A tempestade e os segredos de Comandante Luís Souto: um olhar profundo sobre a violência e a política no Rio de Janeiro
Em fevereiro, as fortes chuvas que atingiram a Zona Sudoeste do Rio de Janeiro causaram estragos significativos na Estrada Comandante Luís Souto, que conecta o bairro do Tanque à Praça Seca. Moradores ficaram alarmados com o surgimento de grandes crateras na pista, resultado da força das águas que desmantelaram o asfalto. Um detalhe curioso, que despertou a atenção da comunidade, foi a aparição de um sofá em uma dessas cavidades, simbolizando o abandono e os problemas estruturais que afligem a área.
A sombra do crime
Poucos estão cientes de que a região, marcada por barricadas da facção criminosa Comando Vermelho, tem um histórico obscuro. Ronnie Lessa, ex-sargento da Polícia Militar e executor confesso dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, mencionou a Estrada Comandante Luís Souto como um ponto central em um pacto que envolvia a morte da vereadora.
O Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou, recentemente, o julgamento de mais cinco suspeitos ligados a esse trágico evento. É importante ressaltar que Ronnie Lessa e seu cúmplice, Élcio de Queiroz, já receberam suas condenações como os autores diretos do crime.
Nesse contexto, Lessa apontou dois irmãos — Domingos e Chiquinho Brazão — como os mandantes da execução. Segundo sua delação, o acordo para matar Marielle envolvia o controle de terras na área, permitindo que eles estabelecessem uma milícia. Na época, o domínio miliciano na Grande Jacarepaguá era bastante forte, mas atualmente, o tráfico de drogas tomou conta do território e continua a explorar serviços.
Um reduto eleitoral em transformação
Comandante Luís Souto é também o nome da comunidade que, conforme relatado por moradores, era um bastião eleitoral dos irmãos Brazão. O haras da família, localizado perto do entroncamento com a Rua da Chácara, serviu como ponto de atração por décadas, não apenas pela criação de cavalos de raça, mas também como um espaço de eventos que engajava a população local em rodeios e festas.
“Os Brazão estão aqui há mais de 30 anos. Os rodeios eram uma grande atração para os moradores”, conta um morador, nostálgico sobre os tempos passados.
A decadência do haras
Uma visita ao haras hoje revela um cenário de abandono. Com o espaço cercado pela vegetação, os estábulos sem portões permanecem inutilizados e uma estrutura maior destinada a festas está em ruínas. Mesmo sob o domínio do Comando Vermelho, ninguém se atreve a invadir a propriedade.
A defesa de Chiquinho Brazão argumenta que o imóvel pertence à sua ex-esposa e que o haras está desativado desde 1999. O advogado Cleber Lopes sustenta que a área citada como uma possível recompensa para o pacto de assassinato se enquadra em uma zona de proteção ambiental, levantando dúvidas sobre a viabilidade de qualquer empreendimento.
Factores como:
- A degradação do haras
- A disputa territorial entre milícias e traficantes
- O impacto da militarização na vida dos moradores
são questões que permeiam o cotidiano daquela comunidade e fomentam tensões históricas.
A guerra de narrativas
No âmago do julgamento estão também outras figuras controversas. O ex-chefede Polícia Civil, delegado Rivaldo Barbosa, é considerado o mentor intelectual do crime, enquanto Ronald Paulo Alves Pereira, major da PM e chefe da milícia da Muzema, enfrenta acusações de envolvimento direto com a perseguição a Marielle. Por outro lado, Robson Calixto da Fonseca, conhecido como Peixe, que trabalhou como assessor de Domingos e é acusado de associação criminosa, teria fornecido a arma utilizada no crime.
Pontos Cruciais:
- O papel dos crime organizado na política local
- A interconexão de interesses entre policiais e milícias
A degradação da região
A história da área e do haras revela um panorama preocupante de desvalorização. Múltiplos terrenos foram ocupados irregularmente, e várias casas apresentam placas de venda ou aluguel. Um morador, que pediu para não ser identificado, argumenta que muitos imóveis atualmente pertencem ao tráfico, evidenciando a precariedade e a habilidade do crime organizado em sustentar sua presença.
O que dobra a complexidade dessa narrativa é que o ex-sargento Lessa, em sua delação, mencionou a ideia de dividir um projeto de loteamento em duas partes, batizadas de Nova Medellín 1 e 2, em uma alusão clara à cidade colombiana conhecida por seu tráfico de drogas. Nos cálculos de Lessa, esses loteamentos poderiam render até R$ 100 milhões, além de proporcionar a exploração de serviços típicos de milícias.
Lembranças e testemunhas
Como parte do processo, a viúva de um criador de passarinhos, que era frequentador do sítio onde Ronnie Lessa conheceu os irmãos Brazão, se tornou uma testemunha chave. Ela relatou que tanto Lessa quanto Macalé e os irmãos frequentavam o local, que era um ponto de encontros amistosos. “Nunca falaram em mortes; as conversas giravam em torno de passarinhos e futebol,” recorda o filho da viúva, que agora vive recluso em uma área rural do Brasil.
A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, esclarece que o conflito entre Chiquinho e Marielle surgiu à medida que Marielle começou a se opor a projetos urbanísticos que favoreciam grileiros e milícias, intensificando as tensões políticas e sociais na região.
A conclusão do ciclo de violência
O julgamento, que começou oito anos após o crime brutal que abalou o Brasil, desvela uma trama intrincada, entrelaçada entre política, crime e a luta por poder. À medida que as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar, é fundamental refletir sobre as implicações mais amplas que essa história carrega para a sociedade e para os cidadãos comuns.
Convidamos você a compartilhar suas opiniões sobre esses acontecimentos e a interagir com este tema que, infelizmente, ainda ecoa em muitos lugares. Como a política e o crime podem se entrelaçar de maneira tão complexa? O que podemos fazer para mudar essa narrativa? Suas ideias são bem-vindas!
