A dependência chinesa de soja importada pode se tornar uma vulnerabilidade estratégica em um conflito no Estreito de Taiwan, segundo a análise apresentada no texto de origem. Em uma guerra no Pacífico, riscos ao transporte marítimo poderiam reduzir o abastecimento e provocar escassez e alta de preços em poucos meses, pressionando o governo de Pequim a conter a crise interna.
Uma dependência difícil de substituir
Analistas costumam considerar os riscos militares, econômicos e de acesso a petróleo e tecnologia para a China em caso de conflito. A segurança alimentar também preocupa Pequim. No 20º Congresso do Partido Comunista, em 2022, o líder chinês Xi Jinping incluiu entre as prioridades nacionais “garantir a segurança dos alimentos, dos recursos energéticos e das cadeias de abastecimento industriais críticas”.
A questão tem peso em um país com 1,4 bilhão de habitantes. Cerca de 15% da população chinesa estava viva durante a fome de 1959 a 1961, que deixou aproximadamente 30 milhões de mortos, segundo o texto. Embora a China produza mais de 90% do trigo, arroz e milho que consome, continua dependendo de outros países para alimentos como soja, carne bovina e cevada.
A parcela do abastecimento alimentar chinês fornecida por importações passou de 6% em 2000 para 34% em 2020. Analistas preveem que chegue a 41% em 2030. O crescimento econômico ampliou a variedade da dieta: entre 1962 e 2024, a proporção de carne na alimentação típica do país aumentou 18 vezes.
A soja é central para essa cadeia porque fornece proteínas usadas na alimentação animal que, de acordo com a análise, não podem ser reproduzidas por outras fontes alimentares ou aminoácidos sintéticos. Uma queda no fornecimento poderia reduzir os rebanhos e ameaçar a produção interna de carne e laticínios. O óleo de soja também representa quase metade do mercado chinês de óleo de cozinha. Alternativas como óleo de palma e de colza são, em sua maioria, importadas e enfrentam riscos semelhantes no transporte marítimo.
Reservas e alternativas têm limites
Pequim buscou diversificar as fontes e ampliar o controle sobre o abastecimento. Em 2013, uma empresa chinesa comprou a Smithfield Foods, maior produtora de carne suína dos Estados Unidos. A estatal COFCO International também investiu em propriedades rurais e infraestrutura logística em países produtores, entre eles Argentina e Brasil. Esses investimentos permitem comprar diretamente dos agricultores e dão à China mais controle sobre o volume e o custo dos produtos na origem.
A produção chinesa de carne já atende a mais de 90% da demanda do país. Ainda assim, esses esforços não eliminam o risco de interrupções no transporte de soja. A China não dispõe de terras aráveis suficientes para ampliar o cultivo sem comprometer a produção de cereais básicos. Além disso, a soja é menos eficiente do que milho e trigo no árido norte do país.
Em 2018, durante a guerra comercial entre China e Estados Unidos, Pequim reduziu de 40% para cerca de 20% a participação americana em suas importações de soja e compensou a diferença com compras do Brasil. Mas a infraestrutura brasileira é fraca e a produção está sujeita a desastres naturais. Em 2024, um estado brasileiro perdeu entre um quarto e um terço da colheita por causa de enchentes.
O transporte também impõe dificuldades. O porto de Santos fica a mais de 16 mil quilômetros de Guangzhou, uma viagem de cerca de 45 dias. Como a soja é sensível à umidade, cargas podem chegar deterioradas. O armazenamento é igualmente limitado: diferentemente das reservas de arroz e trigo, que Pequim afirma poderem durar anos, os estoques de soja são menores e precisam ser renovados com mais frequência. Segundo o texto, poderiam durar apenas alguns meses se as importações fossem interrompidas.
Risco de crise em um conflito
Uma guerra entre China e Estados Unidos poderia ameaçar diretamente as rotas de abastecimento. No cenário mais extremo descrito, forças americanas bloqueariam embarques do Hemisfério Ocidental, de onde vem a maior parte da soja importada pela China. Mesmo sem bloqueio ou embargo, os custos de seguro marítimo poderiam disparar e levar empresas a evitar uma zona de guerra. Armadores também poderiam recusar viagens por risco à tripulação ou por receio de futuras sanções.
A China poderia recorrer à própria frota comercial, mas ela também teria de transportar materiais industriais, alimentos e suprimentos para o Exército de Libertação Popular. A COSCO, gigante chinesa do setor de navegação, possui 468 navios graneleiros. Ainda assim, a análise aponta que a frota poderia ficar sobrecarregada e que viagens mais longas talvez ultrapassassem os 40 dias durante os quais a soja pode ser armazenada com segurança.
Uma interrupção não provocaria necessariamente uma crise alimentar imediata. O governo poderia liberar soja, carne suína congelada e outros produtos das reservas estatais, além de reduzir a quantidade mínima de soja na ração animal. Essa medida, porém, desaceleraria o crescimento do gado e reduziria a produção de carne. Compras motivadas por pânico poderiam esgotar os estoques mais rapidamente, levando a aumentos de preços e escassez em poucos meses.
Pressão sobre Pequim
O texto também aponta dúvidas sobre a condição real dos estoques. Na última década, armazéns locais destinados a emergências foram encontrados vazios ou com produtos estragados, em grande parte por causa da corrupção. Uma guerra prolongada poderia levar produtores, sobretudo pequenas propriedades, a abater animais. Aves, que dependem de rações com mais soja, seriam afetadas primeiro, com possíveis consequências para o fornecimento de ovos; a carne suína viria depois.
Com menos alimentos e óleos de cozinha disponíveis e preços mais altos, famílias e restaurantes enfrentariam dificuldades. A análise avalia que compras por pânico, protestos contra preços e escassez e desvios de suprimentos por autoridades locais poderiam aumentar a pressão sobre Pequim para encerrar o conflito.
Para reduzir o risco de guerra, o texto defende que Estados Unidos, Taiwan e outros governos invistam em drones, reconstruam estoques de munições e transmitam à China a possibilidade de um conflito longo. A avaliação é que a perspectiva de uma crise interna poderia dissuadir Pequim, caso seus líderes considerem que uma guerra não teria resultado rápido e decisivo.

