Por Que a Estratégia ‘China Primeiro’ Está Destinada ao Fracasso


O Futuro da Liderança Global: Um Mundo Sem um Capitão

Nos últimos 80 anos, os Estados Unidos se firmaram como os principais arquitetos e garantidores da ordem internacional. Contudo, sob a bandeira do “América em Primeiro Lugar”, Washington está abandonando essa responsabilidade. À medida que os EUA recuam de sua posição de liderança global e desafiando as normas que ajudaram a criar, o mundo se pergunta: será que a China assumirá esse papel?

Mudança de Perspectivas: Atração pela China

Nas nações que tradicionalmente foram aliadas dos EUA, a percepção em relação à China está se tornando mais favorável. Uma pesquisa realizada pelo Politico em fevereiro de 2026 revelou que pessoas em países como Canadá, França, Alemanha e Reino Unido demonstram apoio a um envolvimento mais profundo com a China, enquanto a confiança na liderança norte-americana começa a diminuir.

  • Promessas da China: O país se posiciona como defensor do multilaterismo, campeão do mundo em desenvolvimento e guardião de uma ordem internacional que promete ser “mais justa e equitativa”.
  • O Contraponto Americano: Com os EUA agindo de forma errática, a narrativa chinesa busca apresentar Beijing como uma fonte de estabilidade e cooperação.

Contudo, uma análise mais atenta ao histórico da China mostra que ela não está tentando substituir Washington como líder global ou assumir os encargos tradicionais de uma superpotência. Diferente dos EUA, que criaram uma rede de alianças e sustentaram a ordem pós-guerra, e da União Soviética, que controlou um bloco formal de estados comunistas, a China demonstra pouco interesse em formar uma coalizão rígida ou rival.

A Estratégia “China Primeiro”

A intenção da China, ao invés de construir uma nova ordem mundial, parece ser alcançar influência global sem os entraves das responsabilidades de liderança. Aqui estão algumas características dessa abordagem:

  • Parcerias Flexíveis: Beijing prioriza a flexibilidade em suas relações internacionais, evitando alianças formais e compromissos de longo prazo.
  • Decisões Autônomas: A China é ágil ao decidir quando agir, mas se afasta dos custos associados à gestão de crises que estão fora de seus interesses diretos.

Essa estratégia já estava em prática antes mesmo da ascensão do ideal “América em Primeiro Lugar”. Em suas relações com parceiros estratégicos, como Rússia e Irã, essa abordagem fica ainda mais evidente. Enquanto oferece apoio econômico e diplomático a esses países, a China evita se envolver militarmente.

Benefícios e Desafios da Abordagem Chinesa

A estratégia “China Primeiro” tem suas vantagens, pois permite a expansão da influência chinesa sem a assunção de grandes riscos. No entanto, esse modelo apresenta desvantagens:

  • Dificuldade em Construir Lealdade: A falta de compromissos mais profundos, especialmente em segurança, tem dificultado a formação de laços que promovam lealdade e poder coletivo.
  • Instabilidade Global: Ao minimizar sua exposição às crises, Beijing perpetua uma instabilidade que também ameaça seus próprios interesses.

Esse contexto traz lições valiosas para Washington, uma vez que uma postura global mais transacional pode aliviar os ônus a curto prazo, mas traz como consequência um apoio cada vez menos confiável dos parceiros.

Raízes Históricas das Parcerias Flexíveis

A preferência da China por parcerias flexíveis remonta à sua história. Desde que foi fundada, em 1949, a República Popular da China percebeu uma ameaça persistente de cercamento estratégico. Mao Zedong, ao enfrentar o início da Guerra Fria, buscou alianças, a mais notável com a União Soviética. Embora essa parceria tenha trazido benefícios, também expôs a China a riscos e custos elevados, como a entrada na Guerra da Coreia.

A rápida deterioração das relações com Moscovo ao longo da década de 1960 mostrou a líderes chineses que alianças podem restringir a autonomia. Desde então, Pequim tem evitado formar novas alianças, a única exceção sendo uma com a Coreia do Norte, que agora serve mais como um fardo.

Mudança de Estratégia com Xi Jinping

Com a ascensão de Xi Jinping em 2012, a China adotou uma postura mais proativa em política externa. Frustrado com o aumento das alianças lideradas pelos EUA e percebendo um cenário hostil, Xi incentiva uma diplomacia que evite a confrontação direta. Nesse contexto, Beijing ampliou seu leque de parcerias, mantendo uma hierarquia: no topo, a Rússia como parceira estratégica fundamental.

  • Relações Diplomáticas e Econômicas: Atualmente, a China mantém laços formais com mais de 100 países, evitando classificações rígidas, mas estabelecendo laços que se ajustam conforme seus interesses.

Essa elasticidade permite que a China aprofunde parcerias quando seus objetivos estão alinhados e diminua a colaboração quando os riscos aumentam. Enquanto se alinha mais estreitamente com a Rússia, ainda assim, Beijing mantém relações com potências médias alinhadas aos EUA, como a Coreia do Sul e vários países europeus.

A Distância nas Crises

Em momentos de crise, o modelo de parceria da China demonstra limites claros. Por exemplo, enquanto a China se posiciona como um importante parceiro comercial do Irã, sua falta de envolvimento em conflitos críticos ilustra sua preferência por evitar compromissos que possam levar a um envolvimento militar.

  • Exemplo do Oriente Médio: Durante os conflitos entre Israel e Irã, Beijing adotou uma postura de condenação, mas evitou qualquer envolvimento militar ou garantias de segurança, mostrando-se distante nas horas críticas.

Esse padrão se repete em outras regiões, como na guerra na Ucrânia, onde a China ofereceu apoio econômico à Rússia, mas se absteve de enviar assistência militar significativa. Assim, quando a Rússia revelou fragilidades internas, Beijing optou por não tomar partido.

As Limitações do Modelo Chinês

Com a crescente desconfiança entre seus parceiros e a percepção de que esses relacionamentos são superficiais, surge uma pergunta crucial: qual é o verdadeiro apoio que a China pode esperar em um momento de crise?

  • A Dificuldade em Mobilizar Apoio: Em um potencial conflito sobre Taiwan, por exemplo, muitos aliados da China poderiam optar por se declarar neutros, temendo ações retaliatórias dos EUA.

Em última análise, a abordagem flexível utilizada por Beijing, que ajuda a preservar a autonomia, pode também limitar sua capacidade de reunir suporte quando mais precisa.

Refletindo sobre o Futuro Global

À medida que o mundo se adapta a um sistema internacional que parece cada vez mais desprovido de um líder claro, o exemplo da China serve como um alerta para os EUA. A política externa que se baseia em relações transacionais e interesses restritos pode oferecer conforto momentâneo, mas acaba comprometendo a confiança dos parceiros e contribuindo para uma ordem global mais caótica.

A experiência chinesa ilustra tanto as vantagens quanto as desvantagens dessa abordagem. Ao evitar compromissos firmes, é possível preservar a liberdade, mas a dificuldade em juntar poder coletivo quando necessário revela que parcerias superficiais podem não sustentar um arsenal em momentos críticos.

Diante desse cenário em constante transformação, é fundamental refletir sobre os caminhos que os EUA e a China têm tomado. Poderão ambos aprender uns com os outros ou o mundo se tornará um cenário ainda mais complexo e desafiador, sem um poder que possa efetivamente gerenciar as crises globais? Que lições e reflexões podemos tirar sobre o papel que cada país deve desempenhar na construção de um futuro mais equilibrado e seguro para todos?

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