O Legado do TAA e os Desafios da Inteligência Artificial
No início do verão passado, um fato significativo ocorreu nas páginas de um documento orçamentário pouco comentado: a administração Trump decretou a extinção do principal programa do governo para trabalhadores que perderam seus empregos devido ao comércio exterior. O programa, conhecido como Assistência à Ajuste Comercial (TAA), foi criado em 1962 durante a presidência de John F. Kennedy. Ao longo de mais de seis décadas, a TAA ofereceu suporte financeiro, treinamento profissional e outros serviços a americanos em setores afetados negativamente pelas importações. Contudo, o presidente Donald Trump deixou claro que sua solução para os trabalhadores em risco de desemprego era a imposição de novas tarifas, e, por fim, a TAA se despediu com poucos apoiadores, tanto à esquerda quanto à direita.
O Contexto da TAA: Uma Resposta a Desafios Econômicos
Vale a pena examinar a história da TAA à medida que os Estados Unidos se preparam para enfrentar outra possível transformação econômica: a ameaça de deslocamento de trabalhadores, em todos os níveis de renda, pela inteligência artificial (IA). Assim como a redução de barreiras comerciais em épocas passadas, a IA oferece uma oportunidade de crescimento econômico acelerado que pode beneficiar muitos, mas prejudicar alguns.
Por que a TAA foi criada?
- A TAA surgiu como resposta a preocupações legítimas sobre como o livre comércio poderia afetar trabalhadores e comunidades. Ela incorporou um imperativo econômico e político para apoiar aqueles que se sentiam prejudicados.
- Com o apoio de sindicatos e economistas renomados, a TAA foi inicialmente vista como uma solução inteligente para facilitar a passagem de legislações comerciais que reduziriam tarifas.
Embora a intenção por trás da TAA fosse nobre, sua execução se mostrou problemática. Para entender por que falhou em cumprir sua promessa, é crucial refletir sobre a história da TAA, especialmente agora que figuras como os conselheiros econômicos do presidente Joe Biden citam a TAA como modelo para enfrentar os impactos da IA.
Desafios do Desemprego Acelerado pela IA
As previsões sobre o potencial da IA para deslocar trabalhadores são alarmantes. Dirigentes de empresas alertaram que o desemprego pode chegar a 20% em apenas cinco anos. Mesmo que tais previsões extremas estejam superestimadas, a realidade é que a IA pode desestabilizar a vida de milhões de pessoas, tornando o mercado de trabalho imprevisível.
A queda de empregos durante a crise industrial dos anos 2000 afetou uma fração relativamente pequena da força de trabalho, mas teve consequências econômicas e políticas profundas. O que torna a ascensão da IA tão intimidadora é a diversidade de seus impactos; trabalhadores de diversas áreas – motoristas de transporte, engenheiros de software e outros – podem ser potencialmente deslocados. Por isso, é urgente que os governos ajam rapidamente, antes que o cenário de deslocamento se torne mais claro.
O Legado da TAA: Aprendizados para o Futuro
A experiência da TAA revela quão desafiador é ajudar trabalhadores afetados por mudanças econômicas rápidas. Para um futuro melhor, os Estados Unidos precisarão de programas que ofereçam colchões financeiros aos que enfrentam perda súbita de renda e ajudem a realocar trabalhadores. No entanto, isso deve ser combinado com estratégias que evitem deslocamentos desnecessários e criem empregos de qualidade.
- Propostas Fundamentais:
- Programas que ofereçam suporte financeiro e facilitem a transição para novas oportunidades de emprego.
- Estruturas que evitem critérios de elegibilidade restritivos, garantindo que um maior número de trabalhadores tenha acesso ao apoio necessário.
- Uma resposta rápida às mudanças, permitindo que os trabalhadores tenham um papel ativo em moldar seu futuro econômico.
Lições do Passado para Enfrentar o Futuro
No início dos anos 1960, a TAA ganhou força política porque prometia responder a diversos desafios simultaneamente. A estratégia da Guerra Fria, liderada por Kennedy, favorecia novos acordos comerciais que fortaleçam a economia americana em relação à União Soviética. No entanto, havia um temor crescente de que a liberalização do comércio pudesse gerar resistência dos trabalhadores que se sentiriam prejudicados.
Pontos de atenção:
- O TAA foi bem-intencionado, mas, na prática, enfrentou críticas pela dificuldade em atender os trabalhadores certos.
- A aprovação do programa foi inicialmentre baixa; nenhum pedido foi aceito nos primeiros sete anos.
Apesar de suas falhas, pesquisas recentes indicam que os trabalhadores que tiveram acesso à formação por meio da TAA beneficiaram-se significativamente: um estudo de 2018 concluiu que esses trabalhadores ganharam, em média, 50 mil dólares a mais ao longo de uma década.
A Necessidade de Ações Ágeis e Inclusivas
Com a ascensão inevitável da IA, a história da TAA ensina que é essencial ter um programa robusto para enfrentar a magnitude do deslocamento. Ao invés de restringir o suporte a trabalhadores que provam a causa da perda de emprego, uma abordagem mais inclusiva poderia estender assistência a todos os deslocados, independentemente do motivo.
Principais diretrizes para futuras ações em relação à IA:
- Programas que forneçam suporte abrangente e rápido para todos os trabalhadores afetados.
- Implementação de “eligibilidade presumida” para serviços antes que as demissões ocorram, permitindo que grupos em risco tenham acesso a requalificação.
- A promoção do empoderamento dos trabalhadores, garantindo que eles tenham voz ativa no processo de auxílio.
Criando um Futuro Sustentável
Olhando para a trajetória da TAA, é crucial lembrar que um número limitado de trabalhadores afetados por mudanças econômicas pode gerar repercussões amplas. A história dos desafios enfrentados pelos trabalhadores de exportação de mercadorias e pela globalização deve servir como lição. A perda de empregos, mesmo que restrita, pode abalar comunidades inteiras, aumentando a insatisfação contra instituições democráticas e alimentando o populismo.
O que fazer agora?
- Investir em programas de suporte financeiro, requalificação e assistência à busca de emprego para trabalhadores em risco.
- Compartilhar os benefícios do progresso tecnológico, demonstrando um compromisso com o bem-estar da força de trabalho.
A apatia em relação ao passado, ou uma repetição dos erros do TAA, pode amplificar as crises econômicas e políticas. À medida que a inteligência artificial molda o futuro, é essencial que os líderes políticos ajam de maneira eficaz e planejada. Assim, a colaboração entre governo, empresas e trabalhadores poderá construir um cenário positivo e resiliente, onde a tecnologia e os seres humanos coexistam para um futuro melhor.
