Como a União entre Soja e Abelhas Celebra 50 Anos de Sucesso no Paraná


A Revolução do Sítio Roda d’Água: Agronegócio e Apicultura em Harmonia

Na tranquila localidade do Sítio Roda d’Água, localizado nos arredores de Floresta, no Paraná, uma engenheira agrônoma e produtora rural de 37 anos, Lígia Jung, ergue uma bandeira de esperança e inovação. Com uma pergunta provocativa que ecoa em suas apresentações, ela desafia a narrativa predominante: “Por que só existem notícias ruins sobre agricultura e abelhas, se aqui encontramos soluções há décadas?” Essa indagação é o combustível que move a dedicação da família Jung em integrar a apicultura e a agricultura de uma maneira sustentável.

A Propriedade Familiar

Com 135 hectares, a propriedade da família Jung é um verdadeiro laboratório de práticas inovadoras. Lígia, seu pai Antônio, sua mãe Albertina e seu irmão Paulo Henrique cultivam principalmente soja e milho, além de manter um apiário com 95 colmeias que produzem mel silvestre. É impressionante pensar que essa pequena propriedade abriga cerca de 5 milhões de abelhas, incluindo tanto as africanizadas quanto as espécies nativas, como jataí e mandaçaia.

Convivência Próspera

Desde 2006, a família transforma a apicultura em um negócio rentável, mas a relação com as abelhas começou bem antes, em meio à produção de café. Após a crise da cafeicultura na década de 1970, o apiário se tornou uma tábua de salvação, unindo manejo inteligente, ciência e paciência. A combinação perfeita entre as culturas e as abelhas fez com que a fertilidade e a produtividade da soja aumentassem significativamente.

Durante a floração da soja, as colmeias chegam a produzir até 50 quilos de mel por colmeia anualmente, superando em muito a média nacional de 19 a 20 quilos.

Superando Desafios

A história do Sítio Roda d’Água não foi isenta de dificuldades. O sítio enfrentou geadas devastadoras que dizimaram plantações e a aplicação inadequada de defensivos que resultou na morte de várias colmeias entre 2009 e 2014. Um evento marcante foi quando perderam 64 colmeias em uma única noite. A resiliência de Lígia se destacou quando ela denunciou a situação ao Ministério Público, fomentando diálogos construtivos e ajustando práticas agrícolas na região.

Em um ano colhemos 2.500 quilos de mel. No ano seguinte, apenas 30 quilos”, relembra Lígia, evidenciando a importância de adequar as práticas agrícolas para evitar danos às abelhas.

Manejo Integrado de Pragas

Um dos segredos do sucesso da propriedade é o Manejo Integrado de Pragas (MIP), uma abordagem técnica que, segundo estudos, diminui a necessidade de aplicações de inseticidas. Áreas que adotam MIP fazem apenas 1,7 aplicação de inseticidas, em comparação com as 3,7 aplicações em áreas sem o manejo. Essa prática não só é econômica, mas também protege as abelhas, um recurso valioso para a polinização.

“O que realmente importa é manter a população de abelhas saudável e ativa nas lavouras. Com abelhas para polinização, a produtividade pode aumentar entre 10% a 13%”, destaca o professor Vagner Arnaut, da Universidade Estadual de Maringá e parceiro técnico da família.

Práticas que Funcionam

Implementar práticas simples e eficazes pode resultar em grandes benefícios:

  • Evitar aplicações de defensivos durante a floração da soja.
  • Realizar pulverizações em horários de menor atividade das abelhas, preferencialmente no final da tarde ou à noite.
  • Calibrar pulverizadores para reduzir a deriva.
  • Fomentar a comunicação entre apicultores e agricultores para alinhar interesses.
  • Manter refúgios florais durante a entressafra.

Esses passos ajudam na coexistência harmônica entre o cultivo e a polinização, promovendo um ambiente sustentável.

Benefícios Atingidos

Os resultados falam por si. Apicultores próximos às lavouras de soja colheram mel por um período prolongado, garantindo desde 11 meses de safra até rendimentos excepcionais. Para os agricultores, as abelhas se traduzem em aumento na produtividade sem custos adicionais.

Ganhar cinco ou seis sacas a mais de graça faz uma grande diferença na conta”, observa Arnaut, ressaltando o impacto econômico dessa prática.

Em 2024/2025, os Jung colheram 6,5 toneladas de soja por hectare — 1,7 vez a mais que a média estadual — e 16,7 toneladas de milho, superando em 2,5 vezes a média local. A produção de mel atingiu 1,2 mil quilos, um aumento significativo de 26,3% em relação à safra anterior, resultando em faturamento total de R$ 2,9 milhões.

O Caminho da Convivência

A experiência do Sítio Roda d’Água comprova que a harmonia é possível com diálogo, técnicas adequadas e respeito mútuo. Desde 2022, a propriedade participa do programa “Boas Práticas Apícolas e Agrícolas para a Coexistência Harmônica”, desenvolvido entre a Embrapa e a BASF. Essa iniciativa se expandiu além do Paraná, alcançando agricultores do Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul.

O envolvimento da família na produção de uma cartilha de boas práticas evidencia que soluções viáveis podem e devem ser aplicadas. Lígia sintetiza esse aprendizado com uma frase que ecoa verdade: “A abelha só pede: me deixa viva. Cuida direitinho que eu te devolvo em safra.”

Projetos Futuros

Recentemente, a BASF lançou um novo projeto voltado para a convivência entre a agricultura e a apicultura no Rio Grande do Sul. Com o foco no incentivo à produção sustentável, o projeto incluirá o plantio de árvores nativas, beneficiando tanto a produção de mel quanto a biodiversidade local.

“Esta iniciativa mostra, na prática, como integrar produtividade agrícola e conservação ambiental é possível,” afirma Maurício do Carmo Fernandes, gerente de Stewardship e Sustentabilidade da BASF.

O programa oferecerá treinamentos e suporte técnico para os apicultores e agricultores, demonstrando que ações coletivas podem gerar um impacto positivo na sustentabilidade da região.

Um Futuro Brilhante

Em resumo, a trajetória do Sítio Roda d’Água é uma lição valiosa sobre como práticas sustentáveis tornam-se um caminho para um futuro mais promissor. A sinergia entre agricultura e apicultura revela que é possível transcender as adversidades e colher frutos — não apenas da terra, mas também da convivência harmônica com a natureza. Que o exemplo da família Jung inspire uma nova realidade no agronegócio brasileiro, onde o respeito pelo meio ambiente e a produtividade andem lado a lado, certamente resultando numa riqueza compartilhada.

Convidamos você a refletir sobre a importância da convivência equilibrada entre humanos e natureza. Como você enxerga essa relação no contexto atual? Compartilhe suas opiniões e vamos juntos construir um futuro mais sustentável!

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