Por que a China Está Perdendo uma Oportunidade Dourada? A Análise de David Shambaugh


A Nova Era do Poder Global: Desafios e Oportunidades

Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025, a dinâmica global tem se modificado drasticamente. O presidente dos EUA tem adotado uma postura que pode ser descrita como intimidatória, afetando relações com países de todos os cantos do mundo. O resultado? Os Estados Unidos são vistos como uma “hegemonia predatória”, como observa o acadêmico Stephen Walt. Com isso, o cenário geoestratégico global tornou-se um terreno fértil para a China, que busca expandir sua influência.

Desafios da China na Arena Global

Por mais que a China tenha tentado aproveitar os erros cometidos pelos Estados Unidos, a tarefa não tem sido fácil. A capacidade de Beijing em ampliar sua presença internacional e promover seus interesses varia significativamente entre diferentes regiões e contextos. Até o momento, os resultados têm sido um misto de avanços, estagnações e retrocessos.

O Olhar Focado em Trump e Xi

Atualmente, todos os olhos se voltam para a aguardada cúpula entre Trump e o líder chinês Xi Jinping, marcada para acontecer em meio ao tumulto da guerra no Irã. Entretanto, um único encontro não determinará o futuro da competição entre as duas potências. O que realmente importa é que, nos últimos tempos, as decisões de Trump proporcionaram à China uma oportunidade de não apenas consolidar seus interesses, mas também de desequilibrar a balança de poder global.

No entanto, ao invés de um grande triunfo para Pequim, observamos um fenômeno mais sutil: países ao redor do mundo estão adotando uma postura de cautela, buscando reduzir sua vulnerabilidade tanto em relação à China quanto aos EUA. Isso serve como um lembrete de que a competição entre EUA e China não é um jogo de soma zero – a perda de uma nação não é necessariamente um ganho para a outra.

Ferramentas Limitadas da China

A China possui um arsenal variado de ferramentas que utiliza na concorrência geoestratégica com os Estados Unidos:

  • Diplomacia: Com embaixadas e consulados em 182 países, a presença diplomática da China é robusta. Seus diplomatas são geralmente bem treinados e fluentes nos idiomas locais, o que contrasta com a abordagem norte-americana. Embora esses intercâmbios sejam numerosos, a verdade é que a China não se coloca como líder na agenda diplomática internacional, evitando o envolvimento em conflitos críticos.

  • Poder Militar: Apesar de uma marinha impressionante e um arsenal nuclear, a China enfrenta limitações significativas em sua capacidade de projetar poder militar convencional fora de suas fronteiras.

  • Economia: A China possui um imenso poder econômico, sendo a segunda maior economia do mundo em 2025 e o principal parceiro comercial de mais de 120 países. No entanto, essa força econômica não traduz necessariamente em influência política global.

Diplomacia e Poder China

Por mais que a diplomacia chinesa seja ativa, ela não consegue ditar a pauta internacional e frequentemente se vê excluída das questões mais inquietantes. Esse déficit é um reflexo da percepção exagerada que Pequim tem de sua própria influência global.

A imagem da China no exterior também é complexa e, mesmo com investimentos substanciais em recursos de diplomacia pública, a resposta tem sido frequentemente negativa. Por exemplo, segundo pesquisas, 54% da opinião pública em 24 países vista a China de maneira desfavorável.

A Europa entre Gigantes

Na Europa, a situação é particularmente desafiadora. O continente se encontra na posição incomum de estar preso entre três poderes predatórios: Rússia, China e Estados Unidos. A guerra da Rússia na Ucrânia e a hostilidade do governo Trump aumentaram as tensões. Os líderes europeus têm visto a China como uma ameaça econômica e ideológica crescente.

O resultado é que, mesmo com a retórica de afastamento de Washington, as relações da China com os países europeus têm se deteriorado. Além disso, os produtos fabricados na China têm causado desconforto, já que muitos setores europeus sentem a pressão de um mercado inibido.

Investimentos na África e América Latina

Embora a China enfrente dificuldades na Europa, sua presença em países em desenvolvimento é notavelmente robusta, particularmente na América Latina e na África.

  1. América Latina: Com um comércio que alcançou US$ 236 bilhões em 2025, e investimentos significativos em recursos naturais, a China se estabeleceu como um jogador-chave na região.

  2. África: A narrativa positiva em relação aos investimentos chineses tem mudado. Embora tenham trazido crescimento, o influxo de trabalhadores chineses gerou ressentimentos e um discurso de colonialismo neocolonial.

Desafios no Oriente Médio

Historicamente, a China tem mantido relações limitadas no Oriente Médio, mas tem se esforçado para aprofundar esses laços. O recente restabelecimento de laços entre Irã e Arábia Saudita foi um sinal positivo. Contudo, a guerra no Irã desestabiliza essa dinâmica e pode prejudicar a influência da China na região.

A dependência do Irã em relação à assistência chinesa pode se tornar uma armadilha, especialmente se o regime de Teerã sofrer consequências adversas a longo prazo.

A Influência na Ásia-Pacífico

A região do Indo-Pacífico apresenta um terreno fértil para iniciativas chinesas, embora a desconfiança em relação a Pequim permaneça alta.

  • Índia: Apesar de conflitos comerciais, a desconfiança histórica impede que a China aproveite as fragilidades da relação Índia-EUA.

  • Sudeste Asiático: A região viu uma explosão nas relações comerciais, com a China emergindo como um parceiro vital. Contudo, a agressividade chinesa em disputas territoriais provoca tensão.

Os países dessa região não veem suas relações com os EUA e a China como um jogo de escolha. Na verdade, muitos optam por adotar uma abordagem de “diplomacia poligâmica”, buscando equilibrar suas interações com ambas as potências.

Considerações Finais

Se a cúpula entre Trump e Xi resultar em alguma estabilização na relação entre os dois países, muitos países podem respirar aliviados. No entanto, mesmo que o clima melhore, a desconfiança mútua irá persistir, e os países continuarão a adotar uma postura de precaução. A competição geoestratégica entre EUA e China está agora incorporada ao sistema global e, embora alguns acreditem que a ascensão da Ásia é inevitável, o poder global não se moverá em linha reta.

O que se desenha é um mundo onde tanto os Estados Unidos quanto a China buscarão influência, mas onde a capacidade de ambos de atrair aliados duradouros será testada a cada passo. Aqui, a verdadeira questão é: como os países encontrarão seu espaço em um cenário que está em constante mudança?

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