A Renda das Famílias e o Mercado de Alimentos: Uma Análise da Realidade Brasileira em 2025
Nos últimos tempos, uma mudança significativa no comportamento do consumidor às vésperas de um aumento nos preços dos alimentos e do crescimento da renda formal tem levantado um questionamento crucial: para onde está indo o dinheiro das famílias de baixa renda? A diminuição dos preços da cesta básica em 2025 acompanhada de um recuo no consumo levou a Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (ABAAS) a investigar esse fenômeno. A resposta dessa investigação, apresentada diretamente ao vice-presidente Geraldo Alckmin, revela que, antes de qualquer compra de alimentos, muitos estão desviando sua renda para apostas online e acumulando dívidas.
A Contradição do Crescimento de Renda
Durante uma reunião na sede da Abiec, Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, apontou: “A renda aumentou, o salário aumentou, mas o que está acontecendo? Não está sobrando”. Essa afirmação reflete uma realidade inquietante. Embora o Brasil registre níveis de pleno emprego e crescimento na renda formal, muitas famílias não conseguem ver esse incremento refletido em suas contas.
Significado do Atacarejo
Apesar de ser um setor que movimentou R$ 369,5 bilhões em 2025, representando 52% do varejo alimentar moderno no Brasil, o atacarejo se revela como um termômetro da classe trabalhadora. Por exemplo, a rede Assaí, que tem 40 milhões de clientes mensais, percebeu uma grave situação: um em cada quatro funcionários tinha salário zerado em abril de 2026 devido a empréstimos consignados.
Dados Alarmantes sobre o Consumo
Os números do NielsenIQ Retail Index referentes ao último trimestre de 2025 mostram um abismo entre as classes sociais: enquanto o varejo de alta renda cresceu 4%, o varejo de baixa renda sofreu uma queda expressiva de 9,6%. A diferença entre esses segmentos, conhecida como “efeito K” pela ABAAS, ampliou-se para 13,6 pontos percentuais.
Por que essa discrepância?
“Os ricos estão comprando mais, enquanto os pobres estão comprando menos”, destaca Perosa. Esse quadro se agrava quando se considera a combinação de queda dos preços e diminuição do consumo. Em 2025, o preço do arroz caiu 37,1%, o leite 16,1%, o açúcar 11,1% e o feijão 10,2%. Esse fenômeno sugere que a renda das famílias está comprometida antes mesmo de chegar ao mercado.
A Aposta Rápida: O Caminho do Dinheiro
Uma das descobertas mais alarmantes do estudo da ABAAS foi o impacto das apostas online. As pesquisas mostraram que muitos consumidores, por vergonha, ocultam o fato de que estão investindo seu dinheiro em jogos de azar. O Brasil detém uma participação significativa no tráfego global de sites de apostas, com estimativas de faturamento que chegam a R$ 37 bilhões em 2025 apenas para o mercado regulado.
A Realidade das Apostas
- Aproximadamente 22% a 25% do tráfego mundial de sites de aposta está concentrado no Brasil.
- O mercado ilegal pode movimentar até R$ 78 bilhões por ano.
- Familiares beneficiários do Bolsa Família também estão se envolvendo, movimentando cerca de R$ 3 bilhões em apostas em um único mês.
Perosa sintetiza essa realidade ao afirmar que muitos apostadores veem as apostas como uma “fonte de renda extra”, o que explica a falta de percepção sobre a redução no consumo de alimentos.
O que está impulsionando essa mudança?
Contrariando a ideia de que as apostas são principalmente esportivas, dados mostram que 80% da receita das plataformas provém de cassinos online, revelando um apelo que vai muito além das partidas. O que começa como uma promessa de ganhos rápidos transforma-se em uma armadilha constante para muitos.
O Impacto do Endividamento
Em fevereiro de 2025, 49,9% das famílias brasileiras estavam endividadas, um recorde desde que o Banco Central começou a monitorar essa estatística. Para agravar a situação, o Serasa reportava 81,3 milhões de adultos negativados, na equivalência a 50% da população adulta do Brasil.
Propostas para Mitigar o Problema
Durante a reunião com Alckmin, propostas concretas foram apresentadas. As quatro principais medidas destacadas incluem:
- Aceleração do bloqueio de URLs de sites ilegais pela Anatel.
- Bloqueio de chaves Pix vinculadas a plataformas de apostas ilegais.
- Responsabilização solidária de grandes plataformas por anúncios de apostas irregulares.
- Separação entre apostas esportivas e cassinos online nas plataformas legais.
Essas propostas visam criar uma estrutura mais regulada e segura, reforçando a proteção das famílias e especialmente dos jovens.
Uma Luz no Fim do Túnel
Uma possível solução pode vir do programa Desenrola 2.0, que prevê descontos significativos em dívidas e bloqueio de acesso a plataformas de apostas para quem adere ao programa. Embora o avanço seja reconhecido, os responsáveis pela ABAAS enfatizam que o problema é mais vasto e que muitos brasileiros continuam sem respaldo.
Um Exemplo de Longevidade na Mudança
A ABAAS sugere um modelo semelhante ao da política antitabaco adotada em 1989, que reduziu o número de fumantes de 34,8% para 9,1% em 2023, através de campanhas de conscientização e restrições. Esse exemplo demonstra que mudanças estruturais e uma abordagem a longo prazo podem ser eficazes.
Um Equilíbrio Difícil de Alcançar
Apesar de uma recepção positiva do governo, Perosa destacou a necessidade de equilibrarem arrecadação e regulação. O setor de apostas gerou bilhões em receitas tributárias, e essa tensão entre arrecadação e bem-estar social deve ser cuidadosamente considerada.
A realidade do consumo das famílias brasileiras é complexa e multifacetada, revelando uma luta diária entre despesas e receitas que precisa ser abordada. Redefinir prioridades, conscientizar sobre os riscos das apostas e implementar políticas públicas que coíbam a exploração são passos cruciais nessa jornada. Que possamos continuar este debate e buscar soluções que realmente ajudem as famílias a prosperar, garantindo que o dinheiro que tanto suor custa não seja desperdiçado.


