A Ascensão dos Drones na África: Um Novo Cenário de Conflito
Nos últimos anos, a guerra na África tem se transformado com a introdução de drones, alterando a dinâmica de poder e mostrando como conflitos regionais podem evoluir rapidamente. Em um incidente marcante, no dia 22 de junho de 2025, drones operados pelo Frente de Libertação de Azawad (FLA), um grupo rebelde tuaregue, atacaram uma caravana de veículos das Forças Armadas da Rússia e do Mali. As imagens desse ataque mostraram a eficácia dessa tecnologia moderna, destacando a ironia de um grupo insurgente com poucos recursos utilizando uma inovação que muitos países ainda tentam dominar.
A Evolução do Uso de Drones na África
10 anos atrás, a utilização de drones na África era uma realidade distante. A primeira ação militar com drones, em 2011, foi realizada pelos EUA contra líderes do grupo islâmico al-Shabab na Somália. Naquele período, apenas as potências militares mais avançadas, como os Estados Unidos, podiam manusear a tecnologia sofisticada por trás dos drones Predator, que custavam cerca de 20 milhões de dólares. Hoje, essa monopolização está extinta.
Atualmente, mais de 37 países africanos adquiriram drones, variando em complexidade e custo, permitindo que forças armadas menores e menos equipadas possam atuar em extensas áreas onde a autoridade estatal é contestada.
A Nova Realidade dos Grupos Insurgentes
Nos últimos quatro anos, grupos não estatais em diversos países da África começaram a adquirir e a experimentar com drones. Esses grupos têm usado drones para:
- Facilitar operações de combate
- Despachar munições
- Conduzir ataques suicidas
Esses pequenos sistemas não tripulados, muitos dos quais podem ser montados a partir de peças acessíveis, estão se mostrando mais eficientes em algumas situações do que os estados, os quais ainda dependem de fornecedores estrangeiros para suprimentos. Isso tem gerado um efeito colateral: a disparidade entre adversários com recursos limitados e os mais abastados vem diminuindo.
A Necessidade de Inovação e Autonomia
Para superar esses desafios, os governos africanos precisam mudar sua abordagem em relação à guerra, especialmente em um contexto onde a dependência de tecnologia estrangeira é um ponto fraco. Em vez de adotar as mesmas práticas de uma década atrás, é essencial desenvolver tecnologias domésticas e integrar drones em estratégias militares voltadas para a guerra irregular, fundamental para enfrentar insurgentes.
O Contexto da Corrida dos Drones
O cenário atual dos drones na África é moldado por conflitos emblemáticos, como:
A Guerra Civil na Líbia (2014-2020): Transformou o país em um laboratório para novas tecnologias, onde forças rivais trocaram milhares de ataques aéreos, com drones elaborados em assistência externa. O uso de drones Bayraktar TB2 pelos governos de Tripoli foi decisivo para rechaçar as forças do Exército Nacional Líbio (LNA).
O Conflito na Etiópia (2020-2022): O governo etíope frequentemente recorreu a drones fornecidos por países como Irã e Turquia para combater a ofensiva das Forças de Defesa de Tigray (TDF). A eficácia do uso de drones em campo demonstrou que essa tecnologia pode ser uma virada de jogo em disputas de poder.
Importante ressaltar que, apesar do uso de drones, essa tecnologia não garante controle sobre as áreas. Governos em conflito, como os das juntas militares em Mali e Burkina Faso, não conseguiram solidificar sua autoridade, mesmo com o uso intensivo de drones.
O Efeito Colateral do Uso de Drones pelos Estados
À medida que coube aos líderes militares a tarefa de contrabalançar a perda de efetivo ocidental e a influência externa, o papel dos drones na luta contra insurgentes como o Jamaat Nasr al-Islam wal-Muslimin (JNIM) se intensificou. Com o foco excessivo na capacidade aérea, os governos descuidaram do fortalecimento de forças terrestres e da construção de redes essenciais de inteligência, além de serviços públicos.
Os insurgentes, por sua vez, são rápidos em se adaptar a essas novas realidades. Eles estão maximizando o uso de procedimentos de evasão, evitando estruturas que possam ser alvos de ataques aéreos e utilizando táticas que criam um ambiente de desconfiança entre as populações e os governos.
A Proliferação de Drones dentre Insurgentes
Não é apenas a capacidade de defesa que muda com o uso de drones: os próprios insurgentes passaram a utilizar a tecnologia em suas operações. A expansão de pequenos sistemas não tripulados desde o início do conflito na Ucrânia tem possibilitado que grupos não estatais adquiram drones e utilizem em surtos de inteligência ou ataques diretos.
Para exemplificarmos, entre setembro de 2023 e abril de 2025, o JNIM realizou uma série de operações coordenadas utilizando drones em Burkina Faso, Mali e Togo, promovendo ataques e projetos de propaganda. A adesão a essa tecnologia por insurgentes indica que a guerra tradicional está enraizada em um novo paradigma.
A Dependência da Tecnologia Externa
Infelizmente, a situação dos governos africanos continua a ser preocupante, uma vez que a maioria ainda depende de tecnologia de drones importada. Quase 90% dos drones militares do continente são de vendedores estrangeiros, e esse relacionamento cria um dilema de dependência.
A queda nas vendas de drones por parte dos EUA — que tendem a ser mais caros — permitiu que países como a China surgissem como fornecedores predominantes, solidificando a dependência tecnológica da África em nações que podem manipular esses relacionamentos por motivos geopolíticos.
O Casos de Conflitos Proxy
O papel de potências estrangeiras tem um impacto significativo nos conflitos internos, como demonstrado no Sudão. Drones fornecidos por diferentes países tornaram os conflitos em guerras de procura que exacerbaram a violência, resultando em um custo humano devastador. Apenas em 2025, foram mais de 150 mil mortos.
Enfrentando os Desafios e Aguardando o Futuro
A realidade é que simplesmente adquirir drones não garante sucesso em conflitos armados ou controle sobre as capacidades defensivas. Com a crescente sofisticacao dos desafios, os países africanos devem buscar desenvolver suas próprias tecnologias e integrá-las em suas estratégias de combate.
Apostando na Indústria Local
É fundamental que os países africanos comecem a investir em suas próprias indústrias de drones. Nações como Quênia, Nigéria, África do Sul e Marrocos já estão avançando nesse sentido. Essa abordagem pode garantir não apenas segurança, mas também a autonomia necessária para superar os desafios impostos por insurgentes e potências externas.
Adotar uma estratégia que priorize a produção local pode trazer benefícios significativos:
- Redução de Custos: Diminui a dependência de fornecedores internacionais e seus preços elevados.
- Aumento da Capacidade de Resposta: Permite que os governos baseiem suas operações em tecnologias adaptadas ao contexto local.
- Maior Controle Soberano: Possibilita a construção de uma base industrial de defesa robusta.
Para que os drones realmente desempenhem um papel positivo na resolução de conflitos, é vital integrá-los a uma rede mais ampla de capacidades de combate, incluindo treinamento de tropas e fortalecimento das forças de segurança.
Ao refletir sobre todos os pontos discutidos, é claro que a revolução dos drones tem um potencial transformador na África. Ao invés de apenas um recurso bélico, eles devem ser parte de uma estratégia abrangente, permitindo que as forças armadas africanas se tornem mais autossuficientes e resistentes a influências externas. O futuro das guerras no continente dependerá dessa adaptação e inovação.


