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Por Que o Modelo de Crescimento de Pequim Precisa de uma Reforma Urgente?

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O Futuro do Crescimento Econômico da China: Desafios e Oportunidades

Quando o setor imobiliário da China entrou em colapso em 2021, o governo se viu em uma corrida contra o tempo para encontrar uma nova fonte de crescimento econômico. O investimento em infraestrutura, que havia sido um dos motores do desenvolvimento do país por décadas, não seria a solução. A população está se estabilizando, e a drástica queda nas vendas de terrenos deixou as autoridades locais sem recursos suficientes para novos projetos, como aeroportos e rodovias de alta capacidade. Além disso, a dependência das exportações se tornou questionável, uma vez que os custos de mão de obra e terra estão aumentando, diminuindo assim a vantagem de ser a “fábrica do mundo.”

Com isso, a única alternativa viável passou a ser o aumento do consumo interno.

A Evolução do Consumo

Estudos indicam que o consumo das famílias na China representa uma fração muito menor do PIB em comparação a outras nações. Em 2024, por exemplo, segundo dados do Banco Mundial, o consumo alcançou apenas 40% do PIB chinês, cerca de 20 pontos percentuais abaixo da média global. Se a China pudesse elevar esse percentual para níveis de países como Coreia do Sul (48%) ou Japão (55%), poderia garantir um impulso significativo para a economia nas próximas décadas.

Apesar da intenção declarada do governo de aumentar o consumo, a realidade atual mostra que o país ainda não está fazendo a transição desejada. As autoridades em Pequim reconhecem a importância de estimular o consumo. O Primeiro-Ministro Li Qiang, em fevereiro de 2025, enfatizou a necessidade de “promover o consumo para expandir a demanda interna e impulsionar o crescimento econômico.” No entanto, os líderes chineses veem o aumento do consumo como uma consequência do crescimento econômico, e não como um objetivo imediato.

O Desafio da Redistribuição de Riqueza

Para transformar o consumo em motor da economia, é essencial que os cidadãos, tradicionalmente econômicos, reduzam a economia planejada ou que as rendas cresçam mais rapidamente do que a economia em geral. Essa mudança exige investimentos significativos em redistribuição de riqueza.

Nos países industrializados, essa redistribuição geralmente acontece por meio de:

  • Aumento do salário mínimo
  • Redução de impostos sobre a renda
  • Distribuição de cheques de estímulo
  • Aumento de pagamentos de seguridade social

A China já tomou algumas dessas medidas, como a redução drástica das taxas de juros sobre hipotecas em 2023 e 2024, que resultou em uma economia de aproximadamente US$ 43 bilhões em pagamentos anuais para as famílias. Além disso, os governos provinciais aumentam anualmente o salário mínimo. Contudo, o governo chinês ainda se recusa a expandir significativamente sua rede de proteção social, o que limitou os impactos dessas iniciativas.

A escassez de financiamento para a rede de seguridade social é alarmante. O fundo nacional de seguridade social, responsável pelas pensões, pode se esgotar até 2035, ameaçando a aposentadoria de milhões de cidadãos. Embora a maioria da população tenha acesso a algum tipo de seguro saúde, as baixas taxas de reembolso resultam em altos custos de saúde para as famílias, especialmente aquelas que cuidam de pais idosos.

Medidas de Crescimento e Suas Consequências

Os líderes chineses ainda temem que a expansão dos programas sociais possa levar ao que chamam de “latino-americanização” da economia, um termo que remete ao colapso de economias vibrantes como Argentina e Brasil nos anos 70 e 80 após a adoção de políticas populistas. O Presidente Xi Jinping apontou, em um artigo de 2021, que essa falta de disciplina fiscal impediu esses países de alcançar os níveis de desenvolvimento das economias avançadas.

A questão da demografia também é uma preocupação crescente. O envelhecimento da população chinesa terá implicações diretas nas contas públicas, uma vez que o número de aposentados deve superar o de trabalhadores até 2080.

Com isso em mente, o governo optou por investimentos orientados para a infraestrutura, que historicamente geraram riqueza, ao invés de investir em gastos sociais, que são vistos como uma carga financeira. Essa decisão pode atrasar a transição desejada rumo a um modelo econômico mais equilibrado, enquanto a China se concentra em aumentar suas exportações em meio à fragilidade da demanda interna.

A Busca pelo Crescimento Sustentável

Nos últimos anos, a ênfase do governo chinês tem mudado. O crescimento econômico ainda é importante – o objetivo de Xi é dobrar o PIB per capita até 2035 – mas a qualidade desse crescimento passou a ser fundamental. O novo foco é garantir um crescimento de alta qualidade que evite a armadilha da renda média e promova a prosperidade comum, onde a riqueza é distribuída mais equitativamente.

Para alcançar esses objetivos, a economia precisa ser capaz de gerar produtos de maior valor agregado, algo que destaca a necessidade urgente de inovação e melhorias nos setores de manufatura avançada. Além disso, é crucial aumentar a receita tributária para cobrir as crescentes demandas das aposentadorias, sem sobrecarregar uma força de trabalho em encolhimento.

Aqui estão algumas estratégias que a China está utilizando:

  • Inovação Tecnológica: Incentivos fiscais e investimentos em P&D são prioridades. Por exemplo, o setor de veículos elétricos se beneficiou enormemente dessas políticas, tornando a China líder global na área.
  • Transformação Industrial: O governo está investindo em tecnologias que permitem que indústrias tradicionais mantenham sua competitividade, como a automação e a inteligência artificial.

Essa transição não apenas mantém os empregos nas indústrias tradicionais, mas também gera novos postos de trabalho qualificados, que oferecem salários mais altos.

O Desafio Global

Porém, essa estratégia não vem sem suas ironias. O aumento da produção industrial na China pode levar a uma crise de superprodução, uma vez que a demanda interna não conseguirá absorver toda a produção. Isso significa que o restante do mundo terá que acomodar esse excesso, uma realidade que pode gerar tensões comerciais.

A China já é um gigante na produção industrial, representando 27% do total global em 2023 e projetando-se para atingir 45% até 2030. Essa dominância pode levar a um conflito com países desenvolvidos, como Alemanha e Estados Unidos, que veem seus mercados ameaçados por produtos chineses cada vez mais competitivos.

Além disso, economias em desenvolvimento também enfrentam desafios, já que a competitividade dos produtos de baixo custo da China pode dificultar seu próprio crescimento.

Reflexões Finais

Embora o modelo de crescimento da China tenha potencial para gerar riqueza e oportunidades, ele também apresenta riscos significativos. Para que as promessas de altos lucros e crescimento sejam alcançadas, a administração precisa lidar com a superprodução e as tensões comerciais com outras nações.

A pergunta que fica é: O governo chinês conseguirá equilibrar as demandas internas por crescimento com as pressões externas? E, mais importante, como pode garantir que esse crescimento beneficie uma parcela maior da população?

Ao se concentrar em fazer a “torta econômica” crescer antes de dividi-la, Pequim precisa inovar, cultivar a confiança e talvez, eventualmente, encontrar um caminho que permita abraçar tanto o crescimento quanto a equidade.

Estamos assistindo a um momento crucial da história econômica global. Quais serão as próximas etapas da China e como isso afetará o cenário mundial? As respostas determinarão não apenas o futuro da economia chinesa, mas também o equilíbrio do comércio global nas próximas décadas.

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