Início Economia Transformação Financeira na Embrapa: Estrategias Inovadoras para Sustentar a Soberania do Agronegócio

Transformação Financeira na Embrapa: Estrategias Inovadoras para Sustentar a Soberania do Agronegócio

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O Futuro da Embrapa: Desafios e Inovações para a Pesquisa Agropecuária

Após quase dez anos com orçamento reduzido, a Embrapa, a principal referência em pesquisa agropecuária no Brasil, se preparou para 2025 com uma missão desafiadora: assegurar o financiamento das pesquisas em um cenário fiscal cada vez mais restritivo, sem pôr em risco a excelência que mantém a competitividade do agronegócio brasileiro.

Um Novo Caminho Financeiro e uma Nova Liderança

A solução para essa situação crítica passa pela reestruturação do modelo financeiro da Embrapa, pela renovação do capital humano e por uma abordagem mais incisiva na arena internacional. À frente deste importante desafio, encontramos Silvia Massruhá, doutora em computação aplicada e a primeira mulher a liderar a Embrapa, que tem uma carreira de 37 anos na instituição.

“A ciência não prospera em ciclos de financiamento curtos. Para realizar pesquisas de qualidade, precisamos de continuidade e previsibilidade”, afirma Silvia.

A Embrapa, que é a sigla para Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, está sob a supervisão do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e completa 53 anos em 2026. Com o cenário financeiro desgastado, Silvia assumiu em maio de 2023 um desafio enorme, herança de anos de contenção orçamentária e um quadro técnico envelhecido, resultado da escassez de concursos públicos.

Desde 2014, o orçamento dedicado às pesquisas caiu drasticamente, passando de R$ 800 milhões para um alarmante piso de R$ 160 milhões em 2022. No entanto, uma luz no fim do túnel começou a brilhar a partir de 2023, com uma recuperação gradual desse cenário.

Em 2025, o orçamento destinado à pesquisa alcançou R$ 335 milhões e, para 2026, a Lei Orçamentária Anual estima aproximadamente R$ 410 milhões, em um total de R$ 4,84 bilhões que abrange folha de pagamento e despesas operacionais.

Desafios Operacionais e Estrutural

Ainda assim, esse montante continua a ficar aquém das necessidades de uma instituição que possui 43 centros de pesquisa e 7,5 mil funcionários, sendo 2,1 mil deles pesquisadores dedicados a estudos em todos os biomas do Brasil. Além disso, a Embrapa opera duas unidades em parceria com instituições nos Estados Unidos, na França e, mais recentemente, na Etiópia.

Sob a direção de Silvia, a Embrapa busca restaurar sua capacidade de investimento, modernizar a governança e criar métodos de financiamento mais estáveis para a ciência agrícola brasileira.

“Quando o orçamento diminui, o risco não reside apenas na perda de projetos. Isso ameaça também capacidades científicas construídas ao longo de décadas”, destaca.

A relevância da pesquisa realizada pela Embrapa é evidente ao observar que, hoje, o PIB do agronegócio brasileiro corresponde a cerca de 25% da economia nacional.

“Ao longo de 50 anos, expandimos nossa área plantada em 140%, mas nossa produtividade aumentou em 580% nos grãos. Estamos produzindo cinco vezes mais na mesma área”, ressalta Silvia.

Parcerias Estratégicas e Inovação em Financiamento

Uma das principais frentes da estratégia da Embrapa é a criação de modelos híbridos de financiamento. Para isso, a instituição tem avançado em parcerias público-privadas e se alinhado com experiências de modernização da gestão estatal, com o apoio do BNDES no programa Inova, que busca eficiência nas estatais.

A abordagem é mais transparente do que muitos imaginam e visa garantir que o financiamento público permaneça como a base da soberania científica, ao mesmo tempo em que busca aumentar a contribuição do setor privado nas demandas mais imediatas. Isso não só reduz a pressão no Tesouro, de onde provêm os recursos públicos, como também acelera a transferência de tecnologia.

“O financiamento público é essencial para assegurar imparcialidade e inovações que o mercado geralmente ignora”, explica Massruhá.

“Mas isso não é o suficiente. Precisamos compartilhar riscos e adotar modelos mais modernos, sem perder o controle público sobre ativos estratégicos.”

Atualmente, existem aproximadamente 1.170 acordos de inovação aberta com entidades privadas, que contribuem com cerca de R$ 100 milhões adicionais por ano, reforçando o caixa das pesquisas.

Essas parcerias resultam em:

  • Expansão de projetos de co-desenvolvimento tecnológico
  • Licenciamento e prestação de serviços científicos avançados
  • Foco em áreas com alta maturidade tecnológica e interesse do setor produtivo

Projetos futuros incluem a criação de um fundo próprio da Embrapa e outro pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com potencial de alcançar R$ 100 milhões.

Resolvendo Impasses Jurídicos e Captação de Recursos

Um dos avanços mais significativos desse redesenho ocorreu em 2024, com a criação do Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT). Essa estrutura resolveu um dilema histórico que existia entre a Lei das Estatais e a Lei de Inovação, que impedia a Embrapa de reinvestir os royalties gerados por suas inovações.

Por muitos anos, esses recursos eram direcionados para o orçamento generalizado da União, dificultando o incentivo à inovação interna.

“Esse modelo não favorecia a inovação dentro da instituição”, afirma a presidente.

Com a nova organização, os royalties podem ser captados por meio de fundações de apoio e reinvestidos diretamente em pesquisa, criando um ciclo financeiro mais previsível e eficiente.

Reforço do Time e Renovação Científica

Juntamente com a reestruturação financeira, a Embrapa deu início em 2025 a um plano de reestruturação do seu quadro de pessoal. A expectativa é a contratação de cerca de mil novos profissionais, aumentando a equipe para 8,5 mil pessoas, incluindo jovens pesquisadores com formação em áreas inovadoras como:

  • Agricultura digital
  • Biotecnologia
  • Ciência de dados
  • Inteligência artificial
  • Sustentabilidade

A chegada dessa nova geração é essencial para impulsionar a renovação científica e substituir conhecimentos obsoletos. A implementação dessa força de trabalho é esperada até o primeiro semestre de 2026.

O Papel do Capital Humano

Internamente, a entendimento é claro: não há financiamento sustentável que não dependa de um capital humano qualificado e atualizado.

Foco em Ciência Aplicada e Sustentabilidade

Neste contexto de transformação financeira, a Embrapa também está redefinindo suas prioridades de pesquisa. Áreas como bioeconomia, descarbonização e rastreabilidade estão recebendo destaque por unirem demandas globais, impacto ambiental e potencial de geração de valor econômico.

Inovações, como a Fixação Biológica de Nitrogênio, já são aplicadas em dezenas de milhões de hectares, reduzindo drasticamente a dependência do Brasil em fertilizantes importados. Dessa pesquisa, a pesquisadora Mariângela Hungria foi agraciada com o Prêmio Mundial da Alimentação em 2025, reconhecido como o “Nobel da Agricultura”.

No que diz respeito à agenda climática, a Embrapa se posiciona como suporte técnico para políticas públicas e instrumentos financeiros, como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, fundamental para o acesso ao crédito rural e seguros.

“Quando a ciência se torna uma métrica confiável, o risco diminui. Isso facilita a obtenção de crédito”, conclui Massruhá.

Fortalecimento da Presença Internacional

Reforçar a atuação internacional é outro pilar crucial na estratégia da Embrapa. Com unidades e projetos de pesquisa em países como EUA e França, além de colaborações com organismos multilaterais, a Embrapa tem ampliado suas fronteiras.

Nos últimos dois anos, a empresa revisou suas regras de expatriação e garantiu sua presença no exterior, com uma nova unidade em Adis Abeba, na Etiópia, para atender as demandas da União Africana.

Além disso, estão em andamento negociações para novas parcerias na Ásia, América Central e Oriente Médio, regiões-chave para a difusão de práticas de agricultura tropical e para cooperação em questões como clima e segurança alimentar.

“A agricultura tropical é um ativo estratégico do Brasil. Parte da nossa responsabilidade científica e geopolítica é estar presente nos fóruns e projetos globais”, afirma a presidente.

A Caminho de um Futuro Sustentável

Com uma combinação de novos modelos financeiros, renovação do capital humano e uma presença internacional mais ativa, a Embrapa se esforça para garantir que a ciência continue sendo um dos pilares fundamentais para a competitividade do agronegócio brasileiro nas próximas décadas.

Essas ações e inovações colocam a Embrapa em um caminho promissor, assegurando que não apenas a agricultura nacional, mas também a inovação e a sustentabilidade sejam prioridades em sua agenda futura. É um verdadeiro trabalho em equipe que promete resultados impressionantes, unindo a tradição da pesquisa agrícola à modernidade das tecnologias emergentes.

E você, o que pensa sobre as transformações que estão ocorrendo na Embrapa? Compartilhe suas ideias e reflexões!

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