Rurbanização: A Conexão Esencial entre o Rural e o Urbano
A primeira experiência que tive em um debate sobre rurbanização ocorreu na OCDE, onde, após a pandemia de Covid-19, surgiu uma conversa crucial sobre o desenvolvimento territorial. O foco recaiu sobre as chamadas Conexões Rurais-Urbanas (RUCs), que envolvem estudos para compreender e desenvolver estratégias integradas que aproximam áreas rurais e urbanas.
A Interdependência entre Cidades e Campos
Essa abordagem destaca a interdependência entre os dois mundos, enfatizando a importância de arranjos locais e até microlocais que beneficiem tanto os produtores rurais quanto as demandas e ofertas das cidades.
- Fluxo de Alimentos: Aproximadamente 80% dos alimentos que chegam às cidades têm origem nas áreas rurais.
- Integração Econômica: A rurbanização não se restringe ao avanço físico das cidades sobre os campos. Ela envolve uma complexa rede que inclui produção de alimentos, logística, dados climáticos, e muito mais.
A ONU-Habitat ressalta a importância de tratar áreas urbanas e rurais como partes de um mesmo sistema em políticas e estratégias de desenvolvimento. O verdadeiro potencial reside na sinergia gerada pelo fluxo circular entre o rural e o urbano.
Funções Complementares na Economia Territorial
O ambiente urbano precisa de alimentos com preços estáveis e provenientes de práticas sustentáveis. Por outro lado, o mundo rural só pode fornecer isso com o apoio de elementos como tecnologia, logística e crédito. Hoje, rural e urbano deixaram de ser categorias sociais distintas, funcionando como complementos dentro da economia de um território.
No Brasil, dos 205 milhões de habitantes, mais de 90% reside em áreas urbanas, sendo que cerca de 50% vive em municípios com menos de 400 mil habitantes. Cidades menores estão intimamente conectadas ao meio rural, o que enfatiza a necessidade de integrar esses dois públicos em discussões sobre desenvolvimento econômico, segurança alimentar e enfrentamento das mudanças climáticas.
Assimetrias Regionais e a Nova Visão do Campo
A realidade no Brasil revela que estados com pequenas e médias cidades de agricultura moderna apresentam taxas de desemprego em torno de 2%, além de uma maior renda e qualificação dos empregos, atraindo trabalhadores. Em contrapartida, estados mais pobres, que carecem de alternativas modernas na agricultura, enfrentam a migração tradicional do campo para as cidades.
Essa concentração populacional gera estresse nas infraestruturas sociais, desafiando a administração pública a lidar com impactos sociais e econômicos significativos. Muitas pessoas ainda veem a atividade rural como algo simples e sem sofisticação, mas essa visão já não reflete a realidade atual. O pertencimento à terra, as tradições e a valorização de produtos locais têm ganhado força, promovendo uma nova percepção sobre a vida rural.
- Cultura e Identidade: A valorização da cultura regional é uma tendência crescente, destacando a importância da tradição e autenticidade.
- Políticas Públicas: É necessário que as políticas governamentais compreendam a relação entre rural e urbano, considerando aspectos como infraestrutura, conectividade e serviços climáticos.
O Futuro das Áreas Rurais e Urbanas
O aumento da população mundial e a migração em massa para as cidades têm criado uma tendência que provavelmente continuará. A expectativa de que a vida urbana é preferível à rural é uma realidade, especialmente em economias em desenvolvimento, como o Brasil, onde a convivência entre as duas esferas se torna cada vez mais evidente.
O Brasil pode ser visto como um laboratório para essa fusão, onde residentes das cidades se conectam ativamente ao campo e vice-versa, promovendo um estilo de vida moderno, sustentado pela conectividade. Assim, a evolução das economias rurais é crucial para garantir que se beneficiem da digitalização e inovação, promovendo resiliência e sustentabilidade aos territórios.
A América Latina como Modelo de Integração Rurbanização
A América Latina está em um momento de transformação sócio-econômica, com um potencial único para integrar o rural e o urbano. A região não apenas apresenta uma alta urbanização, mas também possui uma base agroambiental e biodiversidade que são estratégicas no cenário global.
Com 81% da população vivendo em áreas urbanas, a região se vê desafiada a garantir a segurança econômica e social através da produção periurbana e da logística alimentar. A ONU destaca que a América Latina e o Caribe detêm uma parte significativa da biodiversidade, água doce e florestas, o que torna imperativo gerenciar essa integração de maneira sábia e eficiente.
Governar essa relação com inteligência é fundamental. Para prosperar, não podemos mais insistir na separação entre o rural e o urbano. O enfoque deve estar na criação de valor e na resiliência, aproveitando os ativos que cada área pode oferecer para um futuro sustentável.
*Nina Plöger é presidente do Forbes Mulher Agro (FMA) e atua na área de reflorestamento e café sustentável. Formada em administração, possui pós-graduação em economia e governança. É membro de diversos conselhos e comitês, todos voltados para o agronegócio e sustentabilidade.
Ao refletir sobre a rurbanização e suas implicações, convido você a considerar como essa interação molda o nosso futuro. Que papel você acredita que pode desempenhar nessa nova relação entre o rural e o urbano? Suas ideias e opiniões são sempre bem-vindas!
