O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), responsável por definir os juros dos Estados Unidos, deve manter a taxa básica entre 3,75% e 4% na reunião desta quarta-feira (28). A pausa, esperada pela maioria do mercado, daria tempo ao Federal Reserve (Fed), o banco central americano, para avaliar os efeitos das altas anteriores diante de uma inflação persistente e de sinais de desaceleração no emprego.
A decisão também pode influenciar os mercados emergentes, incluindo o Brasil. Juros americanos elevados por mais tempo tendem a reduzir a atratividade de ativos brasileiros, pressionar o câmbio e limitar o espaço para novos cortes da Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom).
Expectativa é de pausa, não de fim do ciclo
Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, 90,6% do mercado financeiro apostam na manutenção dos juros, após a alta de 0,25 ponto percentual em setembro. A pausa não significa, necessariamente, o encerramento do ciclo de aperto monetário — estratégia de elevar ou manter juros altos para conter a inflação.
Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital em Nova York, avalia que a interrupção é estratégica. A proximidade das eleições de meio de mandato, previstas para a próxima terça-feira, desestimularia decisões mais agressivas, segundo ele.
A economista-chefe do PicPay, Ariane Benedito, afirma que a economia americana continua resiliente, mas uma nova alta poderia aumentar o risco de um aperto excessivo. Parte da pressão sobre os preços, explica, vem de choques de oferta, que não respondem da mesma forma à política de juros.
O Goldman Sachs aponta que manifestações recentes de integrantes do Fomc indicam a possibilidade de aumentos a cada duas reuniões. Nesse cenário, o comitê deixaria os juros inalterados em outubro e poderia elevá-los novamente em dezembro.
Inflação resistente e emprego perde força
Os indicadores econômicos apresentam sinais mistos. O GDPNow, ferramenta usada pelo Fed para estimar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), aponta expansão de 3,6% no terceiro trimestre, segundo Flores. Ao mesmo tempo, a inflação permanece acima do desejado pelo banco central.
O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos (CPI, na sigla em inglês) avançou para 3,7% em setembro, impulsionado principalmente pela gasolina. O núcleo do índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE), que exclui os itens mais voláteis, subiu 0,2% em agosto e acumulou alta de 3% em 12 meses. O PCE é o indicador de inflação preferido do Fed.
O mercado de trabalho, por sua vez, mostra sinais de enfraquecimento. O relatório de emprego de setembro, conhecido como payroll, registrou criação líquida de 29 mil vagas, abaixo das 90 mil esperadas. Também houve revisões para baixo nos meses anteriores, enquanto a taxa de desemprego permaneceu em 4,2%.
Gabriel Magno, sócio da AW Capital e responsável pela área de alocação de investimentos, diz que a alta dos preços já se espalhou para além da energia, alcançando aluguéis, bens e serviços. Gargalos na expansão da inteligência artificial e efeitos remanescentes de tarifas de importação também mantêm custos sob pressão.
Petróleo é fonte de risco para os juros
O mercado de energia é um dos principais riscos para a inflação. Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, afirma que o petróleo Brent chegou a US$ 116,6 na semana passada, maior nível desde maio. Ele atribui a escalada aos ataques dos Houthis à Arábia Saudita, ao risco de retomada de operações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e às dúvidas sobre o Estreito de Ormuz.
O Goldman Sachs alerta que a continuidade do choque do petróleo, em caso de novos conflitos envolvendo o Irã, poderia prolongar as altas de juros até março de 2027. Para Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, a energia deixou de ser uma pressão passageira. O petróleo pode afetar transporte, manufatura e seguros e, de forma indireta, as expectativas de inflação e os salários.
Simioni também considera que aumentos intercalados podem reduzir a eficácia da política monetária para controlar a inflação no horizonte de 18 meses. Na avaliação dele, a pressão persistente dos preços pode levar a até cinco altas de juros no primeiro semestre de 2027.
Decisão americana afeta o espaço do Copom
Sem novas projeções econômicas — o chamado dot plot —, a reunião de outubro deve concentrar a atenção dos investidores no comunicado do Fed. O Goldman Sachs não espera grandes surpresas na entrevista coletiva e prevê possíveis mudanças sutis na linguagem. O banco espera que o comitê indique que ajustes futuros dependerão dos dados, das perspectivas econômicas e do balanço de riscos.
Gustavo Rostelato, economista da Armor Capital, prevê uma comunicação cautelosa, mas com viés de juros mais altos, sem indicação explícita sobre o momento ou o tamanho de eventuais ajustes. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, afirma que a expectativa de manutenção foi reforçada pela comunicação recente do Fed.
No Brasil, a Selic está em 13,5%, ante cerca de 4% nos Estados Unidos, uma diferença próxima de 10 pontos percentuais, segundo Magno. Essa vantagem vem diminuindo à medida que o Fed eleva os juros e o Copom corta a taxa brasileira. A redução do diferencial pode desestimular investimentos em reais e pressionar o dólar, que tem permanecido acima de R$ 5.
Juros americanos elevados também sustentam os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, referência para investimentos globais. Se o dólar se fortalecer, importados e combustíveis ficam mais caros, com potencial de pressionar as projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
André Matos, CEO da MA7 Capital, afirma que o contexto chega em um momento desfavorável para o Brasil. Segundo ele, o dólar subiu mais de 8% em um único dia após a eleição, e a incerteza fiscal reduziu a capacidade do diferencial de juros de sustentar o real. Matos avalia que a combinação de câmbio pressionado, inflação acima do teto da meta e risco fiscal pode levar o Copom a interromper os cortes na reunião da próxima semana. Um tom mais duro do Fed, diz, reforçaria essa possibilidade.

