Investidores da Lindt buscam reformulação no conselho após demissão do CEO


Investidores influentes da Lindt & Sprüngli cobram mudanças no conselho e uma redução dos poderes do presidente Ernst Tanner, após erros na política de preços afetarem as vendas e derrubarem as ações da fabricante suíça de chocolates. A pressão aumentou depois que a empresa demitiu o presidente-executivo Adalbert Lechner no mês passado e começou a buscar um substituto. Os papéis acumulam queda de cerca de um quarto neste ano.

As críticas foram feitas por cinco investidores ouvidos, entre eles três dos 20 maiores acionistas da companhia. Seis outros grandes acionistas contatados se recusaram a comentar, e apenas um dos cinco entrevistados manifestou apoio ao conselho atual.

Pressão por mudanças na governança

Os acionistas defendem que a renovação não se restrinja à diretoria executiva. Ingo Speich, da Deka, investidora da Lindt, afirmou que as mudanças também devem alcançar o conselho. Segundo ele, a empresa enfrenta desafios estruturais que exigem “novas ideias”. Speich acrescentou que a concentração atual de poder deve ser abolida.

Tanner, de 80 anos, ocupa a presidência do conselho há 32 anos e também foi presidente-executivo a partir de 2016. Ele afirmou que não pretende deixar o cargo e que sua prioridade é recolocar a empresa nos trilhos. O executivo mantém influência como acionista: possui 2,3% das ações, enquanto dois fundos de pensão presididos por ele detêm mais de 15% dos direitos de voto.

A Lindt informou que o conselho já iniciou a busca por um novo presidente-executivo e espera nomear o sucessor no segundo trimestre de 2027. Um porta-voz disse que o conselho revisa regularmente sua composição e que o planejamento de sucessão faz parte de suas atribuições. Tanner se recusou a comentar as críticas. Lechner e Michal Spiller, diretor da empresa na Alemanha, não foram encontrados para comentar.

As manifestações são a primeira grande contestação pública ao conselho desde a saída de Lechner. Tanner já havia enfrentado oposição em assembleias anuais, quando alguns acionistas votaram contra sua reeleição.

Erros de preço e previsão menor

A Lindt elevou os preços em resposta à alta dos custos do cacau, mas os reajustes reduziram os volumes vendidos enquanto consumidores apertavam os gastos. No mês passado, Tanner reconheceu que a companhia calculou mal quanto os clientes estariam dispostos a pagar. Os preços subiram 19% em 2025 e mais 12% no primeiro semestre de 2026.

Após dois alertas sobre vendas neste ano, a empresa reduziu a previsão de crescimento orgânico — indicador que considera a expansão das vendas sem o efeito de aquisições e mudanças cambiais — para uma faixa de 0% a 2%. A projeção fica abaixo da média de 10,9% registrada nos últimos cinco anos.

Além da saída de Lechner, Spiller deixou a companhia. O ex-presidente-executivo Dieter Weisskopf voltou como presidente-executivo interino. A Lindt manteve, porém, a meta de médio e longo prazo de elevar as vendas entre 6% e 8% ao ano. Investidores ouvidos avaliam que alcançar esse ritmo pode ser difícil diante dos problemas de precificação e do desempenho fraco na Europa.

Questionamentos sobre o conselho

Vincent Kaufmann, presidente-executivo da Ethos, grupo suíço de consultoria para acionistas, afirmou que faltaram mecanismos adequados de controle e equilíbrio no conselho. Para ele, a escolha de um novo presidente-executivo é um primeiro passo, mas não resolve os problemas de governança relacionados à composição do próprio conselho.

Segundo os critérios da Ethos, apenas três dos oito integrantes do conselho eram independentes, enquanto os fundos de pensão da empresa tinham representação excessiva. Um dos 20 maiores acionistas, que falou sob condição de anonimato, também atribuiu ao conselho parte da responsabilidade pelos erros de preço. O investidor disse que seis dos oito membros têm pelo menos 70 anos e que Tanner preside o conselho desde 1994.

O acionista afirmou que a Lindt deve muito a Tanner, mas observou que “o mundo mudou muito nos últimos 30 anos”. Outro investidor entre os 20 maiores disse entender a permanência do presidente e defendeu os reajustes, que, segundo ele, foram importantes para proteger as margens da companhia, avaliada em US$ 24 bilhões.

Um terceiro grande acionista apontou ainda que medicamentos para perda de peso à base de GLP-1, sigla para um hormônio relacionado ao controle do apetite, podem reduzir o consumo de chocolate. Na avaliação do investidor, esse fator, somado às dificuldades com preços, pode impedir uma recuperação rápida das taxas de crescimento anteriores.

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