Repensando as Alianças dos EUA: Um Novo Olhar para um Novo Mundo
A administração de Donald Trump trouxe uma nova realidade para as alianças tradicionais dos Estados Unidos. A maneira como o ex-presidente tratou os aliados — extorquindo benefícios, ameaçando anexar territórios e impondo tarifas indiscriminadamente — levou a um desgaste significativo nas relações estabelecidas ao longo de décadas. No futuro, o próximo presidente terá a tarefa de decidir se deve ou não tentar restaurar esses laços. Mas, se esse futuro líder for um democrata, a simples tentativa de reviver as alianças da Guerra Fria não é a resposta.
O Cenário Atual: Mudanças Significativas
Desde a construção do atual sistema de alianças, muita coisa mudou. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos formaram alianças para conter o comunismo tanto na Ásia quanto na Europa. Com o colapso da ameaça soviética, muitos acreditavam que Washington iria reduzir seu envolvimento em favor de uma maior autonomia. Contudo, as obrigações foram mantidas e até expandidas, já que a presença americana não tinha concorrentes significativos e o risco de conflitos era baixo.
Agora, esse cenário é diferente. A ascensão da China representa um desafio sem precedentes à liderança econômica dos EUA, e suas capacidades militares na Ásia já rivalizam as americanas. Além disso, a Rússia, após um período de fraqueza, tornou-se mais ativa ao invadir vizinhos e provocar aliados da OTAN. Por fim, a Coreia do Norte, armada com armas nucleares, apresenta uma ameaça direta ao solo americano.
Necessidade de Reavaliação
Diante dessa nova realidade, é imprescindível que Washington reavalie e recalibre suas alianças. O foco deve ser em parcerias que fortaleçam a competitividade dos EUA frente à China, sem colocar o país em conflitos que não servem a seus interesses. Embora alguns aliados atuais possam passar em critérios rigorosos de avaliação, outros necessitam de uma reconsideração urgente.
O Poder dos Aliados Certos
Os aliados certos podem compensar a diminuição do poder econômico e militar relativo dos EUA desde os anos 90. Eles ajudam a diversificar cadeias de suprimento cruciais, como semicondutores e minerais estratégicos, e garantem que Washington, e não Pequim, defina padrões tecnológicos globais. Além disso, esses parceiros podem aliviar a carga de defesa dos EUA, contribuindo com capacidades militares ou proporcionando uso de sua infraestrutura.
Entretanto, essas vantagens vêm com um custo. Acordos de defesa implicam também em compromissos que podem levar os EUA a conflitos em situações perigosas. A confiança crescente de China e Rússia em sua capacidade de deter ou derrotar forças americanas aumenta a probabilidade de confrontos com aliados dos EUA.
Qualidade x Quantidade nas Alianças
Ter muitas alianças nem sempre é benéfico. A própria complexidade delas pode transformar conflitos menores em guerras abrangentes, como visto na Primeira Guerra Mundial. Assim, é essencial que Washington avalie cuidadosamente seus compromissos e evite armadilhas em regiões sensíveis, especialmente na Ásia.
Além disso, é importante que os EUA limitem suas obrigações a situações que a população americana esteja disposta a apoiar. Por exemplo, uma pesquisa de 2025 mostró que apenas uma pequena maioria dos americanos estava disposta a enviar tropas para defender a Coreia do Sul de uma agressão norte-coreana. Se Washington não cumprir suas promessas em uma crise, sua credibilidade pode ser seriamente comprometida.
Reavaliando Relacionamentos
Algumas alianças, como o Tratado de Defesa Mútua com as Filipinas, são um exemplo perfeito de como ajustes podem ser necessários. Criado em 1951, o pacto fez sentido em um tempo em que os EUA eram a potência militar dominante na região. Agora que a China se tornou mais forte, essa aliança merece uma análise crítica.
Recentemente, tanto a administração Biden quanto a segunda gestão de Trump se apressaram em aprofundar laços com as Filipinas, enviando sistemas de mísseis avançados e aumentando a presença militar. Contudo, a utilidade militar disso pode ser superestimada. A capacidade militar das Filipinas fica aquém de seus pares regionais, e o país traz pouco em termos de benefícios econômicos ou diplomáticos para a competição com a China.
O Caso da Coreia do Sul
Embora a relação com a Coreia do Sul seja mais sólida, ela também deve ser revista. A Coreia do Sul é um importante produtor de microchips, o que justifica um relacionamento próximo. No entanto, os riscos militares aumentaram desde a Guerra Fria, quando a Coreia do Norte não tinha capacidade de atacar o solo dos EUA. Hoje, a situação é preocupante, já que Pyongyang pode atingir cidades americanas com armas nucleares.
Washington deve considerar reduzir sua presença militar na Coreia do Sul, mesmo reconhecendo que isso poderia levar Seul a buscar armas nucleares. Porém, insistir em um aumento na capacitação convencional pode mitigar essa consequência indesejada.
Fortalecendo Alianças Potenciais
Em contraste, alianças com países como o Japão se mostraram cada vez mais valiosas no século XXI. O Japão tem avançadas tecnologias digitais e é um ator importante na extração de minerais críticos, o que pode beneficiar os EUA na competição com a China. Com um aumento significativo nos gastos com defesa, o Japão se mostra um parceiro confiável, e sua posição diplomática no Indo-Pacífico é crucial.
A aliança com a Austrália também permanece forte, já que os riscos são relativamente baixos, mesmo que Canberra não ofereça tantas vantagens quanto Tóquio. A Austrália é um parceiro militar e de inteligência valioso, localizada fora do alcance da maioria dos mísseis chineses, e sua orientação para os EUA é clara.
A Relevância da Europa
As alianças europeias dos EUA, embora sob pressão, ainda apresentam um grande potencial. As capitais europeias nunca se alinharam completamente com Washington em relação à China. Apesar de um resfriamento das relações após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a postura errática da gestão Trump reforçou a hesitação europeia em confiar plenamente nos EUA.
Os países europeus podem não ter um grande papel militar no Indo-Pacífico, mas podem liderar a defesa contra a Rússia, aliviando assim os recursos americanos para equilibrar a China. Uma aliança transatlântica reformada deve garantir que a Europa se responsabilize por sua defesa, enquanto os EUA mantêm seu compromisso com a OTAN.
Auditando Alianças
Para que as alianças sejam efetivas, Washington precisa de novos mecanismos de auditoria. Atualmente, as agências regionais do Estado e do Departamento de Defesa rastreiam parceiros, mas podem falhar em avaliar como esses países atendem às necessidades americanas de forma global. A criação de um escritório centralizado dedicado a analisar alianças pode ajudar a identificar custos e riscos, além de explorar novas oportunidades de parceria, como com a Índia.
Além disso, o Congresso dos EUA deve ter um papel mais ativo, exigindo que o secretário de Estado forneça uma avaliação anual dos custos e benefícios de cada compromisso importante.
Em suma, a reconstrução das alianças será um processo controverso, tanto em Washington quanto no exterior. O objetivo não deve ser restaurar um sistema de alianças da Guerra Fria por nostalgia, mas sim construir parcerias baseadas em uma avaliação realista das condições atuais. Um mundo mais seguro depende de alianças que estejam prontas para enfrentar os desafios do futuro, refletindo as necessidades do povo americano.
Reflexão Final
À medida que os EUA navegam por essas águas turbulentas, é essencial considerar o fluxo natural das relações internacionais e como cada aliado pode se inserir nesse cenário. Quais parcerias você considera mais vitais para o futuro? Compartilhe seus pensamentos e contribua para essa discussão importante!
