As celebrações de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos mobilizam agricultores, padarias, feiras e floriculturas em diferentes países da América Latina entre 1º e 2 de novembro. Em 2026, as tradições associadas à data incluem desde a colheita do milho e a preparação de pratos típicos até a venda de flores, conectando homenagens aos mortos à produção e ao comércio de alimentos.
As práticas combinam costumes indígenas com o calendário católico: Todos os Santos é celebrado em 1º de novembro, e o Dia dos Fiéis Defuntos, no dia seguinte. As receitas, oferendas e produtos variam entre países e comunidades, mas mantêm vínculos com a agricultura e a memória familiar. Em alguns lugares, a data também representa uma oportunidade de renda para pequenos negócios e produtores.
México e Guatemala: milho, flores e pratos tradicionais
No México, a festa indígena dos mortos coincide com o encerramento do ciclo anual do milho, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A tradição reúne práticas pré-hispânicas e católicas e foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2008, após ser proclamada em 2003.
Famílias montam altares com tortillas, tamales, atole, frutas, chocolate e pan de muerto. Em algumas comunidades, acredita-se que os antepassados possam favorecer as colheitas. O cempasúchil, uma espécie de tagetes, é usado em túmulos e altares para indicar simbolicamente o caminho das almas.
A Confederação de Câmaras Nacionais de Comércio, Serviços e Turismo do México (Concanaco-Servytur) estima que as comemorações movimentem 53 bilhões de pesos mexicanos, cerca de US$ 2,94 bilhões, em 2026. O valor representa alta de 7% em relação a 2025 e considera o período de 25 de outubro a 2 de novembro. A estimativa inclui alimentos, flores, comércio, hospedagem e transporte.
“Por trás de cada oferenda há uma história familiar, mas também está o trabalho de quem cultiva as flores, prepara o pão e vende nos mercados”, afirmou Octavio de la Torre de Stéffano, presidente da entidade. Em outubro, o governo da Cidade do México anunciou a produção de 10 milhões de plantas de cempasúchil para 2 de novembro, 53,8% acima de 2025. O cultivo envolve 597 produtores de Xochimilco, região conhecida pelas chinampas, áreas agrícolas construídas em ambientes lacustres.
Na Guatemala, o Dia de Todos os Santos é marcado pelo fiambre, prato frio que pode reunir mais de 40 ingredientes. As receitas variam entre regiões e famílias e incluem hortaliças, conservas, embutidos, carnes e queijos. Beterraba, repolho, cenoura, vagem, palmito e pacaya, uma flor comestível, estão entre os produtos usados.
O preparo começa dias antes da celebração. Em 2019, o Ministério da Cultura e dos Esportes declarou os conhecimentos e processos tradicionais de preparo do fiambre Patrimônio Cultural Intangível da Nação. Segundo a pasta, a produção também gera renda para famílias e pequenos negócios. O prato é consumido em casa ou em encontros nos cemitérios.
Andes: pães para homenagear os antepassados
No Peru, as t’anta wawas são pães moldados como bebês, animais e outras figuras. A tradição é especialmente presente nas regiões andinas, e as receitas podem ser doces ou salgadas. Milho, carnes e preparações regionais também aparecem nas refeições e oferendas. O Ministério da Cultura peruano associa esses pães à memória e à continuidade das famílias.
Em novembro de 2025, o Museu Nacional da Cultura Peruana reuniu padeiros e artesãos de Huancavelica, Apurímac, Junín, Ayacucho, Puno e Lima para demonstrações, degustações e vendas. A atividade mostra como as homenagens também movimentam a panificação artesanal.
Na Bolívia, as celebrações de Todos Santos começam ao meio-dia de 1º de novembro, quando, segundo a tradição, as almas visitam as famílias. Altares recebem pratos preferidos dos falecidos, frutas, doces, flores e bebidas. No dia seguinte, as famílias se despedem dos mortos nos cemitérios.
As t’antawawas são pães em forma humana. Outras massas representam escadas e animais: as escadas simbolizam o caminho das almas, enquanto a cana-de-açúcar serve de apoio na viagem, conforme explicações tradicionais registradas pela imprensa boliviana. Folhas de coca e milho também podem fazer parte das oferendas. A produção mobiliza panificadores e vendedores, mas depende dos preços da farinha, do açúcar e das gorduras. Em 2025, comerciantes relataram aumento desses custos durante a preparação da festa.
Equador: bebida de milho e frutas
No Equador, famílias levam comida aos cemitérios em 2 de novembro. Em comunidades andinas, as refeições incluem grãos, batatas e outros produtos locais. A colada morada, bebida espessa preparada com farinha de milho escuro, frutas e especiarias, é uma das receitas mais conhecidas. Pode levar mortiño, amora, abacaxi, naranjilla, canela e cravo; algumas versões têm mais de 20 ingredientes, segundo o Ministério do Turismo.
“Somos pessoas que recordam aromas e sabores da família, especialmente aqueles preparados pelas mães e avós”, afirmou o chef equatoriano Carlos Gallardo.
A bebida acompanha as guaguas de pan, pães em formato de crianças feitos principalmente com farinha de trigo e, em algumas regiões, também com milho. Goiaba, figo e chocolate estão entre os recheios. A tradição estimula a produção das padarias e o comércio de ingredientes. O calendário agrícola também influencia a receita: o mortiño, fruto de regiões altas dos Andes, costuma ser colhido em setembro e outubro.
Brasil: Finados impulsiona venda de flores
No Brasil, visitas a cemitérios e missas são práticas comuns no Dia de Finados. A principal ligação da data com a agricultura está na venda de flores e plantas ornamentais. O Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor) projeta crescimento de 5,2% nas vendas relacionadas ao feriado em 2026, na comparação com 2025. Segundo o diretor Renato Opitz, Finados responde por cerca de 8% das vendas anuais do setor. Crisântemos, kalanchoes, antúrios, violetas e orquídeas estão entre as plantas procuradas.
Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), a previsão para as três feiras de flores realizadas de 22 a 30 de outubro é vender 465.774 unidades, com receita de R$ 8,96 milhões. No período equivalente de 2025, foram comercializadas 382.231 unidades, que geraram R$ 7,43 milhões. Naquele ano, as orquídeas lideraram em valor, com R$ 1,1 milhão, seguidas pelos crisântemos, com cerca de R$ 500 mil.
“É um dos momentos de maior dinamismo e relevância econômica para o setor”, afirmou João Gabriel Alves da Costa, analista de economia da Ceagesp. Atacadistas antecipam os pedidos, enquanto consumidores costumam comprar perto do feriado. Em Ribeirão Preto, no interior paulista, a previsão da Ceagesp é de alta de 10% a 15% nas vendas de outubro, com cerca de 10 toneladas de flores.

