Moçambique traz uma mensagem de renovação e esperança às Nações Unidas, em um momento marcante: os 80 anos da organização. Ao mesmo tempo, o país comemora cinco décadas de independência de Portugal. Esta junção de celebrações representa uma oportunidade ímpar para refletir sobre os avanços e desafios enfrentados ao longo das últimas décadas.
No Debate Geral das Nações Unidas, o novo presidente moçambicano, Daniel Chapo, é a voz que representa a nação. Em sua primeira entrevista como líder, ele ressaltou a importância da ONU na construção de um futuro mais próspero e equitativo para todos. “A ONU continua sendo essencial; não conseguimos desenvolver um país sem paz e segurança. É fundamental estarmos inseridos neste grande órgão que toma decisões cruciais em nível global”, afirmou Chapo.
Visão para o Futuro: Uma Nova Geração
Chapo enfatiza o papel vital da juventude na construção de um futuro melhor. “Devemos cultivar a semente que o secretário-geral António Guterres lançou. Isso requer empenho e cuidado para que essa semente cresça e se torne uma ONU do futuro”, declarou. Ele chegou à ONU em meio a um clima tenso, após uma onda de violência em Moçambique, onde protestos e confrontos marcam o cenário político.
Além do desafio político, o novo presidente também enfrenta uma crise em Cabo Delgado, uma província rica em recursos naturais, que sofre com a atuação de extremistas islâmicos desde 2017. O conflito já resultou em deslocamento forçado de cerca de 1 milhão de pessoas. Chapo relata que, apesar dos esforços de países africanos em fornecer suporte, “ataques esporádicos” ainda persistem, dificultando a estabilidade na região.
Cabo Delgado: Um Desafio Persistente
Na província de Cabo Delgado, a exploração de recursos como gás natural vem gerando expectativa de progresso, com investimentos em grandes projetos avaliados em bilhões de dólares. No entanto, a instabilidade causada pelos ataques terroristas frustra o potencial de desenvolvimento. Chapo mencionou parcerias com empresas como Eni e Total, que estão investindo recursos significativos, mas destaca que é imprescindível garantir a segurança para atrair e manter esses investimentos.
- Projetos em Cabo Delgado:
- Coral Sul e Coral Norte, com a Eni (italiana) – US$ 14 bilhões.
- Projeto da Total (francesa) – US$ 15 bilhões.
- Projeto da Exxon (americana) – US$ 20 bilhões.
- Impacto do terrorismo:
- Desde 2017, Cabo Delgado tem enfrentado ataques de grupos terroristas.
- Mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas devido à violência.
Além do enfrentamento à violência, Chapo propôs um diálogo nacional com vistas à reconciliação e entendimento, buscando promover um ambiente de paz duradoura e inclusão social.
Desastres Naturais e o Impacto Climático
2019 foi um ano desastroso para Moçambique, com a passagem de dois ciclones devastadores: Idai e Kenneth. Desde então, o país tem enfrentado uma crescente frequência de desastres naturais, resultando em milhões de desabrigados. Chapo, ciente da necessidade de um sistema de alerta precoce, está trabalhando para implementar essa ação em todo o território moçambicano.
Na iminente Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, COP30, o presidente Chapo defende a responsabilidade dos países poluentes em contribuir para ações climáticas. Para ele, a ONU é o espaço adequado para fomentar esse diálogo essencial.
Desde 2017, Cabo Delgado sofre ataques de grupos terroristas, o que resultou na fuga de cerca de 1 milhão de pessoas
Desafios da Justiça Global
Chapo ressaltou a importância da comunicação multilateral, alertando que a ausência desse espaço pode levar a um cenário em que as decisões são tomadas apenas pelos mais poderosos. “Organizações multilaterais, como a ONU, são fundamentais. Precisamos transformar palavras em ações concretas”, enfatizou.
Recentemente, Moçambique estabeleceu uma estratégia de financiamento climático, aprovada pelo Conselho de Ministros, mas a execução efetiva dessas iniciativas é crucial para promover a justiça climática e seus desdobramentos.
Com a 80ª Sessão da Assembleia Geral em andamento, um dos focos é o Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial. Chapo apoia a ideia de que as políticas de IA devem priorizar a humanidade, garantindo que a tecnologia beneficie a sociedade.
Moçambique possui mais de 60% da população com menos de 24 anos
O Papel das Redes Sociais
O presidente Chapo reconhece a relevância das redes sociais como uma ferramenta de comunicação e informação. No entanto, adverte sobre os perigos das fake news e a manipulação de informações. “Com a explosão da inteligência artificial, a situação se agravou globalmente. É imprescindível mantermos órgãos tradicionais, como a ONU News, para proporcionar informações precisas e confiáveis”, argumentou.
Como um dos mais jovens estadistas da África, Chapo representa uma nova geração que demanda mudanças significativas. Ele acredita que essa transformação deve incluir também um papel ativo na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Projeto de alfabetização liderado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, em Moçambique
CPLP: Caminhos para o Futuro
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que comemora 30 anos em 2026, deve se tornar um espaço mais comercial e influente, promovendo a riqueza e a mobilidade entre os cidadãos lusófonos. Chapo enfatiza que é crucial que a CPLP aposte em negócios e diplomacia, além de fortalecer o uso da língua portuguesa.
No dia inaugural do Debate Geral na ONU, Moçambique é o terceiro país de língua portuguesa a falar. Chapo será seguido pelos presidentes de Angola, Guiné-Bissau, Timor-Leste e São Tomé e Príncipe, fortalecendo ainda mais os laços entre esses países.
Com um tom esperançoso e uma visão renovada, Daniel Chapo se apresenta como um agente de mudança, não apenas para Moçambique, mas para a comunidade internacional como um todo. E, ao fazê-lo, nos convida a refletir: como podemos, juntos, construir um futuro mais justo e sustentável?
*Monica Grayley é editora-chefe da ONU News Português.
