Viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA altera disputa no Senado


A viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos pode fortalecer a articulação do Partido Liberal (PL) em torno da candidatura de Rogério Marinho (PL-RN) à presidência do Senado em 2027. Lideranças da oposição avaliam que as medidas impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ampliaram entre parlamentares a percepção de que o Judiciário interfere na autonomia da Casa.

Interlocutores da oposição dizem que o episódio será usado para convencer senadores do Centrão a apoiar Marinho, em vez de uma eventual reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP). A estratégia é associar a permanência de Alcolumbre no comando do Senado à continuidade de uma relação considerada frágil diante das decisões do Supremo.

Oposição transforma medidas em bandeira

Nos bastidores do Congresso, as medidas de Moraes contra Flávio foram classificadas por aliados do senador como perseguição política e interpretadas como um aviso de que decisões judiciais individuais poderiam atingir outros parlamentares. A bancada do PL pretende usar essa leitura para mobilizar senadores em torno da defesa das prerrogativas do Legislativo.

Advogados e analistas divergem sobre o alcance político do episódio. Fábio Souto, especialista em tribunais superiores do escritório Nunes Souto Advogados, afirmou que, a princípio, as medidas não podem ser consideradas uma interferência velada na eleição para a presidência do Senado. Ele citou uma carta na qual Flávio havia dito que alguns ministros do STF pretendiam mantê-lo refém para impedir que o Senado abrisse processos de impeachment contra magistrados.

Souto, porém, defendeu que as relações de alguns ministros sejam esclarecidas. “A Suprema Corte tem passado pelos piores dias de sua existência, com inúmeros ministros envolvidos em relações no mínimo duvidosas e devem também ser investigados”, afirmou.

Entre integrantes da oposição, a ida de Flávio aos Estados Unidos e o acolhimento que ele teria recebido de autoridades do país reduziram o efeito intimidatório atribuído às medidas de Moraes. A bancada do PL passou a apresentar o caso como evidência de avanço do Judiciário sobre atribuições do Congresso.

O cientista político Elias Tavares avalia que o episódio pode ampliar a mobilização e a pressão sobre senadores, além de dar visibilidade à pauta da oposição. Ele pondera, contudo, que mobilizar apoiadores não garante votos para iniciativas como um processo de impeachment. “Existe uma distância importante entre mobilizar apoiadores e construir uma maioria parlamentar disposta a levar um processo de impeachment, por exemplo, adiante”, disse.

Disputa por votos no Senado

A candidatura de Marinho terá de superar obstáculos na composição da maioria. Mesmo com uma bancada de 29 senadores, o PL precisa atrair parlamentares de partidos do Centrão, entre eles PSD, Republicanos e MDB, para enfrentar Alcolumbre na disputa pela Mesa Diretora, órgão responsável pela condução dos trabalhos do Senado.

Alcolumbre conta com o apoio da federação União Progressista e, segundo a notícia, com a força política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), recentemente reeleito. O atual presidente do Senado também pode usar as prerrogativas do cargo para conquistar votos, distribuindo posições em comissões, relatorias, imóveis e gabinetes parlamentares, além de oferecer espaços orçamentários da Casa.

A oposição pretende contrapor esses apoios com o argumento de que a continuidade de Alcolumbre representaria a manutenção de um Senado vulnerável a interferências do STF. Os aliados do PL também afirmam que o presidente da Casa vem barrando pedidos de impeachment contra Moraes. Para eles, esse alinhamento dificultaria tanto a abertura de processos contra ministros quanto o equilíbrio entre os Poderes.

O constitucionalista Rubens Beçak, livre-docente em teoria geral do Estado pela Universidade de São Paulo (USP), considera que a atuação de Moraes pode enfraquecer Alcolumbre na disputa. “Não se esqueça de que ele [Alcolumbre] é um grande apoiador do presidente Lula. Portanto, se o cenário realmente mudou, como me parece ter ocorrido no Senado, essa atitude de Moraes acrescenta mais um elemento a esse contexto. Na minha avaliação, Alcolumbre sai um pouco mais enfraquecido em suas pretensões”, afirmou.

PL reorganiza liderança da oposição

Com Flávio fora do Brasil, o PL precisa reorganizar a coordenação da oposição no Congresso. A ausência do senador abre espaço para que Marinho assuma maior protagonismo e conduza conversas com senadores indecisos e parlamentares recém-chegados à Casa.

Segundo interlocutores, a mensagem do partido será que, sem limites constitucionais para decisões monocráticas — tomadas individualmente por um magistrado —, nenhum senador estaria protegido contra retaliações. Beçak também classificou a decisão de Moraes como “uma revanche”. O professor relacionou a medida ao pedido da Polícia Federal e ao momento em que ela foi decretada, minutos depois da proclamação dos resultados eleitorais.

Para Beçak, a proximidade entre a divulgação do resultado e a adoção das medidas contra um senador em exercício demonstra, na sua avaliação, “um espírito persecutório, revanchista, que é deletério”. A disputa de 2027, assim, tende a combinar negociações por apoio parlamentar com o debate sobre a relação entre o Senado e o Supremo.

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