A Transformação da Liderança Feminina no Agronegócio
Uma Nova Era nas Fazendas
Faz 24 anos que iniciei minha jornada à frente da gestão de fazendas. Naquela época, o terreno era repleto de desafios e por vezes hostil, especialmente para a figura feminina. Eu era considerada o “elemento novo”, uma presença incomum em um ambiente que funcionava há décadas sob a liderança masculina. Para muitas de nós, mulheres que crescemos nesse contexto rural, éramos parte da “família do campo”, mas raramente participávamos dos “negócios do campo”.
As interações com o mercado e os processos de gestão eram, em sua maioria, territórios inexplorados para nós. Era comum que habilidades essenciais, como negociações e tomada de decisões, fossem vistas como propriedade masculina, deixando-nos de fora de discussões cruciais sobre o agronegócio.
O Fantasma do Preconceito Estrutural
Esse afastamento não é uma coincidência, mas sim o resultado de um longo histórico de preconceito estrutural. Um “dragão” que nos dizia — e nós internalizávamos — que nossas características eram inadequadas para o rígido mundo dos negócios rurais. Apesar de esse dragão ter perdido força ao longo dos anos, ele ainda gera ruídos e exige de nós um olhar consciente e crítico.
Esse preconceito se manifesta de várias formas, como:
- Desigualdade Salarial: As mulheres ainda ganham menos do que os homens em funções iguais.
- Dificuldade em Ascender: A promoção a cargos de liderança é uma realidade desafiadora.
- Necessidade de Validação: Em ambientes profissionais, frequentemente precisamos provar nossa competência em dobro.
Ainda nos deparamos com estigmas, como sermos rotuladas de “emocionais demais” ou julgadas por nossas escolhas pessoais, como a maternidade.
Um Novo Amanhã: Hora de Dominar Nossos Dragões
Entretanto, ouso afirmar que nunca houve um momento tão promissor para nós, mulheres. Chegou a hora de dominar nossos dragões. Embora eles não desapareçam, podemos controlá-los. Hoje mais do que nunca, existe um espaço para a liderança feminina no agronegócio, reconhecida como parte essencial do setor.
Os números falam por si só:
- 38% da população do agronegócio é composta por mulheres.
- 37% dos clientes do setor são mulheres.
- 34% dos cargos gerenciais são ocupados por elas.
- Atualmente, um milhão de mulheres dirigem propriedades rurais no Brasil, abrangendo uma área de cerca de 30 milhões de hectares.
Uma Nova Mentalidade: Sustentabilidade e Inovação
Historicamente, sempre conseguimos equilibrar responsabilidade, velocidade, resiliência e empreendedorismo, unindo essas qualidades à empatia e afetividade. Hoje, no entanto, essa mentalidade evoluiu para atender às exigências do mercado moderno. Mulheres líderes estão mais preparadas para se destacar em ambientes predominantemente masculinos, mostrando abertura à inovação e uma visão sistêmica.
Além de gerenciar processos, as líderes femininas também focam em maximizar a sustentabilidade e o planejamento a longo prazo. Essa autonomia é fundamental para enfrentarmos os desafios que ainda temos pela frente.
O Desafio de 2026: Colaboração e Firmeza
O ano de 2026 promete ser um teste decisivo para o agronegócio brasileiro. Estamos em um momento crítico, onde será necessário ajustar margens e promover um esforço coletivo de sustentabilidade econômica. Isso exigirá a colaboração de todos os envolvidos: políticos, sociedade civil, fornecedores, distribuidores e produtores.
As cooperativas e associações de classe desempenharão um papel vital na reestruturação desse cenário. Para navegar por essas águas turvas, precisamos fortalecer nossas capacidades como grupo e como cadeia produtiva, construindo relações sólidas e construtivas.
Abordagem e Habilidades
Precisaremos de habilidades essenciais, como:
- Construção de Relações: Estabelecer conexões verdadeiras e duradouras.
- Sensibilidade: Flexibilidade para lidar com conflitos e propor soluções criativas.
- Firmeza: Um olhar atento e detalhista que é característico das gestões femininas.
Ao enfrentarmos nossos medos e preconceitos, estaremos preparadas para assumir um papel de liderança ainda mais forte, guiando o agronegócio brasileiro em direção a um futuro mais próspero.
Um Olhar para o Futuro
Este é um convite para cada uma de nós. A travessia por essa crise não será fácil, mas ao unirmos forças, podemos construir um novo ciclo de prosperidade e união no agronegócio. A liderança feminina é essencial para transformar desafios em oportunidades.
Como você pode contribuir para essa mudança? Quais passos pode dar em sua própria vida para apoiar a evolução do papel feminino no setor rural? É hora de refletir e agir! Vamos juntas transformar esse cenário e dominar nossos dragões.
Maria Antonieta Guazzelli é produtora rural e gestora de fazendas de leite, café, cereais e florestas. Preside o Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA) e é conselheira da Fiesp, no Conselho Superior Feminino e no Conselho Superior do Agronegócio. Após 30 anos no setor financeiro, atua com paixão no agro, combinando experiência e inovação.
Os artigos assinados refletem pontos de vista pessoais e não necessariamente as opiniões da Forbes Brasil e de seus editores. Siga-nos para mais insights sobre empreendedorismo, carreira e agronegócio!


