Recado duro do mercado pode acelerar ajuste fiscal de Lula, diz Leto Capital


Alexandre Muller, diretor de investimentos da Leto Capital, avalia que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma forte reprecificação dos ativos e reduziu a confiança inicial do mercado no governo. Em entrevista concedida na terça-feira (27), após um dia de perdas na Bolsa, no câmbio e nos juros, ele afirmou que a pressão dos preços pode acelerar o ajuste fiscal, mas alertou para um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) próximo de zero em 2027 e para o risco de recessão se a confiança não for recuperada.

Segundo Muller, o ajuste das contas públicas já era esperado para 2027, independentemente do resultado eleitoral. A diferença, afirmou, é que o governo terá de enfrentar esse desafio em um cenário de preços menos favorável e com cobrança maior por medidas concretas. Até o fim do ano, dois sinais podem ajudar a reduzir a incerteza: a definição do futuro ministro da Fazenda e o envio de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) de transição que inclua medidas fiscais.

Ajuste fiscal e confiança no mercado

O gestor disse que a PEC poderia ser aprovada pelo Congresso atual, cuja composição, na avaliação dele, seria menos complicada para o governo do que a do próximo. Enquanto não houver definições sobre a equipe econômica e o plano fiscal, os ativos devem continuar incorporando um prêmio de risco elevado — retorno adicional exigido pelos investidores para compensar a incerteza.

Esse ambiente já afeta as decisões das empresas. Muller afirmou que conselhos e equipes de gestão estão revendo os investimentos previstos para o ano seguinte, porque o custo do capital aumentou com a alta dos juros futuros. Ele não identificou desistências de ofertas de debêntures — títulos de dívida emitidos por empresas —, mas disse que companhias podem reduzir projetos discricionários e a procura por novos empréstimos.

Para o diretor da Leto, o PIB deve ficar muito baixo ou perto de zero em 2027. A possibilidade de recessão dependerá da velocidade com que o governo consiga restaurar a confiança e apresentar decisões de curto prazo. Uma agenda econômica sem coordenação e sem sinalização clara, afirmou, pode levar empresas e consumidores a rever planos de investimento e consumo por mais tempo.

O crédito privado teve reação mais moderada do que outros mercados. Na segunda-feira (26), o spread médio das debêntures subiu 0,24 ponto percentual em relação aos títulos públicos. Muller atribuiu a oscilação contida, em parte, ao fato de a maioria desses papéis ser pós-fixada, característica que reduz a exposição a variações de preço.

Juros altos favorecem renda fixa

Na carta mensal de outubro, a Leto projeta uma taxa Selic média de dois dígitos ao longo dos quatro anos do novo governo. A Selic é a taxa básica de juros da economia, que influencia o custo dos empréstimos e o retorno de aplicações financeiras. Para Muller, esse cenário deve manter a renda fixa como classe predominante nas carteiras.

O gestor espera diferenças maiores entre empresas de acordo com a qualidade de crédito. Em sua avaliação, investidores podem aceitar prêmios menores para companhias consideradas mais seguras e exigir retornos maiores de emissores com risco mediano ou elevado. Esse afastamento entre as taxas é conhecido no mercado como “boca de jacaré”: os prêmios caem para empresas de melhor qualidade e sobem para as demais.

Empresas líderes de mercado, exportadoras, com capacidade de repassar custos, e companhias de infraestrutura tendem a ser vistas como opções mais seguras, segundo Muller. Já pequenas e médias empresas e pessoas físicas podem sentir mais o peso dos juros e da inadimplência. O gestor também espera resultados mais fracos em setores cíclicos, como varejo e aviação, e em empresas muito endividadas.

Possível tributação de títulos isentos

Muller considera provável que o governo volte a discutir a tributação de investimentos hoje isentos, como parte do ajuste fiscal. Ele citou estimativas da Leto segundo as quais o país tem mais de R$ 2,3 trilhões em títulos incentivados e renuncia a mais de R$ 50 bilhões por ano em receitas tributárias. Desse estoque, 53% corresponde a letras bancárias, incluindo Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA).

O executivo defende que o programa seja revisto e direcionado com mais clareza a quem deve receber o benefício. Uma eventual cobrança apenas sobre novas emissões, preservando os títulos já emitidos, poderia aumentar a procura no curto prazo pelos papéis existentes, mas elevar o custo para novos emissores.

Entre os instrumentos que podem ganhar espaço estão os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), que aplicam em operações privadas de crédito. Muller afirmou que esses fundos combinam retornos elevados e baixa volatilidade aparente, mas fez um alerta: suas cotas não passam pela mesma marcação a mercado das debêntures e podem não refletir rapidamente uma deterioração das operações.

Nas debêntures, a rentabilidade nominal pode continuar atrativa sobretudo por causa da Selic elevada, não necessariamente por um aumento dos spreads. A Leto espera maior concentração em emissores de alta qualidade, o que pode limitar a expansão do mercado. Para Muller, a redução do prêmio de risco dependerá de sinais concretos do governo e da recuperação da confiança dos agentes privados.

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