O Conflito Russo-Ucraniano: Desafios e Perspectivas para a Paz
Quatro anos após a invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, o cenário é cada vez mais complicado. O governo de Donald Trump está pressionando Kyiv para que aceite concessões territoriais dolorosas como parte de um acordo de paz. Um esboço de pacto, revelado inicialmente pela Axios, sugere que as regiões da Crimeia, Donetsk e Luhansk sejam reconhecidas como território russo e que a Rússia mantenha o controle das partes da Kherson e Zaporizhzhia atualmente ocupadas por suas forças. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem resistido a essa pressão, defendendo a integridade territorial de seu país. No entanto, as realidades do campo de batalha não estão a seu favor.
A Realidade do Campo de Batalha
A resistência da Ucrânia tem sido admirável, mas não pode ocultar o fato de que o país está perdendo a guerra. A Rússia controla uma vasta área do território ucraniano, e as tentativas de retomar esse espaço, como a frustrada contraofensiva de 2023, demonstraram que Kyiv enfrenta uma tarefa monumental. Mesmo com os ganhos russos sendo lentos e custosos, a verdade é que a Rússia detém quase um quinto do território dos limites estabelecidos em 1991.
Perdas e Desigualdade de Recursos
As estatísticas de perdas no campo de batalha revelam um panorama desfavorável para a Ucrânia. A análise realizada pela Mediazona, um veículo de mídia russo, estima que até o final de 2025, cerca de 156.151 soldados russos perderam a vida, com um total estimado de 219.000 mortos, incluindo mortes não reportadas. Em contrapartida, a organização ucraniana UA Losses indica 87.045 ucranianos mortos em combate e 85.906 desaparecidos, que provavelmente incluem perdas não reconhecidas e deserções.
Apesar de a Ucrânia sofrer menos perdas absolutas, o impacto no seu efetivo de combate é muito maior. Com uma população de cerca de 36 milhões, correspondente a 26% da população russa, a Ucrânia teve perdas significativas entre a faixa etária masculina de 25 a 54 anos, impactando diretamente sua capacidade militar.
Desafios de Recrutamento
Enquanto a Rússia utiliza principalmente soldados contratados e evita o uso de conscritos, a Ucrânia enfrenta desafios relacionados à sua estratégia de recrutamento. A pressão para recrutar 30.000 homens ao mês levou a medidas drásticas e impopulares, como a chamada “busificação”, que se traduziu em captar homens nas ruas e levá-los para os escritórios de recrutamento. Essas ações têm resultado em um efetivo majoritariamente formado por soldados mais velhos e menos saudáveis, que muitas vezes desertam quando têm a chance.
Além disso, a desigualdade no poder de fogo é alarmante. Em 2025, a Rússia possui uma quantidade desproporcional de tanques, veículos de combate, artilharia e aviões de combate em comparação à Ucrânia. Embora parte disso inclua equipamentos mais antigos, o fato é que muitos dos equipamentos enviados ao país pela Europa Ocidental também são usados e, em grande parte, não são suficientes para igualar o jogo.
Poder Econômico e Militar
A dinâmica do poder econômico também pesa muito nessa balança. A economia russa, com um PIB projetado de quase 7 trilhões de dólares em 2024, é substancialmente maior que a da Ucrânia, que gira em torno de 657 bilhões. Com a Rússia gastando cerca de 7% de seu PIB em defesa, uma cifra impressionante de 484 bilhões de dólares, a Ucrânia, mesmo com um orçamento de defesa que pode chegar a 197 bilhões, está em desvantagem.
Embora a Ucrânia tenha recebido significativa assistência militar e financeira do Ocidente, sua dependência é maior do que a da Rússia, que tem uma indústria de defesa robusta e grandes estoques militares. Portanto, a realidade mostra que, mesmo que a Ucrânia opte por políticas de defesa e modernização, isso não é suficiente para igualar as forças.
Objetivos Estratégicos em Conflito
Os objetivos de ambos os lados são claramente delineados. A Rússia busca controle sobre partes da Ucrânia e a manutenção do país fora da NATO. Enquanto isso, os líderes ucranianos defendem a restauração do território conforme as fronteiras de 1991, incluindo a Crimeia, e a soberania nacional como princípios fundamentais.
Com a extensão da linha de frente e os problemas de pessoal da Ucrânia, muitos soldados precisam se manter em uma postura defensiva. A linha Surovikin, um sistema de fortificações russas, impediu as ofensivas de Kyiv, revelando a vulnerabilidade da Ucrânia.
A Necessidade de uma Nova Abordagem
A análise mostra que a Ucrânia não está apenas sobrecarregada em termos de recursos, mas também em estratégia. A diferença de efetivo e de poder de fogo altera a dinâmica de qualquer ofensiva. Entender que a proteção de cidades fortificadas na Donbas, embora importante, não deve ser o único foco, é crucial. A preservação de forças e a criação de defesas otimizadas, centradas em novos métodos de combate, é o caminho para um futuro mais seguro.
Embora o panorama atual sugira que a aceitação de um acordo de paz, mesmo que doloroso, poderia ser uma “opção menos ruim”, é essencial refletir sobre como essa decisão poderia moldar a Ucrânia nos anos seguintes. Uma Ucrânia que abraça reformas políticas e econômicas, ao mesmo tempo que otimiza suas defesas e inovação no campo de batalha, poderá se fortalecer e resguardar sua soberania.
A pergunta que permanece é: vale a pena continuar essa luta desgastante, ou é hora de aceitar a realidade e buscar um caminho que garanta um futuro melhor, mesmo que isso signifique ceder parte do território? O tempo dirá, mas o essencial é que a voz do povo ucraniano permaneça em primeiro lugar, independentemente do que venha a seguir.
