A Intrincada Relação da Indústria Automotiva Norte-Americana com a China
Em outubro de 2025, a Honda tomou uma decisão drástica: fechar indefinidamente uma de suas fábricas no México, que produzia SUVs, devido a um inesperado desabastecimento de peças. Enquanto isso, a produção do famoso modelo Civic no Canadá foi reduzida pela metade. Este cenário alarmante deixou muitas empresas na América do Norte em estado de alerta. Stellantis criou uma sala de crise para acompanhar a disponibilidade de componentes críticos, enquanto a Ford começou a monitorar as datas de validade de seu estoque. A interrupção da cadeia de suprimentos ameaçava centenas de milhares de empregos no México e no Canadá, com um impacto potencial que poderia reverberar até os Estados Unidos. A Honda, mais tarde, estimou perdas em torno de US$ 300 milhões devido a essa crise.
Causas do Desabastecimento
A fonte do problema estava em uma política chinesa simples, mas deliberada. Pequim decidiu proibir as exportações globais de semicondutores fabricados pela Nexperia, uma empresa chinesa obscura que fornece peças essenciais para airbags, sistemas de frenagem e outros componentes automotivos. O presidente chinês, Xi Jinping, tomou essa atitude como retaliação à ação do governo holandês e ao ex-presidente americano, Donald Trump. Foi somente após Trump concordar em adiar a implementação de um novo regime de controle de exportação dos EUA que Xi reverteu a proibição.
Esse acontecimento expôs de forma brutal quão integradas e vulneráveis se tornaram as cadeias de suprimento da América do Norte em relação à coerção econômica da China. Um componente automotivo pode cruzar as fronteiras dos Estados Unidos com o Canadá ou o México várias vezes antes de resultar em um veículo totalmente montado. Se Pequim decidir atacar um país, toda a cadeia de suprimento norte-americana pode ser paralisada.
A Indiferença dos Governos Norte-Americanos
Apesar da crescente ameaça, os governos dos Estados Unidos, Canadá e México têm se mostrado desatentos. Os impostos de Trump sobre o Canadá e o México em 2025, juntamente com a intensificação da guerra comercial com o Canadá neste ano, direcionaram a atenção dos países para disputas internas, exatamente quando o verdadeiro perigo vinha do exterior.
A recusa de Washington em renovar o Acordo EUA-México-Canadá (USMCA) em 1º de julho estabeleceu uma renegociação implícita do pacto. No entanto, o foco dessa discussão não deve ser as condições que cada país impõe aos outros, mas sim as estratégias que podem ser adotadas para ajudar uns aos outros a enfrentar a China. O crescente poder monopolista da China em setores fundamentais para a economia norte-americana é rapidamente preocupante — quanto mais esse poder se expande, mais vulneráveis se tornam as economias de México, Canadá e Estados Unidos em relação às políticas de Pequim.
Desde 2018, Washington tem experimentado uma mistura de políticas para combater o domínio chinês no mercado. Canadá e México precisarão se esforçar mais para se juntar a esse movimento, e os EUA devem trabalhar arduamente para convidá-los. A renegociação do USMCA seria um bom ponto de partida.
Preservando a Integração Americana
Na campanha presidencial de 1992, o empreendedor americano Ross Perot fez uma controversa advertência sobre o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), afirmando que ele criaria um “gigantesco som de sucção” à medida que as indústrias dos EUA se relocassem para o sul, em busca de mão de obra mais barata no México. Embora o NAFTA tenha afetado negativamente os salários dos trabalhadores operários nos EUA nas áreas mais expostas à competição, a percepção de ameaça estava, em grande parte, deslocada.
Um estudo abrangente realizado em 2015 revelou que o NAFTA aumentou o bem-estar econômico dos Estados Unidos em apenas 0,08%. Em comparação, o impacto foi ligeiramente mais positivo para o México (1,30%) e levemente negativo para o Canadá (-0,06%).
Contudo, o NAFTA tornou-se uma vulnerabilidade política para os democratas. Com a chegada de Trump à Casa Branca em 2017, a renegociação do NAFTA tornou-se uma prioridade imediata. Quando o USMCA substituiu oficialmente o NAFTA em 2020, Trump reivindicou os resultados como uma “vitória colossal”, mesmo que as diferenças entre os dois acordos fossem mínimas, ambas focadas principalmente na redução de barreiras comerciais.
Esses acordos foram desenhados para estimular o comércio entre os países — e não para combater o poder monopolista da China, que se consolidou rapidamente. As restrições de exportação implementadas pela China em 2025 mostraram como cada país estava vulnerável a ataques contra outro. Se os três países coordenassem suas políticas de tarifas, poderiam aumentar a resiliência das suas economias, protegendo-se das sanções de Pequim.
A Urgente Necessidade de Coordenação
Uma estratégia emergente sugere que, se os EUA reduzem tarifas sobre importações do Canadá e do México, isso poderia ajudar a compensar os custos que essas nações enfrentam ao fortalecer cadeias de suprimento que não dependem da China. Em contrapartida, Canadá e México deveriam ajustar suas tarifas sobre produtos chineses de forma a alinhar-se com as práticas americanas.
Por exemplo, em 2024, o Canadá já havia alinhado a maior parte dos aumentos de tarifas dos EUA em relação ao aço, alumínio e veículos elétricos. Além disso, os três países precisam trabalhar juntos para elevar as tarifas de forma estratégica, visando fortalecer suas economias e proteger empregos.
Evitando o “Fortaleza América do Norte”
Outra estratégia crucial é manter os mercados de importação abertos entre si. Isso não apenas promoveria um intercâmbio saudável de produtos, mas também mitigaria os danos de retaliações chinesas. Nos anos recentes, tanto o Canadá quanto o México já arcaram com custos devido às políticas de retaliação da China em resposta a suas ações alinhadas aos EUA.
É preciso considerar a criação de estoques estratégicos de insumos críticos para fazer frente a restrições de exportação. Os desenvolvimentos recentes, como o Projeto Vault lançado pelo governo americano para estocar minerais críticos, ilustram a tendência crescente da necessidade de coordenação para enfrentar a dependência da China.
O Caminho à Frente
Regulamentações de investimento devem ser fortalecidas em todos os três países para assegurar práticas comerciais justas e evitar a interferência de subsídios governamentais chineses. Adotar uma abordagem mais unificada não é apenas desejável, mas já é uma necessidade urgente. A renegociação do NAFTA, agora USMCA, é um primeiro passo nessa direção — mas uma verdadeira integração depende da cooperação mútua e da disposição para alinhar interesses comerciais.
Não se deve subestimar a importância dessa cooperação. Ao trabalhar juntos, Canadá, México e Estados Unidos podem não apenas se proteger de possíveis abusos econômicos da China, mas também garantir um mercado integrado que favorece o crescimento e a inovação.
Reflexão Final
Num cenário onde o poder econômico da China é cada vez mais preponderante, a colaboração entre as nações da América do Norte é mais do que uma vantagem competitiva; é uma questão de sobrevivência econômica. Manter um mercado aberto e integrado pode não apenas beneficiar as economias locais, mas também criar uma frente unida contra a crescente influência chinesa. Que os líderes norte-americanos aproveitem essa oportunidade para prevenir a fragmentação de suas economias e garantir um futuro próspero.
