As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro levaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acusações opostas contra a Meta por decisões de seus sistemas de anúncios e recomendação durante a eleição de 2026. A disputa ganhou força após um debate no domingo passado e ocorre em uma corrida apertada: a pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira mostrou os dois candidatos em empate técnico. O caso expõe a dificuldade de distinguir falhas automáticas de interferência deliberada e de medir o efeito das redes sobre os eleitores.
Campanhas contestam decisões da Meta
Em 23 de setembro, a Meta desabilitou a conta de anúncios da campanha de Lula, alegando que “algumas das suas atividades não seguem nossas regras”. A empresa depois reconheceu que houve um engano. Também admitiu uma falha na Meta AI: a ferramenta recusava pedidos de imagem com o nome de Lula, mas aceitava solicitações com o nome de Flávio. A plataforma atribuiu o problema a um filtro que confundia o nome de um candidato com o número de urna.
Em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, determinou que a Meta tratasse as duas candidaturas de forma igual, sob multa de R$ 500 mil por dia. O plenário confirmou a decisão por unanimidade. A empresa afirmou, em nota, que “a Meta não está interferindo nas eleições brasileiras. Estes são os fatos”. No mesmo dia, a campanha de Flávio apresentou uma queixa contra a plataforma.
Após o debate, a campanha de Lula denunciou um novo bloqueio e pediu a cassação da chapa adversária, alegando “manipulação algorítmica”. Bellizze elevou a multa para R$ 1 milhão por dia. Em resposta ao tribunal, a Meta disse que, até o segundo turno, qualquer restrição automática às contas das duas campanhas será revisada por uma pessoa em até duas horas.
Na quinta-feira, o Ministério Público Eleitoral (MPE) afirmou que a Meta descumpriu cinco determinações do TSE e cumpriu outras duas apenas em parte. Segundo o parecer, a diferença de comportamento conforme o candidato “reduz a credibilidade da alegação de simples falha aleatória”. O MPE também pediu que o tribunal rejeite a perícia da Polícia Federal solicitada pela campanha de Lula e os recursos apresentados pela campanha de Flávio.
Uma semana antes, ao conceder a liminar, Bellizze havia registrado que não existia, até aquele momento, “prova de manipulação deliberada de algoritmos”. O parecer do MPE e a decisão do ministro apresentam avaliações distintas sobre o caso, sem uma conclusão definitiva até o domingo da votação.
Engajamento não mede intenção de voto
A disputa também se estende às métricas das redes. Flávio terminou o primeiro turno com 47% dos votos, ante 45% de Lula. Na pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, Flávio aparecia com 45% e Lula, com 44%, em empate técnico.
Os números de interação digital variam conforme o período analisado. Depois do primeiro turno, Flávio ganhou quase três vezes mais seguidores do que Lula. Já entre 5 e 17 de outubro, Lula somou 110,7 milhões de interações, contra 31,3 milhões de Flávio, segundo a consultoria Bites. A consultoria ressalva que interação não equivale a voto. A mobilização de apoiadores e aliados, entre eles Nikolas Ferreira e André Janones, também contribui para a circulação de conteúdo nas redes.
Um episódio ilustra os limites dessas métricas. Às 22h10 do domingo passado, enquanto Lula e Flávio participavam de um debate na Band, Janones enviou uma mensagem ao canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, pedindo que seguidores buscassem no Google o termo “Flávio miliciano”. Às 22h48, a expressão estava entre as mais pesquisadas no país e ultrapassava 500 mil buscas, segundo levantamento da Bites publicado pelo Poder360. A consultoria não conseguiu determinar quantas pesquisas foram motivadas pelo pedido e quantas ocorreriam de qualquer forma.
Grupos de WhatsApp e fiscalização
O alcance dos canais de campanha no WhatsApp também contrasta com respostas dadas em pesquisas. Em julho, a Genial/Quaest perguntou aos eleitores se pretendiam entrar em grupos políticos; 87% disseram que não. Na semana da votação, porém, o “Exército do Lula” chegou a 7 milhões de inscritos, enquanto o “Tropa do Flávio” tinha cerca de 2 milhões. Os dois canais funcionaram sem registro na Justiça Eleitoral até a metade do mês.
O TSE chegou a discutir o desligamento de canais com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação, mas recuou na sexta-feira. O presidente da corte, Kassio Nunes Marques, disse que o tema poderá ser discutido em 2028. Desde quinta-feira, também está proibida a publicação de novos conteúdos feitos com inteligência artificial (IA) até 24 horas depois da votação.
Um projeto do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) acompanha eleitores em grupos de WhatsApp organizados para pesquisa, com participantes de diferentes posições políticas. Em um dos grupos, um integrante escreveu que “não votar no PT é uma questão de segurança nacional”. A frase, segundo a análise apresentada no artigo de Iona Szkurnik, indica pertencimento político, mas não acrescenta informação sobre os candidatos. A circulação em grupos privados também ocorre longe dos sistemas de recomendação das plataformas e é difícil de fiscalizar.
O caso da Meta mostra os limites de apurar o funcionamento de sistemas digitais, mesmo quando órgãos eleitorais podem exigir documentos das empresas. Para o eleitor, publicações impulsionadas, buscas em alta e mensagens repetidas podem dar a impressão de que uma opinião é compartilhada por muita gente. No domingo da votação, enquanto os tribunais e as campanhas discutem o alcance dessas ferramentas, a escolha será feita individualmente na cabine.