A Nova Realidade da Destruição Nuclear: Reavaliando a Garantia Americana
Durante décadas, aliados dos Estados Unidos na Ásia e na Europa confiaram na extensão da dissuasão nuclear americana como uma garantia de segurança. Em vez de buscar armar-se com suas próprias armas nucleares, esses países aceitaram viver sob o “guarda-chuva nuclear” dos EUA, um arranjo que se mostrou eficaz durante a Guerra Fria. Naquela época, a possibilidade de uma guerra nuclear era um cenário extremo, mas viável o suficiente para que o país se comprometessem a defender seus aliados a qualquer custo.
Entretanto, a realidade geopolítica que deu origem a esse sistema já não existe mais. Embora os EUA ainda tenham interesses significativos na Europa, as ameaças da Rússia são bem mais contidas do que nos dias em que a União Soviética estava à espreita para expandir seu domínio pela Europa e Ásia. A guerra, caso ocorra, refletiria mais sobre a influência russa na Europa Oriental do que sobre uma luta pelo equilíbrio global de poder.
A Credibilidade em Jogo
Os aliados dos EUA sentem crescente insegurança quanto à veracidade da garantia nuclear. Países como Lituânia, Polônia e Coreia do Sul, diante da incerteza, começam a questionar se os EUA realmente arriscariam sua própria destruição por suas causas. Essa dúvida é compartilhada por adversários, como na Rússia e na Coreia do Norte, que podem concluir que o compromisso nuclear dos EUA não é mais confiável. Em um mundo onde o conflito tende a ser mais regional e os EUA adotam uma postura mais isolacionista, a ideia de que Washington entraria em uma guerra nuclear em defesa de aliados distantes é difícil de sustentar.
A Crise do Sistema de Dissuassão
A crise da dissuasão nuclear estendida tem se desenrolado desde o fim da Guerra Fria. Quando os aliados começam a duvidar da credibilidade das promessas americanas, Washington tenta acalmá-los com declarações oficiais e demonstrações militares, como visitas de submarinos e sobrevoos de bombardeiros. Mas essa postura pode ser perigosa. Ignorar as fraquezas do arranjo atual pode encorajar adversários a agir. Enquanto temem por sua segurança, os aliados podem se apressar para desenvolver seus próprios programas nucleares, o que poderia resultar em uma escalada rápida do conflito.
Novas Arrumações Necessárias
Os EUA precisam reconhecer que não podem mais servir como garantidores nucleares confiáveis para todos os aliados. Os parceiros devem buscar soluções mais adequadas à realidade geopolítica atual, que, em alguns casos, pode incluir a aquisição de suas próprias armas nucleares. No contexto asiático, isso poderia se traduzir em um acordo de compartilhamento nuclear com a Coreia do Sul, semelhante ao que existe entre os EUA e a OTAN. Nesse modelo, os Estados Unidos prometeriam transferir o controle de armas nucleares táticas para Seul em caso de ataque da Coreia do Norte.
Na Europa, uma opção viável para os EUA seria modificar o atual programa de compartilhamento nuclear da OTAN, aumentando o controle europeu sobre a dissuasão coletiva da aliança. França e Reino Unido têm potencial para atuar mais ativamente no planejamento nuclear da OTAN, reduzindo assim a dependência da Europa em relação a Washington.
O Desafio da Proliferação
A ideia de permitir que os aliados desenvolvam posturas de dissuasão mais fortes e autônomas é um espinho no pé de muitos em Washington, que temem a proliferação nuclear e a perda de influência. No entanto, esta questão pode não estar totalmente em suas mãos. Aliados vulneráveis têm o direito de buscar maneiras concretas de aumentar sua segurança, seja desenvolvendo armas nucleares ou alternativas que desafiem as proibições ultrapassadas dos EUA.
A História da Dissuassão
A estratégia de dissuasão nuclear americana surgiu de imperativos conflitantes da Guerra Fria. O reconhecimento de que as armas nucleares eram essenciais para prevenir ataques soviéticos fez com que os EUA oferecessem sua “cobertura nuclear” a países aliados. Apesar de França e Reino Unido terem optado por manter seus próprios arsenais, as armas nucleares americanas serviram como o principal elemento dissuasor.
A credibilidade dessa estratégia sempre foi questionada. A perspectiva de que os EUA sacrificariam cidades como Nova York para proteger aliados era vista como improvável. A realidade é que a política dos EUA implicava em colocar em risco as principais cidades americanas para garantir a segurança de seus aliados.
Para reforçar essa credibilidade, os EUA tomaram várias medidas militares e diplomáticas. O fornecimento de tropas e armas táticas nucleares em regiões estratégicas, como a fronteira entre as Alemanhas e a península coreana, foi uma maneira de demonstrar que um ataque poderia resultar em uma escalada catastrófica.
Mudanças Necessárias no Cenário Atual
Desde o colapso da União Soviética, a credibilidade da dissuasão nuclear tem enfraquecido. A transição da política externa americana, especialmente durante as duas administrações Trump, fez com que aliados questionassem a confiabilidade das promessas nucleares. Com um foco em interesses nacionais centrais, a disposição de Washington para arriscar uma guerra nuclear em nome de aliados distantes é cada vez mais contestável.
As dificuldades enfrentadas no Extremo Oriente e na Europa Oriental, onde adversários nucleares estão ameaçando, tornam urgente a necessidade de que aliados busquem soluções para fortalecer sua dissuasão nuclear. À medida que a incerteza quanto à proteção americana aumenta, países como a Coreia do Sul estão considerando em discutir três opções principais para intensificar sua dissuasão nuclear:
- Pedir ao EUA para reimplantar armas nucleares táticas na Coreia do Sul.
- Estabelecer um sistema de compartilhamento nuclear com os EUA.
- Construir um arsenal nuclear próprio, caso decida abandonar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).
O Caminho a Seguir
É importante que os Estados Unidos reconheçam a evolução do cenário atual e ajudem seus parceiros a desenvolver abordagens que atendam às suas necessidades de segurança. Se Washington se mostrar receptivo a acordos de compartilhamento nuclear, poderia reforçar a dissuasão na Península Coreana sem enfrentar os desafios de um aliado que busca armas nucleares. Além disso, apoiar a Coreia do Sul em sua transição para uma postura nuclear mais independente pode ser benéfico tanto para o país quanto para os EUA.
A realidade é que a segurança dos aliados agora dependerá de estratégias que reflitam a nova ordem mundial, onde a dissuasão e a autonomia tornar-se-ão peças-chave na defesa de suas soberanias. Para finalizar, a melhor abordagem para os EUA está em apoiar seus aliados enquanto eles moldam suas próprias realidades de segurança, garantindo um relacionamento mais sólido e confiável no futuro.
