Um Novo Capítulo nas Relações Europeias: Enfrentando os Desafios Contemporâneos
A recente estratégia de segurança nacional da segunda administração Trump questionou o papel tradicional dos Estados Unidos ao afirmar que “os dias em que os Estados Unidos sustentavam a ordem mundial como Atlas acabaram.” Essa ideia tem moldado a política externa do governo, especialmente em relação à Europa, ao longo dos últimos anos. Em um movimento surpreendente em 2025, os EUA suspenderam a ajuda militar à Ucrânia e, em maio deste ano, anunciaram a retirada de 5.000 soldados da Alemanha. O ex-presidente Donald Trump também fez suas ameaças, incluindo a possibilidade de tomar a Groenlândia, território de um aliado da OTAN, além de prometer tarifas contra países que se opusessem a tais ações. Em uma ação militar contra o Irã em fevereiro, os EUA e Israel não consultaram ou alertaram os poderes europeus, que, por sua vez, enfrentaram as consequências econômicas do conflito praticamente sozinhos.
Uma Europa que Não Fica de Braços Cruzados
Embora os EUA tenham se afastado dessas responsabilidades, a Europa não ficou parada. Em 2025, países europeus rapidamente assumiram o papel que os Estados Unidos deixaram vago, especialmente no que diz respeito ao apoio financeiro à Ucrânia. No caso da Groenlândia, Estados europeus conseguiram fazer Trump recuar, ameaçando com medidas comerciais retaliatórias significativas. Além disso, a Europa começou a estreitar seus relacionamentos com outras nações. A União Europeia, por exemplo, criou um programa de empréstimos para defesa de $168 bilhões, com o Canadá como primeiro membro não europeu. Recentemente, a UE finalizou o maior acordo comercial de sua história com a Índia e assinou um contrato há muito esperado com o bloco econômico sul-americano Mercosul.
- Ações recentes demonstram uma liderança europeia renovada em áreas como defesa, comércio e cooperação internacional.
- Essas iniciativas desafiam a imagem de uma Europa hesitante e indecisa que muitas vezes foi criticada no passado.
Entretanto, apesar desse impulso em direção à autossuficiência, a Europa ainda mantém uma dependência significativa dos Estados Unidos. As mulheres e homens de defesa europeus continuam a se apoiar nas capacidades militares dos EUA, desde planejamento de defesa até sistemas de dissuasão nuclear. Embora o aumento do investimento em defesa possa gerar compras em fabricantes americanos, a verdade é que, em 2025, mais da metade das importações de gás natural liquefeito da UE vinha dos EUA.
Credibilidade em Jogo
A dependência contínua da Europa tem enfraquecido sua credibilidade com outros países que buscam novos laços de segurança, tecnologia e comércio. Durante décadas, o apelo europeu para esses países foi fundamentado na relação com Washington. A proteção de segurança proporcionada pelos EUA, através da OTAN, e a facilidade de acesso ao mercado europeu tornam as propostas atraentes para nações não europeias. Contudo, à medida que os EUA passaram a tornar essas relações mais instáveis e negociáveis, o encanto diminuiu. Quanto mais fraca se torna a relação transatlântica, mais a Europa precisa de mercados externos, matérias-primas e solidariedade, enquanto se vê menos capaz de convencer esses países do seu valor como parceira.
Qual seria, então, a proposta que a Europa poderia fazer para se afirmar como um parceiro viável e atraente? Vamos explorar as melhores práticas e capacidades que o continente pode oferecer.
A Nova Proposta Europeia
A Europa sempre se posicionou como líder em questões como meio ambiente, proteção ao consumidor e altos padrões regulatórios, atraindo países vizinhos com a promessa de uma associação à UE. Mais de 140 países já fizeram algum tipo de parceria ou aceitaram ajuda através da UE. Contudo, a retração dos EUA fez com que os países buscassem garantias de segurança mais eficazes, relações comerciais estáveis e financiamento que compensasse cortes nas ajudas anteriores.
- Ucrânia, que inicialmente buscou a UE devido às promessas de prosperidade, hoje precisa de armas e inteligência para combater a Rússia.
- Enquanto isso, países atingidos pelas tarifas de Trump estão em busca de mercados confiáveis onde possam exportar seus produtos.
Quando olhamos para o setor energético, é evidente que a Europa deve buscar um sistema energético integrado para evitar dependências problemáticas. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 demonstrou como depender de gás russo pode ser prejudicial. A recuperação em diversos países europeus foi ajudada por um sistema energético mais resiliente, permitindo que as nações se apoiassem mutuamente durante períodos críticos.
Autonomia e Colaboração
A Europa já demonstra capacidades em várias áreas de segurança, comércio e finanças. Em 2025, a soma dos gastos anuais em defesa dos Estados membros da UE alcançou aproximadamente $461 bilhões. Embora ainda menor que os $954 bilhões gastos pelos EUA, esse número supera os gastos da China e da Rússia. Em resposta à falta de ajuda militar dos EUA, os governos europeus aumentaram o apoio à Ucrânia, comprometendo-se a financiar seu esforço de guerra até 2027.
Além disso, o acordo comercial firmado com a Índia em 2026 eliminou quase todas as tarifas, facilitando as trocas e movimentos temporários de pessoas entre os dois blocos. A consolidação do Global Gateway, uma resposta da Europa à iniciativa da China, promete investimentos significativos em projetos internacionais.
Esses sucessos individuais mostram que a Europa ainda pode oferecer parcerias atraentes, mas muito desse potencial ainda não foi plenamente explorado. Portanto, é crucial que o continente desenvolva a coesão interna necessária para atrair novos aliados.
Os Desafios da Fragmentação
Uma das maiores frustrações da Europa reside justamente em sua fragmentação interna, especialmente em questões de segurança. As forças armadas e as indústrias europeias prevalecem mais em um contexto nacional do que em um esforço conjunto. Enquanto os países buscam os melhores negócios para suas empresas, surgem conflitos que dificultam projetos comuns e exaurem recursos valiosos.
Embora a Europa tenha voz unificada em negociações comerciais, muitos acordos precisam ser ratificados por cada estado-membro, o que os deixa vulneráveis a pressões internas de lobbies. Por exemplo, passaram-se mais de dez anos desde que o acordo abrangente de comércio entre o Canadá e a UE foi negociado, mas somente 17 dos 27 Estados membros o ratificaram até agora.
Construindo Pontes, Não Muros
A relação da Europa com os EUA foi histórica, baseada em valores e interesses mútuos. Contudo, a realidade atual exige que a Europa busque novas parcerias, que reforcem a ideia de que muitos países não suportarão a pressão de potências maiores se não se unirem.
Construir essas novas relações não significa excluir Washington, mas sim diversificar as parcerias. A colaboração em segurança através da OTAN, o comércio e o investimento ainda serão valiosos. No entanto, a Europa deve negociar de uma posição de mais força, alicerçada por diversas alianças.
Essa transformação levará tempo, e uma nova coalizão não se tornará um ator estratégico unificado imediatamente. Porém, um esforço renovado da Europa para se afirmar como parceira autossuficiente será o primeiro passo nessa direção. Assim como em todos os empreendimentos significativos, o mais difícil é começar.
Com um olhar otimista para o futuro, a Europa pode construir um novo capítulo em suas relações internacionais, não apenas resistindo, mas também prosperando com aliados que compartilham a visão de um mundo mais estável e cooperativo.

