Início Economia Agronegócio Transformando Propósitos em Estratégias: O Poder do Valor Compartilhado no Agro Feminino

Transformando Propósitos em Estratégias: O Poder do Valor Compartilhado no Agro Feminino

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A Criação de Valor Compartilhado, um conceito elaborada por Michael Porter e Mark Kramer, vem se consolidando como uma abordagem fundamental para a gestão empresarial desde 2011. Essa ideia parte de um princípio simples: as empresas podem aumentar sua competitividade ao se engajar em desafios sociais e ambientais que se relacionam com suas competências e capacidades.

Em vez de encarar essas questões como meras obrigações ou iniciativas isoladas de responsabilidade social, elas se tornam verdadeiras fontes de inovação e crescimento, gerando valor tanto para os negócios quanto para a sociedade.

Esse debate se torna especialmente relevante em um cenário onde as práticas de ESG (ambiental, social e governança) enfrentam questionamentos. Muitas vezes, isso ocorre por conta do próprio sucesso do tema, que atrai tanto atenção que algumas empresas começam a comunicar ações que não estão, de fato, integradas em suas estratégias de negócios.

Como resultado, o consumidor se vê em uma posição difícil, incapaz de distinguir entre iniciativas genuínas e ações que visam apenas o marketing. Para muitos empresários, a sustentabilidade é apenas mais uma exigência a ser cumprida, um custo adicional ou uma obrigação regulatória.

A Criação de Valor Compartilhado propõe uma mudança significativa de paradigma. Em vez de questionar quanto custará atender a uma demanda socioambiental, a pergunta mais pertinente deveria ser: que oportunidades os desafios do mundo podem oferecer ao meu negócio? Que problemas podem ser resolvidos através das competências que já possuo?

Quando olhamos sob essa nova perspectiva, os desafios não são meros obstáculos, mas motores potenciais de inovação. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são um ótimo ponto de partida para identificar essas oportunidades, sempre conectando um impacto positivo com a capacidade de gerar valor econômico para as empresas.

Um Caso Ilustrativo

Nos anos 90, a fabricação de equipamentos de contenção para gado utilizava predominantemente madeiras nobres como ipê e cumaru. Contudo, com a crescente demanda por práticas mais sustentáveis, surgiu no mercado brasileiro, pela Beckhauser, o primeiro equipamento desse tipo totalmente construído em aço.

A transição foi gradual: inicialmente, apenas a estrutura foi substituída, e com o tempo o uso da madeira foi reduzido até que, eventualmente, a madeira foi totalmente eliminada do processo de fabricação desses equipamentos.

No começo, não havia um estudo que garantisse o sucesso financeiro dessa transição, nem um plano claro para posicionar a empresa como uma líder em sustentabilidade. O que existia era a crença de que era possível desenvolver uma solução melhor para um problema real.

Transformação e Impacto no Setor

O tempo provou que essa decisão trouxe benefícios muito além do esperado. A dependência de madeiras nobres foi reduzida, equipamentos mais duráveis e seguros foram desenvolvidos, além de um aumento significativo na produtividade do manejo. Essa mudança resultou em uma posição de liderança inovadora no mercado.

Um olhar verdadeiro para uma questão ambiental não apenas transformou o próprio negócio, mas também influenciou todo o setor. A substituição da madeira tornou-se uma tendência seguida por outros principais fabricantes do país.

Esse é, de fato, um dos grandes ensinamentos da Criação de Valor Compartilhado: quando uma empresa utiliza suas competências para solucionar problemas relevantes, o impacto positivo deixa de ser apenas uma consequência positiva de boas intenções e se torna parte de sua estratégia de crescimento.

Imagine o potencial que essa abordagem pode ter quando aplicada intencionalmente, sempre questionando quais necessidades da sociedade podem ser atendidas com aquilo que uma organização já faz de melhor. Esse tipo de reflexão gera muito mais valor do que qualquer campanha publicitária, criando benefícios concretos tanto para a sociedade quanto para a competitividade das empresas.

Essa mudança, ao lado de um compromisso com o bem-estar animal e atenção às necessidades das pessoas, tem se revelado um divisor de águas na história do setor, atrelando cada ação à inovação contínua.

A partir dessa lógica, abre-se uma nova oportunidade para avançar em termos de inovação. Por muito tempo, essa atividade foi restrita a dentro das empresas, geralmente limitadas às áreas de engenharia e desenvolvimento. Hoje, os desafios são mais complexos e requerem a integração de vários conhecimentos, experiências e perspectivas. E é assim que surge o conceito de inovação aberta.

O Propósito como Vocação

Esse olhar é o que movimenta o setor atualmente: promover uma pecuária que opera em harmonia com a natureza, gerando benefícios para produtores, trabalhadores, consumidores e os próprios animais, contribuindo para a regeneração ambiental. Colocar isso no centro da estratégia permite unir forças com outras empresas, profissionais e organizações que compartilham da mesma visão.

Mais do que discursos que muitas vezes banalizam o propósito e o desenvolvimento sustentável, conectar as habilidades empresariais para enfrentar desafios socioambientais resulta em resultados realmente extraordinários.
Talvez Aristóteles já tenha resumido essa ideia muito antes de receber um nome: “Onde seus talentos encontram as necessidades do mundo, lá está sua vocação”.

*Mariana Soletti Beckheuser é CEO da Beckhauser, uma empresa especializada em equipamentos para pecuária. Ela também é co-fundadora da Associação Parsifal21 e atua como conselheira em diversas organizações no Paraná voltadas para inovação, desenvolvimento econômico e cidadania empresarial.

Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.

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