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Revolução na Agricultura: Descoberta Brasileira Pode Reverter Perdas Milionárias na Soja!

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Uma palavra tem o poder de silenciar qualquer discussão entre pesquisadores, consultores, empresas de defensivos e produtores de soja no Brasil: percevejo.

Em particular, o percevejo-marrom (Euscaphis, o herói), que hoje é visto como uma das pragas mais desafiadoras na agricultura brasileira, causou perdas estimadas em cerca de R$ 12 bilhões na última safra de soja, de acordo com a Embrapa.

No esforço para contornar essa questão, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), vinculado à Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), fizeram uma descoberta considerada revolucionária no setor de biológicos agrícolas.

O grupo identificou um novo potencial para a bactéria Bacillus altitudinis, já conhecida na microbiologia agrícola por suas aplicações em promoção do crescimento vegetal e controle de doenças, mas agora revelando uma eficiência surpreendente no combate ao percevejo-marrom.

Mais do que isso, essa bactéria utiliza um mecanismo de ação pouco explorado até agora no combate a esses insetos.

Por que o percevejo-marrom é um desafio?

“Um pesquisador da Embrapa afirma que a cada 50 quilômetros existe uma nova população de percevejos”, comenta Ricardo Antonio Polanczyk, engenheiro agrônomo e especialista em Entomologia, professor associado da Unesp e membro do INCT NanoAgro. Essa variabilidade genética é um fator importante que ajuda a explicar a rapidez com que o inseto desenvolve resistência aos tratamentos.

Consequentemente, o percevejo-marrom se converteu em um problema econômico significativo. Não só pelos danos diretos à produtividade, mas também pela decreasing eficiência dos produtos químicos usados para seu controle. Assim, a cada safra, os custos aumentam.

  • Em algumas regiões, a dose de inseticidas que antes era de apenas meio quilo por hectare passou para um quilo e meio.
  • Em outras áreas, os agricultores enfrentam populações altamente resistentes que reagem de maneira diferente em distâncias relativamente curtas.

A bactéria inovadora que faz a diferença

O INCT NanoAgro atua como uma rede integrada de pesquisa focada no desenvolvimento de nanotecnologia para uma agricultura sustentável. Localizado no campus da Unesp em Sorocaba (SP), o instituto é coordenado pelo Professor Leonardo Fernandes Fraceto.

O que torna essa descoberta tão interessante é o modo de atuação da bactéria. Como destaca Polanczyk, “agimos pela contaminação através das patas do inseto”, uma abordagem inovadora, considerando que o percevejo apresenta substâncias antifúngicas e camadas estáticas em seu corpo, dificultando os métodos tradicionais de controle.

Na prática, enquanto se move, o inseto acaba se contaminando ao caminhar sobre a superfície tratada da planta. Essa abordagem muda a lógica do controle biológico, pois até agora, os produtos microbiológicos à base de Bacillus dependiam da ingestão pelo inseto, o que é problemático, já que o percevejo-marrom se alimenta de maneira sugadora, perfurando diretamente os grãos e dificultando a eficácia de muitos biológicos convencionais.

O impacto financeiro da praga

Não podemos subestimar as implicações econômicas do percevejo-marrom. As perdas variam entre 49 e 120 quilos por hectare, o que pode representar até duas sacas de soja perdidas. E o momento do ataque é crítico, pois normalmente ocorre no final do ciclo da planta, durante o enchimento dos grãos.

Como Fraceto observa, “é aí que ele arrasa as possibilidades de lucro do produtor”. A descoberta do potencial da bactéria já está chamando a atenção do setor.

“Se conseguirmos aumentar o nível de controle em 10% ou 20%, o benefício econômico para o produtor será imenso”, afirma Fraceto.

Resultados de laboratório são animadores. Enquanto muitos agrotóxicos tradicionais oferecem uma eficiência entre 30% e 40%, os testes feitos pela equipe alcançaram quase 80% de mortalidade do percevejo.

O crescimento do mercado de biológicos

A descoberta da bactéria ocorre em um momento de forte crescimento no mercado de biológicos, que já ultrapassou US$ 13 bilhões globalmente. O Brasil movimentou mais de R$ 6,2 bilhões em bioinsumos em 2025, abrangendo uma área tratada de 194 milhões de hectares, de acordo com a CropLife Brasil.

Nos últimos anos, esse segmento deixou de ser um nicho específico para a agricultura orgânica e começou a se afirmar como uma estratégia central na indústria de proteção de cultivos. Com o aumento da resistência das pragas e as exigências por soluções mais sustentáveis, as multinacionais do setor têm acelerado aquisições e investido em biofábricas e colaborações com startups de pesquisa. O Brasil é, sem dúvida, uma peça crucial nessa expansão.

  • A diversidade tropical da agricultura brasileira favorece uma pressão constante de pragas durante quase todo o ano.
  • Além disso, o País possui uma rica biodiversidade microbiológica, fundamental para o desenvolvimento de novos produtos biológicos.

Pelo que se observa, o custo de desenvolvimento de um biológico é significativamente menor do que o de um químico, representando em média apenas 10% do custo total. Enquanto uma nova molécula química pode levar anos e custar milhões, um biológico exige um investimento muito mais acessível.

Transformando ciência em produto

Atualmente, a tecnologia desenvolvida pelo INCT NanoAgro está em um estágio inicial, conhecido como prova de conceito tecnológica. Isso quer dizer que a bactéria já se mostrou eficaz em condições controladas, mas ainda precisa avançar para testes em ambientes naturais, validações regionais e formulações comerciais.

A nanotecnologia terá um papel fundamental nesse processo. Como Fraceto salienta, “não é suficiente encontrar um organismo eficiente; é crucial garantir sua estabilidade e proteção contra fatores externos, como a radiação UV”. Em áreas agrícolas, onde as temperaturas frequentemente superam 40°C, a durabilidade do microrganismo é um fator decisivo para o sucesso comercial.

O INCT NanoAgro está explorando alternativas como encapsulamento de ativos biológicos e sistemas de liberação controlada, utilizando nanopartículas que podem melhorar a performance e a estabilidade da solução.

Os pesquisadores acreditam que parcerias com empresas do setor irão acelerar o desenvolvimento e a comercialização da solução. Fraceto argumenta que o ideal é transferir essa inovação para empresas que já possuem expertise industrial, esperando que um produto comercial baseado nessa descoberta chegue ao mercado em um prazo entre três a seis anos. Enquanto isso, o trabalho continua nos laboratórios e áreas experimentais.

Essa descoberta mostra uma interligação essencial entre biodiversidade, microbiologia, nanotecnologia e agricultura, cada vez mais relevante em uma era de busca por produtividade, eficiência econômica e sustentabilidade no campo.

“Estamos cada vez mais atentos em como comunicar nossas inovações com o setor produtivo”, conclui Fraceto. “Queremos que essas tecnologias não fiquem restritas à academia, mas que cheguem de forma tangível à sociedade”.

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