domingo, fevereiro 15, 2026

Desvendando o Impacto das Estradas Vicinais no Futuro do Agronegócio Brasileiro


A Realidade das Estradas Vicinais no Brasil: Um Desafio Ignorado

Aos 84 anos, João Martins, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), traz consigo uma experiência ímpar no campo. Ele é um defensor fervoroso dos pequenos produtores, especialmente nordestinos, que lutam diariamente contra um desafio que perdura há gerações: o estado precário das estradas vicinais brasileiras. “O governo ignora o pequeno produtor que tira 100 ou 150 litros de leite, levando-os pessoalmente para a cidade. E esse produtor enfrenta dificuldades a cada viagem”, lamenta ele.

O Custo das Estradas Ruins

A história de Martins ressoa com a realidade de milhões de brasileiros. O preço do transporte, em estradas esburacadas, consome uma fatia significativa do que o pequeno produtor ganha. Quando as caminhonetes, muitas vezes antigas, quebram, ele amargura a perda quase toda da receita gerada. “Precisamos olhar para esses trabalhadores do campo, que são essenciais para a produção do nosso Brasil”, reforça Martins.

Recentemente, a CNA apresentou um estudo que detalha a magnitude desse problema. O relatório intitulado “Panorama das Estradas Vicinais no Brasil” revela que o país perde anualmente R$ 16,2 bilhões apenas em custos operacionais devido à manutenção dessas estradas em condições inadequadas.

João Martins, na apresentação do estudo

Investimentos que Transformam

Martins destaca a importância de investir em estradas vicinais não apenas para escoar a produção, mas também para garantir o acesso a serviços básicos, como saúde e educação. “Essas estradas são um elo vital no nosso sistema. Investir nelas é essencial”, afirma o presidente da CNA.

Dados Reveladores:

  • 2,2 milhões de km de estradas vicinais no Brasil.
  • 211 mil km de rodovias pavimentadas, ou seja, dez vezes menos que as vicinais.
  • 1,4 bilhão de toneladas de carga do agronegócio trafegam anualmente por essas estradas.

Thiago Guilherme Péra, coordenador do Grupo de Pesquisa e Logística da Esalq-Log, reforça a importância dessas vias: “Elas são fundamentais. Tudo que usamos e produzimos depende delas.” com mais de 367 mil km de estradas terciárias e 1,8 milhão de km de vias “não classificadas”.

Diagnóstico Desolador

Um estudo realizado pela CNA e Esalq-Log percorreu mais de 1.200 km em diversas regiões do Brasil, ouvindo 150 pessoas, entre agricultores e representantes de municípios. O resultado foi alarmante: apenas 1% dos entrevistados considera as estradas vicinais em ótimas condições, enquanto a maioria as classifica como ruins (35%), péssimas (30%) ou regulares (26%).

Os principais problemas relatados incluem buracos, atoleiros e pontes danificadas. “Muitos produtores têm que usar recursos próprios para fazer reparos básicos. Essa é a realidade de muitos”, diz Péra.

O Impacto Ambiental e Econômico

A precariedade das estradas não afeta apenas a economia; também gera impactos ambientais. Calcula-se que o sistema atual emita 3 milhões de toneladas de CO₂ anualmente. Estradas em melhores condições poderiam reduzir essas emissões em 32,9%, ou aproximadamente 1 milhão de toneladas anualmente.

A Conta que Ninguém Faz

O valor de R$ 16,2 bilhões em custos operacionais inclui gastos com combustível, manutenção de veículos, insumos e até perdas de carga. Setores do agronegócio, como cana-de-açúcar, soja e milho, são os que mais sofrem com isso, acumulando perdas significativas.

Exemplos de Perdas:

  • Cana-de-açúcar: R$ 2,3 bilhões.
  • Grãos (milho e soja): R$ 2,1 bilhões.
  • Produção animal: Quase R$ 1 bilhão.

Improvisos e caminhões mal equipados resultam em prejuízos adicionais, que se acumulam ao longo do tempo.

Caminhos para Soluções Práticas

O investimento necessário para adequar as estradas vicinais a um padrão mínimo de qualidade é de R$ 4,9 bilhões por ano. Esse valor representa menos de um terço do prejuízo anual, apenas em custos operacionais. O retorno desse investimento seria tangível, com uma economia líquida de R$ 11,3 bilhões anuais.

Padrões de Qualidade Propostos

O estudo sugere três condições para essas estradas:

  1. Sem padrão: Estradas com muitos buracos, sem melhorias.
  2. Padrão mínimo: Nivelamento básico, ausência de buracos, mas sem sistema de drenagem.
  3. Padrão superior: Projeto técnico completo, drenagem adequada, e menor necessidade de manutenção.

Estratégias para Decisões Eficientes

O Índice de Priorização das Estradas Vicinais (Ipev) foi criado para ajudar a realização de investimentos. Este índice permite que se identifique quais áreas devem ser priorizadas, considerando a importância das estradas para o escoamento da produção e oferecendo uma visão holística sobre a infraestrutura rural.

Entre as sugestões estão:

  • Apoio ao Projeto de Lei nº 1146/2021, que estabelece a Política Nacional de Mobilidade Rural.
  • Implementação do Programa Nacional de Estradas Vicinais (Proner).
  • Melhoria na logística para obter materiais de construção necessários.

Os obstáculos identificados incluem orçamentos limitados e a falta de mão de obra qualificada, desafios que precisam ser superados para modernizar a infraestrutura rural.

Avançando Rumo ao Futuro

É crucial parar de negligenciar o estado das estradas vicinais. A infraestrutura é a espinha dorsal do agronegócio e, sem melhorias, o Brasil se tornará cada vez mais deficitário em termos de competitividade. Se somos um país que almeja crescer no setor agrícola, a mudança começa pela base — as estradas.

Um Chamado à Ação

Vamos nos perguntar: queremos continuar atolados em problemas de infraestrutura, ou vamos avançar em direção a um futuro mais competitivo? O momento de agir é agora. Precisamos dialogar sobre as soluções e trabalhar juntos para reverter esse quadro.

Martins resume de forma clara, “Precisamos transformar o Brasil que é visto nas grandes cidades no Brasil rural que sustenta nosso país. É hora de investir e priorizar quem realmente carrega o peso da produção.”

Leve essa mensagem adiante e compartilhe suas opiniões sobre as estradas vicinais. O que você acha que pode ser feito para melhorar a situação?

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