O Estigma das Rodadas Secundárias no Brasil: Desmistificando a Realidade
As rodadas secundárias ainda são cercadas de preconceitos no Brasil. Ao contrário das rodadas primárias, onde todo investimento vai diretamente para o caixa da startup, nas secundárias os sócios e fundadores podem embolsar parte do montante. Isso gera a crença de que os empreendedores poderiam perder a motivação após essas vendas. Contudo, relatos de líderes de startups apontam que essa visão está completamente equivocada.
A Perspectiva de Líderes de Sucesso
Durante o South Summit Brazil em Porto Alegre, o CEO da Omie, Marcelo Lombardo, abordou a questão de forma clara. “Muitas pessoas pensam que ao realizar uma venda secundária, o fundador perderá o entusiasmo e o comprometimento com o negócio”, destacou Lombardo. “Na verdade, o contrário pode ocorrer, já que o fundador aposta cada vez mais no crescimento da empresa.”
Um ponto importante mencionado por ele é que, na construção de uma empresa, o fundador normalmente concentra 99,9% de seu patrimônio nas ações dela. Essa concentração pode levar a decisões mais conservadoras, já que o empreendedor tem todos os seus “ovos na mesma cesta”. Assim, uma venda secundária pode ser não só vantajosa, mas até necessária para garantir a saúde financeira do fundador e, consequentemente, da empresa.
Estudo de Caso: Omie e QI Tech
Recentemente, a Omie protagonizou a maior rodada de uma startup brasileira em 2025, levantando a impressionante quantia de US$ 150 milhões, com um aporte secundário de US$ 100 milhões liderado pelo fundo suíço Partners Group. Essa foi a segunda venda secundária na história da empresa.
Por outro lado, Pedro MacDowell, fundador e CEO da QI Tech, abordou a secundária com um olhar pragmático, respeitando o “DNA de fintech”. Ele revelou que a rodada secundária ocorreu apenas após a empresa ter começado a mostrar resultados significativos. Assim que atingiu o status de unicórnio em 2024, a empresa já era lucrativa.
“Nenhum fundador sério faz isso apenas pelo dinheiro. Todo empreendedor quer construir algo que funcione. A secundária é só uma forma de mitigar riscos financeiros,” reafirma MacDowell.
Apoio de Investidores Estrangeiros
Driblando o estigma das vendas secundárias, contar com fundos internacionais, como a General Atlantic e o Fundo Soberano de Cingapura (GIC), tem sido uma tática eficaz para os fundadores brasileiros. MacDowell salientou que esses fundos têm um conhecimento mais profundo sobre esse tipo de transação, ajudando na formulação de expectativas e mantendo o engajamento.
Conforme um relatório da Spectra, 82% das vendas secundárias representam menos de 10% da participação do fundador na startup, o que demonstra que, na prática, essa venda não afeta drasticamente seu envolvimento a longo prazo.
O Que Move os Fundadores?
Segundo a consultoria, a motivação para a venda de parte das ações não se restringe ao desejo financeiro. É um equilíbrio entre um preço atrativo, alinhamento estratégico e a busca por uma paz financeira.
Alinhamento e Comprometimento dos Colaboradores
Em sua apresentação, Marcelo Lombardo também destacou a importância das stock options. Cerca de 20% a 30% do time da Omie possui participação acionária na empresa, o que funciona como um poderoso mecanismo de alinhamento e motivação.
“Em cada evento de liquidez, reservamos uma parte para distribuir entre os colaboradores que possuem ações. Realizamos reuniões regulares para mostrar a valorização das ações que cada um possui”, conta Lombardo, enfatizando que isso potencializa a postura dos colaboradores e ajuda na retenção de talentos.
O valor do Longo Prazo
Tanto Pedro MacDowell quanto Marcelo Lombardo concordam que a mentalidade deve sempre ser pautada no longo prazo. Lombardo ainda comenta que empreendedores que focam apenas na venda imediata estão navegando em águas perigosas.
“Construir uma empresa visando apenas uma saída rápida pode resultar em problemas, seja antes ou depois dessa venda. O foco deve ser sempre em criar valor duradouro para o cliente e gerar produtos sólidos,” alerta o CEO da Omie.
Considerações Finais
Desmistificar o estigma das rodadas secundárias no Brasil é crucial para a evolução do ecossistema startup. Ao enxergar as vendas secundárias como uma ferramenta de mitigação de riscos e possibilidades de crescimento, tanto fundadores quanto investidores ganham um novo horizonte.
Que tal refletir sobre essa questão e compartilhar suas próprias experiências ou opiniões sobre o assunto? O debate certamente enriquecerá a compreensão sobre o dinamismo do empreendedorismo no Brasil.
Compartilhe suas ideias e vamos juntos desmistificar esse conceito!
