A Revolução Silenciosa do Sítio Roda d’Água: Agricultura e Abelhas em Harmonia
Você já se perguntou por que as notícias sobre agricultura e abelhas são quase sempre desfavoráveis? Essa é a provocativa introdução de Lígia Jung, uma engenheira agrônoma e produtora rural de 37 anos, que desafia a narrativa comum ao mostrar que, em seu sítio no Paraná, a convivência entre agricultura e apicultura é um sucesso há décadas.
O Sítio e Seus Protagonistas
Localizado em Floresta, a cerca de 29 km de Maringá, o Sítio Roda d’Água possui 135 hectares cultivados principalmente com soja e milho, além de um apiário que abriga 95 colmeias de abelhas silvestres. Juntamente com seus familiares — o pai Antônio, a mãe Albertina e o irmão Paulo Henrique —, Lígia colhe mel e contribui para a biodiversidade local, cuidando de quase 5 milhões de abelhas.
Essas colmeias são populosas, com cada uma abrigando entre 30 a 50 mil abelhas africanizadas. Além das abelhas “africanizadas”, a família cuida também de várias espécies nativas como jataí, mandaçaia e tubuna.
“Quando eu falo para o pessoal: ‘deixa a abelha viva. Cuida dela bem que ela te dá um incremento de graça’, eles acham que é conto”, comenta Lígia, ressaltando a importância da convivência entre abelhas e lavouras.
Um Legado de Superação
A história da família Jung com as abelhas começou antes mesmo de 2006, quando iniciaram a produção de mel comercialmente. Antônio lembra que a necessidade de açúcar em casa, devido à plantação de café, foi o gatilho inicial para a presença das abelhas na propriedade. Esse apiário foi vital para a sobrevivência da família após a crise do café na década de 1970. Assim, com muita paciência e conhecimento, eles desenvolveram um manejo que favorece tanto a apicultura quanto a agricultura.
Em um dado momento, durante a floração da soja, as colmeias podem render até 50 quilos de mel por colmeia — um número notoriamente superior à média de 19 a 20 quilos registrada nacionalmente.
Enfrentando Desafios e Aprendendo com a Natureza
A jornada dos Jung não foi isenta de dificuldades. O sítio já enfrentou geadas devastadoras, a transição para a soja e, em 2009 e 2014, aplicações aéreas inadequadas que apagaram tragicamente parte de suas colmeias.
“Perdemos 64 colmeias em uma noite”, recorda Lígia, que não hesitou em levar a denúncia ao Ministério Público. Essa atitude resultou em um movimento de conscientização na região, promovendo ajustes nas práticas agrícolas e melhor comunicação com os vizinhos.
Lígia aprendeu com os desafios: “No ano seguinte à perda, colhemos apenas 30 quilos de mel, só para consumo doméstico. Foi uma lição dura, mas fundamental”. O foco em evitar a deriva de agrotóxicos e ajustar as estratégias de aplicação tornou-se uma prioridade.
Conexão entre Manejo e Ciência
O segredo do sucesso da família reside no Manejo Integrado de Pragas (MIP), ajudado por especialistas e pesquisas da Embrapa. Essa abordagem, que combina conhecimento técnico com práticas de campo, demonstrou uma redução significativa no uso de inseticidas em áreas que usam MIP.
De acordo com o professor Vagner Arnaut, da Universidade Estadual de Maringá, a presença adequada de abelhas pode levar a um aumento de 10% a 13% na produtividade das lavouras. Isso ocorre sem custos adicionais para os agricultores, uma vez que as abelhas são responsáveis pela polinização das flores e pela melhoria da qualidade dos grãos.
Práticas Eficientes para Todos
As recomendações que os Jung seguem são simples, mas efetivas. Aqui estão algumas dicas para uma convivência harmoniosa entre agricultura e apicultura:
- Evitar aplicações durante a floração.
- Realizar pulverizações em horários de menor atividade das abelhas (idealmente à tarde ou à noite).
- Calibrar adequadamente os pulverizadores para minimizar a deriva.
- Dialogar entre apicultores e agricultores, especialmente quando apiários estão em áreas adjacentes.
- Manter refúgios florais fora da safra para sustentar as colmeias.
O pesquisador da Embrapa Soja, Décio Gazzoni, destaca que o uso de novas moléculas e tratamentos menos agressivos diminui a necessidade de aplicações repetitivas, garantindo assim a segurança das abelhas.
Vantagens Econômicas e Ambientais
Os benefícios que emergem dessa coexistência são vastos. Apicultores que trabalham nas proximidades de lavouras de soja têm conseguido produzir mel durante até 11 meses do ano, com rendimentos muito acima da média nacional. Para os agricultores, as abelhas representam um aumento na produtividade sem elevar os custos.
“Se você ganha cinco a seis sacas de soja a mais, isso muda a contabilidade final”, observa Vagner Arnaut.
Para a família Jung, essa sinergia entre soja e abelhas é como uma ligação simbiótica: tradição, renda e sustentabilidade se entrelaçam no mesmo solo. Na safra 2024/2025, conseguiram colher 6,5 toneladas de soja por hectare, superando a média do Paraná em 1,7 vez. O milho alcançou 16,7 toneladas por hectare, enquanto a produção de mel totalizou 1,2 toneladas, um aumento de 26,3% em relação à safra anterior.
Uma Experiência Transformadora
O exemplo do Sítio Roda d’Água prova que é possível alcançar uma coexistência frutífera através da técnica e do respeito mútuo entre agricultores e apicultores. Desde 2022, a propriedade participa do programa “Boas Práticas Apícolas e Agrícolas”, uma colaboração entre a Embrapa e a BASF para promover uma convivência harmoniosa entre as abelhas e a soja.
Esse projeto não se limita a Maringá — ele se estende a diversos agricultores do Rio Grande do Sul e de Mato Grosso do Sul. Um dos frutos dessa iniciativa é a criação de uma cartilha pelo Senar, que documenta as boas práticas para mitigar conflitos e promover a harmonia.
Lígia expressa o aprendizado de forma clara: “A abelha só pede: me deixa viva. Cuida direitinho que eu te devolvo em safra.”
Um Novo Capítulo no Rio Grande do Sul
Recentemente, a BASF lançou uma nova estratégia de coexistência entre agricultura e apicultura visando o Rio Grande do Sul. A primeira fase do projeto já começou e envolve 24 apicultores e 6 produtores de soja, com distribuição de colmeias e suporte técnico.
Além disso, para cada quilo de mel produzido da florada de soja, será realizado o plantio de mudas de árvores nativas, promovendo a biodiversidade.
“O nosso objetivo é mostrar que a agricultura sustentável é viável”, diz Maurício do Carmo Fernandes, gerente de Sustentabilidade da BASF. “Buscamos fortalecer tanto a economia local quanto a conservação ambiental.”
A Mensagem Final
A história da família Jung serve como um exemplo ilustrativo de que é possível unir produtividade agrícola e respeito ao meio ambiente. Ao adotar boas práticas e fomentar o diálogo, todos podem se beneficiar, desde os agricultores até os polinizadores, como as abelhas.
E você, o que pensa sobre a interação entre agricultura e apicultura? Já havia considerado a importância das abelhas na sua alimentação e no equilíbrio ambiental? Deixe suas opiniões e compartilhe suas experiências!
