Retornando ao Lar: Desafios e Tretas do USS Abraham Lincoln
No dia 8 de outubro, o porta-aviões USS Abraham Lincoln e seu grupo de combate voltaram aos Estados Unidos após uma impressionante jornada de 320 dias no mar. Essa missão se destacou como uma das mais longas na história militar americana moderna e, ao longo do tempo, se tornou um tema de controvérsia. Enquanto as embarcações seguiam sem paradas em portos, a situação a bordo deteriorava-se rapidamente. Os marinheiros enfrentaram escassez de suprimentos, problemas hidráulicos e contaminação da água. A moral da tripulação caiu drasticamente, a ponto de oito deles tentarem suicídio. Quando finalmente deixaram o Oriente Médio, os desafios enfrentados se tornaram manchetes em todo o país.
A Conjuntura Alarmante
Os desafios enfrentados pelo Lincoln não estão sozinhos; a situação no exército dos EUA tem gerado preocupação desde o início da guerra no Irã, em fevereiro. Analistas militares têm manifestado apreensão em relação a outras forças de combate que também sofreram com longas implantações. Um ponto recorrente de inquietação é a decisão da administração Trump de deslocar soldados e armas do Indo-Pacífico para o Oriente Médio. E, acima de tudo, a crescente ansiedade sobre o esgotamento do estoque americano de munições sofisticadas.
Esses problemas têm uma raiz comum: o exército dos EUA não foi estruturado para o uso quase constante que tem enfrentado nas últimas décadas. Desde a Guerra Fria, os planejadores militares americanos modelaram as forças armadas para estar preparadas para lutar em dois grandes conflitos ao mesmo tempo. Na prática, isso significa que os EUA construíram um exército voltado para guerras curtas e de alta intensidade. A consequência? A falta de unidades, armamentos ou pessoal para lidar com conflitos prolongados e a necessidade de usar suas forças globalmente para conter inimigos e tranquilizar aliados.
Uma Nova Abordagem para um Velho Problema
Diante dessa situação, as autoridades americanas tentam aumentar modestamente o tamanho do exército. Mais importante ainda, esperam que enormes injeções de recursos financeiros aumentem as capacidades das forças armadas existentes. Entretanto, implementar essas mudanças será um grande desafio — e, na verdade, pode ser desnecessário. Os Estados Unidos são um país relativamente seguro, com aliados ricos e capazes, e não necessitam de uma máquina de defesa que possa atuar em diversos locais simultaneamente. O ideal, seria focar em um conjunto menor de questões e diminuir a escala.
O Exército Sob Pressão
As forças não nucleares dos EUA consomem mais de 80% do orçamento de defesa e estão estruturadas e dimensionadas para contingências específicas, como um confronto com a China, a Rússia ou ambos ao mesmo tempo. Assim, as armas militares são projetadas para máxima letalidade e sobrevivência em um ambiente potencialmente mortal. Para isso, o Pentágono tem dado ênfase à aquisição de armamentos precisos, de longo alcance e furtivos, que devem abrir as portas das defesas inimigas e possibilitar que outras plataformas avançadas, como caças F-35 ou bombardeiros B-2, realizem ataques com armas de precisão letais.
Historicamente, Washington nunca esperou que essas guerras se prolongassem. A expectativa é de que, sob a pressão intensa de conflitos, os adversários se rendam ou que as hostilidades escalem a ameaças nucleares. Durante a Guerra Fria, por exemplo, os EUA e seus aliados se prepararam para um conflito intenso, mas rápido, com a União Soviética, um tempo que poderia durar em média 30 dias. Os planejadores atuais fazem suposições similares em relação a um possível conflito com Pequim ou Moscou.
Dificuldades e Promessas Não Cumpridas
Desde a longa jornada do Abraham Lincoln, ficou claro que o exército dos EUA enfrenta mais problemas do que apenas a falta de recursos. A política interna também contribui para as dificuldades. A aversão do povo americano a guerras prolongadas leva os políticos a evitar ao máximo o envio de tropas, o que resulta em um uso excessivo de armamentos de alta qualidade em conflitos regionais. Do mesmo modo, armas de defesa aérea são deslocadas para proteger cidades aliadas, com receio de que um aliado abande a causa.
Os políticos frequentemente recorrem ao uso militar com facilidade, especialmente quando se pôem a comunicar a força diplomática, levando a um desgaste significativo nas tropas. Registros indicam que muitas das embarcações e aeronaves não estão em condições adequadas, devido ao tempo excessivo de uso, resultando em manutenções adiadas e aumento nos problemas de reparo. Isso cria um efeito dominó em outras unidades, levando à falta de prontidão em caso de um desafio significativo de uma potência.
A Realidade do Desgaste
As tropas dos EUA continuam em constante vigilância, tentando coagir inimigos e tranquilizar seus aliados. Essa pressão contínua reflete em altos níveis de atividade, que podem prejudicar a retenção de pessoal. Mesmo com sucesso em manter os membros mais experientes nos últimos anos, o número de marinheiros e soldados em condições de trabalho adequadas tem diminuído. Desde 2024, diversos navios têm saído para o mar com pessoal abaixo do necessário, ilustra bem o desgaste das forças armadas.
O resultado de todo esse ativismo é uma força militar se tornando mais lenta e menos eficaz, com consequências diretas na prontidão. Por exemplo, a taxa de “capacidade de missão completa” dos F-35 — um dos principais caças das forças armadas — caiu de 38% para 25% desde 2021. Assim, a vontade de realizar missões é significativamente afetada pelo excesso de trabalho a que são submetidas.
Caminhos para a Solução
Os responsáveis pela defesa nos EUA estão cientes da situação insustentável. Atualmente, buscam resolver o problema com planos para construir um exército com mais recursos e uma capacidade tecnológica avançada. O Congresso está, por exemplo, se preparando para aumentar o orçamento da defesa em mais de 25%, totalizando cerca de US$ 1,1 trilhões para o ano fiscal de 2027. Além disso, esperam assegurar mais US$ 350 bilhões para investimentos adicionais e aumentar o efetivo em mais de 40 mil novos soldados.
No entanto, esse incremento representa, no máximo, um crescimento de apenas 3% do efetivo — muito abaixo do necessário. As sofisticadas armas que o Congresso deseja adquirir não resolverão a pressão gerada por implantações constantes e guerras repetidas. A atual base industrial de defesa mal dá conta da demanda vigente e a necessidade de reclutar novos membros exigirá aumentos salariais, o que pode pressionar ainda mais o orçamento.
Uma Visão Alternativa: Reduzindo a Escala
Uma alternativa viável seria reduzir o escopo de atuação. Ao invés de se convencer que é preciso lutar em múltiplas frentes simultaneamente, Washington deveria moldar sua estratégia à realidade dos recursos disponíveis. É essencial continuar a formar forças para contingências maiores, como a contenção de ameaças da China, mas é igualmente crucial desacelerar outras áreas.
O Congresso poderia demandar que o Pentágono revise a estrutura das forças armadas e proponha um orçamento de atividades com base na análise de quanto militar poder ser empregado sem impacting a prontidão. Com base em anos de hiperatividade, comandantes devem avaliar o que é realmente viável em termos de exercícios, implantações e conflitos regionais sem comprometer a capacidade de estar pronto para um conflito significativo.
Esse orçamento de atividades deveria ser transparente, acessível ao público, e divulgado junto com o orçamento financeiro da Defesa. Quando os políticos desejam ultrapassar os níveis de atividade já acordados, seriam obrigados a justificar suas decisões e esclarecer como pretendem restaurar a força após um uso intenso.
O Futuro da Defesa Americana
Por fim, para aliviar o peso de suas responsabilidades, Washington deve transferir algumas de suas obrigações para outros aliados. Apesar da necessidade de gerenciar as funções da Rússia, os principais Estados europeus possuem recursos econômicos e tecnológicos suficientes para lidar com a Rússia por conta própria, se assim escolherem. Assim, a relação transatlântica deve ser mais clara sobre a extensão do apoio que os EUA estão dispostos a fornecer.
Embora o governo Trump já tenha reconhecido essa realidade, as atividades militares americanas na Europa mostram que a realocação de responsabilidades ainda não ocorreu. A posição de comandante supremo da OTAN, por exemplo, continua a ser ocupada por um americano, quando deveria ser um europeu. De igual modo, a presença de tropas americanas no continente deve ser revista, com muitos retornando ao território nacional.
Os oficiais americanos frequentemente buscam solucionar suas questões globais de segurança simplesmente comprando mais forças. Mas, na realidade, uma mudança na estratégia e uma abordagem menos proativa pode ser muito mais eficaz. Os EUA, por natureza, são um país seguro: rico, com abundantes recursos naturais, isolado por grandes oceanos e cercado por vizinhos relativamente pacíficos. Apenas uma mudança significativa nas dinâmicas de poder em regiões como a Ásia, Europa ou Oriente Médio poderia impactar seriamente a segurança dos Estados Unidos.
Assim, enquanto é prudente manter um poder militar suficiente e reservatórios adequados de recursos, não se pode esquecer da necessidade de adotar medidas mais equilibradas. Uma reavaliação da estratégia poderá, inclusive, permitir reduzir o orçamento da defesa, possibilitando mais saúde fiscal diante dos déficits crescentes.
Que tal refletir sobre as formas de otimizar nossa presença militar e nos preparar para o futuro? Sua opinião é importante, não hesite em comentá-la!

