$ 3,5 bilhões no mercado internacional. Essa previsão está contida no estudo “O Agronegócio Brasileiro no Mercado Internacional de Carbono – Oportunidades Econômicas, Elegibilidade e Impactos na NDC”, publicado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
Inovações em monitoramento de créditos de carbono
A Greenline desenvolveu uma plataforma sofisticada, chamada dMRV, que proporciona monitoramento, relato e verificação digital, utilizando uma combinação de dados de satélites, sensoriamento remoto, inteligência artificial e informações geoespaciais. Esse sistema se apoia em dados de instituições renomadas, como a NASA e a ESA (Agência Espacial Europeia), além de um índice próprio, o GLVCI (Greenline Vegetation Carbon Index), que analisa diferentes domínios e aplica mais de 100 índices de vegetação.
O objetivo é monitorar constantemente as mudanças nas áreas analisadas, permitindo a recuperação de dados históricos que ajudam a estimar variações na vegetação e na quantidade de carbono armazenado. O uso dessa tecnologia possibilita a redução da dependência de levantamentos presenciais e gera registros digitais que documentam a situação de cada área ao longo do tempo.
Essa capacidade de produzir evidências confiáveis levou a Greenline a estreitar laços com a RCGI-USP Carbon Registry, cuja função está vinculada ao Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da Universidade de São Paulo. A parceria, formalizada em setembro, assegura que as informações geradas pela plataforma Greenline possam ser utilizadas na avaliação de projetos que atendem às metodologias e critérios estabelecidos pela registradora.
“A confiança nas informações apresentadas pelos projetos é fundamental para o mercado de carbono. Essa colaboração foi feita para reforçar essa confiança e a tecnologia da Greenline adiciona uma camada extra de segurança, garantindo que os dados realmente reflitam a situação observada em campo”, afirma Ruy Rêde, gerente de Transferência de Tecnologia e Inovação do RCGI-USP.
Rêde também ressalta que a tecnologia não substitui a função essencial da registradora. “Nosso trabalho é continuar avaliando as evidências ao longo do processo, mas a nova tecnologia reconhecida de verificação digital aumenta a robustez e a credibilidade das informações que chegam até nós”, complementa.
A distinção das responsabilidades é importante para a transparência do sistema: a Greenline fornece dados técnicos, enquanto a registradora examina as evidências com base em suas normas. A parceria não implica aprovação automática dos projetos nem elimina a necessidade de avaliações e auditorias independentes.
Adaptação de metodologias aos biomas brasileiros
De acordo com Odair Carrel, diretor executivo da RCGI-USP Carbon Registry, a inovação vai além do uso de tecnologias de satélite. Ela está na integração de tecnologias e metodologias que consideram as especificidades dos ecossistemas brasileiros e de nações do Hemisfério Sul.
“O que estamos implementando é uma inovação no mercado de carbono mundial. Estamos incorporando metodologias fundamentadas no IPCC e na UNFCCC, que são as bases referências para mensuração de carbono, para se adequar à realidade do mercado brasileiro e do Hemisfério Sul”, explica Carrel.
O executivo argumenta que muitas das metodologias tradicionais foram desenvolvidas levando em conta as condições do Hemisfério Norte. A proposta da registradora visa trabalhar com referências científicas que se apliquem aos biomas brasileiros, como a Amazônia, a Mata Atlântica, a Caatinga e o Pampa, focando também no carbono presente no solo e na biomassa.
“Não reinventamos a roda, mas trouxemos uma mensuração precisa que se adapta à realidade do Brasil e seus diversos biomas”, observa Carrel. Para ele, a adaptação das metodologias às características locais é um passo crucial para melhorar a qualidade da avaliação e possibilitar que os projetos de conservação e redução de emissões sejam analisados com maior precisão.
Rêde compara a transformação do mercado de carbono à digitalização do sistema financeiro. “Assim como o setor bancário evoluiu do cheque para o Pix, eliminando falhas operacionais, o mercado de créditos de carbono está prestes a passar por um processo similar, que prioriza digitalização e transparência”, afirma.
Com a tecnologia da Greenline, é possível não apenas acompanhar as mudanças em tempo real, mas também acessar dados históricos de uma área específica quando surgem questionamentos sobre a integridade de uma propriedade. “A Greenline trouxe um avanço tecnológico que é indiscutível, pois tudo é documentado e rastreável”, conclui.
Essa rastreabilidade pode ser crucial para identificar problemas como sobreposição territorial, mudanças na cobertura vegetal e inconsistências nas informações apresentadas pelos desenvolvedores de projetos. Embora isso não elimine os riscos associados aos créditos, proporciona um aumento na quantidade e na frequência das evidências disponíveis para análise.
A Greenline atualmente faz o monitoramento de 1,5 milhão de hectares no Brasil e estima que seus projetos estejam sequestrando em média 25 milhões de toneladas de CO₂ anualmente. Lopez também mencionou que mais 500 mil hectares estão em fase final de documentação, o que poderia elevar o total monitorado para 2 milhões de hectares.
A empresa conta com 111 projetos em seu pipeline, dos quais 56 já estão em operação em propriedades privadas. A projeção de um faturamento de R$ 250 milhões indica suas ambições comerciais. Contudo, o tempo estimado para atingir essa meta e os detalhes dessa projeção ainda não foram revelados pela empresa.
A estratégia de Lopez se concentra na acumulação de créditos para realizar vendas em maior escala, evitando a oferta de cada lote assim que se torna disponível. “Acredito que essa abordagem ajudará a atender empresas que necessitam compensar suas emissões em grande volume e que, segundo meu entendimento, ainda encontram dificuldades em localizar créditos confiáveis”, argumenta.
A importância da acessibilidade no mercado de carbono
A discussão sobre a escala do mercado de carbono está muito ligada à visão de Lopez acerca da precificação nesse setor. Ele acredita que o Brasil não deve adotar um modelo que encareça a descarbonização para as empresas. Em relação ao sistema europeu de comércio de emissões, ele argumenta: “O modelo europeu fez com que o valor do carbono subisse de forma excessiva, e o Brasil não pode repetir esse erro, pois isso geraria custos insuportáveis para as empresas.”
Lopez defende que um mercado com custos elevados pode afastar empresas e limitar a eficácia das iniciativas de compensação. Para ele, é essencial aumentar a oferta de créditos e abrir espaço para que projetos do mercado voluntário integrem o sistema regulado, ajudando assim a equilibrar a dinâmica entre oferta e demanda.
“É crucial que haja uma participação significativa de créditos voluntários convertíveis para garantir o funcionamento do mercado e a estabilização dos preços”, complementa.
A tecnologia digital desempenha um papel importante nesse contexto, atuando como uma ferramenta para simplificar processos operacionais, expandir o monitoramento e oferecer evidências em maior frequência. Se isso resultar em maior eficiência e custos reduzidos, poderá viabilizar o acesso de mais empresas ao mercado. Contudo, essa possibilidade depende de muitos fatores, como os custos reais dos projetos, as regras de elegibilidade e a qualidade dos ativos.
Em 2024, a Lei nº 15.042 instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que deverá definir as regras para o funcionamento do mercado regulado. A conversão de créditos voluntários em ativos reconhecidos pelo sistema dependerá dos critérios e metodologias estabelecidos na regulamentação. A expectativa é que a combinação de oferta, integridade e regras adequadas contribua para evitar um aumento descontrolado nos preços, que é visto como um obstáculo à competitividade por Lopez.
Segurança para compradores de créditos carbono
Outra iniciativa da Greenline é a proposta de um seguro para créditos de carbono. Lopez informou que a empresa está em negociações com uma corretora internacional para desenvolver uma apólice que cubra riscos fundiários, cibernéticos e políticos.
Esse tipo de coberturas poderia englobar problemas como questões documentais ou conflitos de propriedade que afetem a validade de um crédito, falhas cibernéticas que impactem registros digitais ou mudanças nas regulamentações que prejudiquem o ativo. Lopez afirma que a proposta inclui o reembolso do capital investido pelo comprador em situações cobertas pela apólice.
Essas medidas visam sanear uma vulnerabilidade no mercado, onde um crédito pode ser contestado ou perder valor após a compra. Embora o seguro possa agregar proteção financeira, ele não substitui a análise rigorosa da origem do crédito, da documentação fundiária e das condições do contrato da apólice. A seguradora, os limites de cobertura e as exclusões precisam ser claramente compreendidos para avaliar a efetividade dessa proteção.
A combinação de monitoramento via satélite, evidências rastreáveis e uma apólice de seguro pode tornar a aquisição de créditos mais segura para empresas que buscam mitigar riscos. Essa abordagem reforça a ideia de que o desenvolvimento do mercado de carbono não se limita à geração de créditos, mas depende da confiança de quem os adquire.