Setor de seguros não protegerá contra os riscos das mudanças climáticas


O relatório “Ligando o Sinal de Alerta”, divulgado no início desta semana pelo Inside Track x (Re)Insurance, aponta que o aumento dos riscos climáticos físicos está ampliando perdas sem cobertura e pressionando seguradoras, famílias e mercados financeiros. Segundo o documento, quando os prejuízos materiais causados pelas mudanças climáticas não são cobertos pelas companhias, governos, contribuintes e população acabam assumindo a conta.

Seguradoras elevam preços e reduzem coberturas

Os autores afirmam que a frequência, a gravidade e a imprevisibilidade de desastres climáticos e ambientais estão crescendo. Regiões litorâneas e montanhosas, áreas sujeitas a enchentes, queimadas e afundamento do solo e atividades como agricultura, turismo e transporte marítimo estão entre as mais expostas.

O relatório descreve três respostas das seguradoras: reajustar os preços das apólices, restringir coberturas ou deixar de atuar em determinadas regiões e setores. As empresas podem alterar cláusulas ou excluir eventos específicos, como incêndios florestais e enchentes. Em casos de maior risco, podem parar de oferecer apólices ou abandonar comunidades e atividades, como o agronegócio.

Esse recuo amplia o chamado “vazio de proteção”: perdas que ficam sem cobertura porque as seguradoras não conseguem ou não querem assumir o risco. O custo pode recair sobre os governos e os contribuintes, além das famílias e empresas atingidas. O documento também aponta que, embora a gestão do risco climático seja uma prioridade declarada, decisões de curto prazo sobre lucratividade e retorno aos acionistas ainda podem prevalecer sobre planos de resiliência de longo prazo.

Os autores alertam para pressões internas nas companhias. Analistas de catástrofes e atuários, profissionais que calculam riscos e custos de seguros, estariam sendo orientados a “dar uma segurada nos números” ou “passar a tesoura” nas estimativas para não dificultar negócios nem alarmar investidores. A capacidade de modelagem também varia: algumas empresas usam tecnologia avançada, enquanto outras dependem de modelos antigos de catástrofes naturais, conhecidos pela sigla NatCat, ou não conseguem avaliar riscos concentrados em várias companhias.

Risco para imóveis e famílias

A redução da cobertura pode afetar o mercado imobiliário porque o seguro residencial ou comercial costuma ser exigido para liberar um financiamento. Se a apólice fica mais cara ou deixa de estar disponível, a compra e o financiamento de imóveis podem se tornar mais difíceis. O relatório compara esse risco à crise das hipotecas de alto risco, ou subprime, que teve seu estouro em 2008.

Estudos citados no documento ajudam a dimensionar a exposição nos Estados Unidos. Um levantamento da Realtor.com indica que mais de 23% das residências do país, com exposição total de US$ 11,2 trilhões, enfrentam risco climático severo ou extremo relacionado a vendavais, enchentes ou queimadas. Segundo o estudo, o aumento dos prêmios de seguro empurra famílias para fora da cobertura e paralisa mercados imobiliários locais.

Uma análise da ICE (Intercontinental Exchange) identifica uma “penalidade por risco climático/enchente”: imóveis em áreas de alto risco valorizam mais lentamente e apresentam maior risco de inadimplência nos financiamentos, em meio ao aumento das despesas com seguro e manutenção. Pesquisas do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, e estudos acadêmicos também relacionam perdas sem cobertura ou com seguro insuficiente a dificuldades financeiras para famílias e a maior risco de crédito para credores.

O encarecimento dos seguros em setores como abastecimento de alimentos, construção civil e turismo também pode pressionar o custo de vida e alimentar a inflação, segundo o relatório.

Recuo no mercado de seguros dos EUA

O cenário descrito pelo Inside Track reflete problemas no mercado norte-americano de seguros patrimoniais e de responsabilidade civil, conhecido como P&C. Grandes seguradoras têm acelerado recusas de renovação e interrompido a venda de novas apólices em áreas de alto risco, incluindo regiões da Califórnia sujeitas a incêndios florestais e áreas litorâneas expostas a furacões e enchentes na Flórida, Louisiana e Texas.

Nos Estados Unidos, as seguradoras têm menos margem para ajustar preços do que na Europa e precisam prestar contas aos órgãos estaduais de regulação. Quando esses órgãos limitam aumentos bruscos para proteger consumidores no curto prazo, as empresas podem reduzir coberturas ou deixar o mercado. Com isso, cresce a pressão sobre programas públicos de “última instância”, como a Citizens Property Insurance Corp., na Flórida, e o FAIR Plan, na Califórnia.

As resseguradoras, que oferecem cobertura para as próprias seguradoras, também elevam taxas e endurecem contratos diante das perdas com catástrofes. O aumento de custos pressiona as reservas de capital e as avaliações de crédito das seguradoras diretas.

Reflexos sobre bancos e investidores

O relatório alerta que a turbulência no setor pode se espalhar pelo sistema financeiro. Bancos emprestam para seguradoras e resseguradoras, compram títulos e ações dessas empresas e mantêm contratos financeiros com elas. Se perdas climáticas reduzirem o capital de uma seguradora ou provocarem dificuldades de liquidez, os bancos podem enfrentar maior risco de inadimplência e perdas em seus investimentos.

O mercado imobiliário é outro canal de transmissão. Se o seguro se torna inviável ou indisponível, os bancos podem ter dificuldade para conceder novos financiamentos. O relatório também aponta possíveis efeitos sobre títulos lastreados em hipotecas residenciais e sobre a qualidade dos empréstimos já mantidos pelos bancos.

Para governos e reguladores, o documento afirma que os mecanismos tradicionais de seguro não serão suficientes para proteger comunidades vulneráveis caso o setor privado continue a recuar. Para investidores, especialmente fundos de pensão com horizonte superior a cinco ou dez anos, recomenda atenção à exposição ao mercado segurador e às estratégias empresariais que priorizam metas trimestrais em vez de valor de longo prazo.

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