O Irã intensificou, no último mês, os ataques a embarcações no Estreito de Ormuz, enquanto os houthis do Iêmen ampliaram a pressão sobre o comércio no Mar Vermelho. Desde o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, em fevereiro, foram registrados mais de 100 lançamentos de drones e mísseis em direção a Ormuz; em outubro, um navio porta-contêineres e um graneleiro afundaram na passagem. A resposta internacional, até agora fragmentada, não conseguiu assegurar o tráfego nem dissuadir Teerã e seus aliados.
As duas crises afetam rotas estratégicas para o comércio marítimo e, segundo a análise apresentada, estão cada vez mais conectadas. A proposta é substituir iniciativas separadas por uma coalizão multinacional duradoura, com participação dos Estados Unidos, de países europeus e de nações do Oriente Médio e da Ásia. O objetivo seria proteger Ormuz e o Mar Vermelho de forma coordenada, sem confundir a missão defensiva com as operações ofensivas contra o Irã.
Coalizões anteriores tiveram alcance limitado
Os ataques às rotas marítimas não começaram com a guerra atual. Em 2019, depois que a primeira administração de Donald Trump impôs uma campanha de sanções de “pressão máxima” contra o Irã, Teerã atacou petroleiros perto dos Emirados Árabes Unidos e no Golfo de Omã, além de apreender um navio-tanque britânico em águas internacionais do Estreito de Ormuz. Naquele período, os prêmios de seguro subiram dez vezes e as tarifas de transporte de petroleiros de petróleo bruto avançaram quase 40%.
Em resposta, os Estados Unidos criaram a International Maritime Security Construct (IMSC), uma estrutura de segurança marítima sediada no Bahrein. A missão buscava manter navios militares em pontos estratégicos, acompanhar as atividades marítimas iranianas e compartilhar informações com empresas de transporte. Até o fim de 2019, Albânia, Austrália, Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido haviam aderido. A maioria dos países europeus ficou de fora, em parte por discordar da saída dos Estados Unidos do acordo nuclear de 2015 com o Irã.
Oito países europeus, em vez disso, participaram de uma missão liderada pela França, a European Maritime Awareness in the Strait of Hormuz (EMASoH), voltada à vigilância, à redução de tensões e ao diálogo regional. A divisão se repetiu em 2023, quando os houthis começaram a atacar embarcações no Mar Vermelho. Os Estados Unidos lançaram a Operação Prosperity Guardian (OPG), uma coalizão naval que reuniu mais de 20 países. A missão manteve de quatro a oito navios de guerra na região e interceptou drones e mísseis. Seus líderes disseram que, no primeiro mês, a operação facilitou a passagem segura de mais de mil navios comerciais. A União Europeia organizou uma operação defensiva menor para escoltar embarcações europeias e interceptar ataques.
Essas iniciativas ajudaram a impedir o fechamento completo das rotas e obtiveram resultados táticos, mas não eliminaram a ameaça. As diferenças políticas limitaram a coordenação: vários governos evitaram participar de ataques ofensivos ou de missões explicitamente dirigidas contra um Estado. Uma avaliação do governo holandês, em 2021, apontou que os Países Baixos consideravam que o Irã poderia distinguir a missão europeia da liderada pelos Estados Unidos e agir com menos agressividade contra embarcações europeias. A separação entre operações, portanto, também poderia ser explorada por Teerã.
Planos atuais ainda não estão integrados
Hoje, Reino Unido e França propõem uma coalizão defensiva multinacional para proteger o Estreito de Ormuz depois que a guerra terminar. O plano não inclui os Estados Unidos e ainda não foi ativado. A Arábia Saudita também prepara uma aliança para o Mar Vermelho, mas não a colocou em operação. No fim de julho, Riade anunciou a formação de uma coalizão defensiva com 14 países da África e do Oriente Médio, além de Bangladesh e Paquistão.
Enquanto isso, Washington mantém uma operação própria na região. A Marinha dos Estados Unidos escolta embarcações em águas de Omã e as defende de ataques iranianos, além de impor um bloqueio naval a portos do Irã e desabilitar petroleiros que ignoram advertências. Segundo a análise, os Estados Unidos deslocaram quase um terço de seus navios de guerra para o Oriente Médio. A presença militar ajudou a restabelecer grande parte do fluxo de petróleo bruto anterior à guerra, mas pode ser difícil de sustentar diante de outras prioridades e do desgaste de operações contínuas.
Também há tráfego limitado nas duas passagens. Em 15 de outubro, a Lloyd’s List Intelligence informou que o trânsito pelo estreito de Bab el-Mandeb havia aumentado modestamente em relação a agosto. Patrulhas navais e adaptações logísticas dos países do Golfo, como transferências de carga entre navios, permitiram que parte do petróleo continuasse circulando por Ormuz. Ainda assim, o transporte permanece restringido.
Impactos econômicos e proposta de resposta
A ameaça às rotas já tem consequências para a economia. Em outubro, o Banco Mundial projetou contração de 4,3% para as economias do Golfo em 2026, em parte devido ao fechamento de Ormuz e aos ataques iranianos à infraestrutura de energia. Em junho, o Fundo Monetário Internacional estimou que a guerra no Irã poderia reduzir em 0,5 ponto percentual o crescimento da zona do euro em 2026.
A proposta é reunir os planos europeu e saudita e incluir os Estados Unidos em uma estrutura de comando liderada por países árabes e europeus, apoiada por capacidades militares americanas. A missão seria exclusivamente defensiva: os parceiros não participariam do bloqueio naval nem da guerra contra o Irã. O modelo, segundo a análise, poderia se inspirar na separação entre a operação defensiva da OPG e os ataques ofensivos multinacionais realizados contra os houthis em 2024.
Os Estados Unidos também poderiam contribuir com inteligência e coordenação operacional, enquanto os parceiros da Ásia, Europa e Oriente Médio direcionariam recursos já prometidos às iniciativas separadas para uma coalizão comum. A proposta inclui compartilhar informações em tempo real sobre armas e métodos de ataque iranianos e houthis, além de ampliar apoio logístico, manutenção e uso de equipamentos não tripulados.
Uma coalizão unificada não eliminaria, por si só, as ameaças nem garantiria a retomada plena da navegação. Mas a falta de coordenação pode permitir que o Irã e os houthis explorem divergências entre governos e mantenham a pressão sobre o comércio global. Sem uma estratégia comum e sustentada, as operações podem reduzir riscos no curto prazo sem impedir que ataques às rotas marítimas voltem a ser usados como instrumento de pressão.

