O petróleo Brent superou US$ 105 nesta sessão, impulsionado pela escalada das tensões no Oriente Médio, e levou a Petrobras (PETR4) à liderança dos ganhos do Ibovespa. O índice brasileiro avançou mais de 0,6%, mesmo com a queda dos mercados no exterior, sustentado principalmente pelas petroleiras. Além da alta da commodity, um pacote de medidas tributárias anunciado pelo governo federal alterou as perspectivas para as margens da estatal.
Tensões no Mar Vermelho elevam o Brent
O movimento do petróleo ganhou força após os Houthis, grupo apoiado pelo Irã, avançarem em direção ao Estreito de Bab al-Mandeb. A passagem é uma rota importante para o transporte de petróleo. A ameaça de interrupção do fluxo pelo Mar Vermelho fez o contrato do Brent para novembro subir mais de 4% na Intercontinental Exchange, em Londres.
A alta do barril favorece empresas produtoras de petróleo, mas o desempenho da Petrobras também foi influenciado por mudanças no mercado doméstico de combustíveis. O governo anunciou reduções de tributos por litro: R$ 0,63 na gasolina, R$ 0,19 no etanol e R$ 1,00 no diesel. Ao mesmo tempo, a estatal deixou de aplicar um desconto de R$ 0,44 por litro na gasolina A após o fim da medida provisória que previa a subvenção.
Com a combinação, o consumidor recebe parte do alívio por meio da redução de tributos, enquanto a Petrobras recupera margem. Analistas do BTG Pactual estimam que as medidas podem gerar cerca de US$ 3,4 bilhões em receitas adicionais para a companhia, caso permaneçam em vigor até o fim do ano. Para os analistas, o pacote também protege a política de preços e o modelo de governança da estatal.
Vicente Falanga e Ricardo França, do Bradesco BBI, calculam que a combinação do ganho líquido de R$ 0,19 por litro na gasolina com o benefício de R$ 1,00 por litro no diesel poderia acrescentar US$ 6,5 bilhões ao fluxo de caixa livre para o acionista, se anualizada. Segundo os analistas, o valor corresponderia a um rendimento incremental próximo de 5%.
Defasagem de preços diminui
Investidores vinham acompanhando o risco de a Petrobras se afastar da paridade internacional de preços para conter os valores dos combustíveis por razões políticas. Com as mudanças tributárias, o desconto dos preços praticados pela empresa em relação à paridade de exportação recuou, considerando os subsídios, para cerca de 21% na gasolina e 10% no diesel. Antes do pacote, a diferença era maior, pressionando as margens da companhia.
A redução da defasagem diminui o risco de a estatal absorver custos para subsidiar combustíveis. Também indica uma mudança na forma de atuação do governo: em vez de usar os preços da Petrobras para conter os valores, o pacote recorre à política tributária. Essa distinção é acompanhada pelo mercado porque pode afetar as margens e as expectativas sobre a gestão da empresa.
O efeito final depende da manutenção das medidas. Caso o governo as reverta ou pressione a Petrobras a absorver novamente diferenças entre os preços internos e os internacionais, as perspectivas para a companhia podem mudar. A fonte também aponta a combinação de petróleo caro, câmbio depreciado e alívio tributário como fatores favoráveis à geração de caixa, caso o Brent se estabilize entre US$ 95 e US$ 105.
Preço do petróleo e reação das ações
A permanência do Brent acima de US$ 100 é uma das principais incertezas para as petroleiras. O barril havia sido negociado entre US$ 70 e US$ 85 durante boa parte dos meses anteriores, e altas associadas a tensões no Oriente Médio costumam perder força em algumas semanas. Entre os fatores que podem sustentar preços mais altos estão os cortes de produção mantidos pela Opep+, grupo que reúne a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados, a demanda resiliente da China e da Índia e o risco logístico no Mar Vermelho.
Outras empresas do setor também avançaram na sessão. A Brava Energia (BRAV3) subiu 2,55%, a PetroReconcavo (RECV3) ganhou 1,66% e a Prio (PRIO3) avançou 1,41%. As companhias de petróleo e gás têm peso relevante no índice e podem se destacar em dias de aversão a risco, enquanto ações de outros setores recuam.
A alta do Ibovespa, no entanto, não refletiu o desempenho da maioria dos setores, que operou no negativo. O índice depende cada vez mais de empresas como Petrobras e Vale para se manter acima dos 186 mil pontos. A pressão sobre outros ativos foi associada ao aumento das apostas em uma alta de juros pelo Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, cuja probabilidade se aproximava de 70%.