A Nova Era das Relações EUA-China: Coexistência Competitiva
A recente visita do presidente Donald Trump à China, em maio, foi marcada por momentos cuidadosamente orquestrados, exibições diplomáticas e anúncios de acordos comerciais extraordinários. No entanto, o que realmente se destacou neste encontro foi a aceitação mútua entre Washington e Pequim de que nenhum dos lados pode subjugar o outro. Após anos de guerras comerciais, controles tecnológicos e competição militar, as duas potências estão reconhecendo os limites da coerção.
Um Novo Mundo G-2
Esse reconhecimento não significa que os EUA e a China chegarão a um consenso ou que voltaremos a políticas de engajamento. O que se delineia é o surgimento de um mundo G-2, onde ambos os países podem restringir e até prejudicar um ao outro, mas não conseguem dominar ou excluir um ao outro. Os Estados Unidos permanecem como a principal potência militar do mundo, mas a China agora é capaz de contrabalançar o projétil de poder de Washington no Pacífico ocidental. Assim, enquanto Washington e Pequim podem causar danos significativos às economias um do outro, é impossível impedir que ambos continuem a se afirmar como potências econômicas e tecnológicas relevantes.
O cume em Pequim reforça que a ideia de um G-2, que Trump mencionou casualmente no ano passado na Coreia do Sul, está se tornando uma realidade. Nesse novo contexto, os EUA e a China não governam em conjunto o mundo, mas estão estruturalmente ligados por uma coexistência competitiva—um relacionamento em que nem um nem outro pode triunfar em seus próprios termos ou se permitir uma guerra prolongada.
Além da Destruição Mútua
A dinâmica atual entre EUA e China não é uma repetição da Guerra Fria, onde a estabilidade relativa entre os Estados Unidos e a União Soviética se sustentava na destruição mútua garantida. Naquela época, cada potência tinha capacidade nuclear suficiente para destruir a outra, o que impunha um entendimento de que uma guerra total não deixaria vencedores, causando danos irreparáveis.
Hoje, EUA e China não estão divididos em blocos econômicos e políticos rivais. Apesar dos esforços para se desacoplarem e reduzirem a interdependência, Washington e Pequim permanecem entrelaçados na mesma economia global, ecossistema tecnológico e cadeias de suprimentos. Essas conexões geram um tipo de competição inédito, mas que pode fomentar a estabilidade de maneiras distintas.
Integração e Rivalidade Tecnológica
Nos últimos dez anos, muitos formuladores de políticas em Washington acreditavam que os Estados Unidos poderiam superara China ou, ao menos, conter seu avanço. Tanto os presidentes republicanos quanto democratas tentaram manter uma vantagem tecnológica e econômica em relação a Pequim. Tarifas, controles de exportação e restrições de investimento foram implementados, assim como esforços para coordenar com aliados na Europa e no Indo-Pacífico para reorientar cadeias de suprimentos críticas fora da China.
Por outro lado, em Pequim, a confiança tem crescido na ideia de que o tempo está a seu favor. Discursos oficiais, reportagens da mídia estatal e análises políticas têm alimentado a narrativa de que “o Oriente está ascendente e o Ocidente, em declínio”. Alguns estrategistas chineses consideram que a polarização política, a disfunção institucional e o caos interno dos EUA são sinais de que a queda americana é mais que uma previsão: é um processo em curso.
Recentemente, ambos os pontos de vista foram desafiados por desenvolvimentos práticos. A China fez avanços significativos em inteligência artificial, robótica e tecnologia militar. O lançamento do DeepSeek, um modelo de linguagem criado na China, que rivaliza com equivalentes americanos, é um lembrete claro de que as restrições dos EUA não impediram o rápido desenvolvimento tecnológico chinês.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos não estão desaparecendo, independentemente de sua disfunção política. O país continua a dominar as áreas de finanças, tecnologia e educação superior. Em maio, a Nvidia, uma empresa americana, alcançou um valor de mercado em torno de 5,7 trilhões de dólares, superando o PIB projetado da Alemanha, a terceira maior economia do mundo.
A Negação Mútua do Domínio
A realidade atual não se caracteriza por uma destruição mútua, mas sim por duas formas de negação mútua que tornam a coexistência necessária. A primeira é a negação mútua do domínio. No Pacífico ocidental, especialmente em torno de Taiwan, os Estados Unidos ainda mantêm forças navais e aéreas poderosas, uma sólida rede de alianças e dissuasão nuclear. Contudo, com o aumento das capacidades militares da China, Washington não pode mais assumir que pode operar na região sem contestação.
Se a China bloquear Taiwan ou tentar uma invasão, a questão deixará de ser se os EUA intervirão, mas sim se poderão fazê-lo a um custo aceitável. A China, por sua vez, não precisa sobrepujar os EUA globalmente para complicar a projeção de poder de Washington na região; basta tornar qualquer intervenção cara e arriscada.
A Ilusão da Exclusão
A lógica de mutualidade também se aplica nas esferas econômica e tecnológica, onde Washington e Pequim se adaptam a um padrão mais estável: a negação mútua da exclusão. Os EUA podem impor custos à China restringindo o acesso ao mercado, mas a experiência tem mostrado que tais políticas têm suas limitações. A abordagem “pátio pequeno, cerca alta” da administração Biden busca controlar rigorosamente o acesso da China a tecnologias críticas. No entanto, os sucessos tecnológicos de Pequim demonstram as limitações dessas políticas.
De sua parte, a China também possui instrumentos poderosos para se contrabalançar. Restrições nas exportações de terras raras, essenciais para a produção americana de semicondutores e outros produtos de alta tecnologia, conferem a Pequim um poder de barganha significativo. Contudo, a exclusão total dos EUA do sistema econômico asiático não é viável sem que isso traga custos enormes para a própria China.
Taiwan: O Grande Desafio
Taiwan emerge como o teste mais difícil dessa coexistência. Para a China, a unificação com a ilha é um elemento central de sua soberania e identidade nacional. Para os EUA, Taiwan representa um teste da credibilidade americana como garantidora de segurança regional e um fator crítico no equilíbrio de poder na Ásia.
A crescente polarização política em Taiwan agrava ainda mais essa situação. Líderes políticos têm adotado posturas afastadas do diálogo, o que eleva a tensão nas relações com a China. Para evitar um conflito sério, tanto os EUA quanto a China devem oferecer garantias estratégicas, enfatizando a importância do diálogo e da contenção.
Uma Nova Condição
Trump não criou a realidade atual do G-2, mas sua visita a Pequim conferiu uma expressão política a essa nova fase que muitos líderes tradicionais hesitariam em alcançar. Ele tratou Xi como um líder de paridade, abordando questões sensíveis como Taiwan com cautela. Tal abordagem demonstra a necessidade de respeito, contenção e reciprocidade nas interações entre as potências.
Esse novo G-2 não será confortável e não se baseará em amizade ou confiança. O cume em Pequim pode não ter resolvido a rivalidade, mas deixou claro que a relação entre os dois países entrou em um novo estágio. O que se exige agora é que tanto Washington quanto Pequim reconheçam essa realidade e trabalhem para tornar essa coexistência mais estável e menos vulnerável a crises.
O caminho a seguir requer uma gestão cuidadosa dos conflitos, especialmente em torno de Taiwan. A compreensão mútua do contexto em que operam é fundamental, e a relação deve ser pautada pela realidade de um G-2 já estabelecido, com todos os seus desafios e oportunidades.
Agora, convido você a refletir sobre o que essa nova era pode significar não apenas para os EUA e a China, mas também para o resto do mundo. Como a dinâmica de poder e cooperação entre essas nações moldará nosso futuro? Compartilhe suas idéias e vamos continuar essa conversa!
