Prepare-se: A Revolução das Usinas de Cana Vai Muito Além da Tecnologia!


Por muitos anos, acreditávamos que o coração de uma usina de etanol estava na terra, nos canaviais e na infraestrutura produtiva. Esses elementos ainda são essenciais para a competitividade no setor de etanol de cana. Contudo, uma transformação está em curso.

Nas próximas décadas, as empresas que realmente se destacarão provavelmente não serão apenas as mais eficientes em termos de maquinário ou produtividade, mas aquelas que souberem converter conhecimento em decisões estratégicas e eficazes.

Esse é o momento em que a inteligência artificial começa a desempenhar um papel crucial, moldando o futuro das usinas de etanol e levando à evolução do setor sucroenergético brasileiro.

Valorizando O Conhecimento Humano e Experiencial

Fala-se muito em algoritmos, automação e modelos preditivos. No entanto, talvez o maior impacto da inteligência artificial seja potencializar o que sempre foi o maior patrimônio das empresas: a experiência acumulada por seus colaboradores.

Dentro das usinas brasileiras, reside uma sabedoria valiosíssima. Ela se manifesta no operador que detecta mudanças sutis no funcionamento de um maquinário antes que qualquer sensor sinalize algo.

Está presente no supervisor agrícola que, ao percorrer um canavial, percebe indícios de falta de nutrientes, estresse hídrico ou até mesmo um começo de infestações, muito antes que esses problemas apareçam em relatórios.

Ou ainda no gestor industrial que identifica pequenos desvios no processo de fermentação que podem prejudicar o rendimento. Até o executivo, com sua vasta experiência, que consegue prever movimentações mercadológicas de maneira mais aguçada do que qualquer análise de dados poderia fazer.

Preservando O Patrimônio Intelectual

Por longos períodos, esse tesouro de conhecimento esteve nas mãos de profissionais qualificados. O verdadeiro desafio para as empresas nunca foi a falta de dados, mas a perda do conhecimento.

O déficit gerado pela aposentadoria de talentos, mudanças de liderança e novas contratações sempre trouxe a pergunta: como manter vivas as lições aprendidas ao longo de décadas? Nesse sentido, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta transformadora.

Além de realizar tarefas, ela pode ajudar a capturar e organizar informações, integrar saberes e apoiar as decisões, garantindo que o conhecimento não permaneça apenas nas memórias, mas se torne parte do patrimônio intelectual da empresa.

Transição: Das Máquinas Para As Decisões

Estamos vivendo uma nova fase na evolução das usinas de etanol, uma trajetória sempre marcada pela inovação. A primeira revolução foi mecânica, com avanços como a mecanização agrícola e a automação industrial. Agora, estamos diante de uma segunda revolução, focada nas tomadas de decisões.

A inteligência artificial facilita a análise de milhões de dados gerados a cada dia, que incluem informações sobre clima, solo, variedades de cana, produtividade e muito mais. Essa nova tecnologia revela conexões que, de outra forma, passariam despercebidas.

  • Na agricultura: prever produtividades, identificar falhas, antecipar crises hídricas, reconhecer pragas e otimizar o uso de insumos.
  • Na indústria: monitorar equipamentos em tempo real, prever falhas, otimizar processos e reduzir perdas.
  • Na logística: otimizar rotas, reduzir esperas e sincronizar colheita, transporte e moagem.
  • Na gestão comercial e financeira: elaborar cenários sobre preços, custos e riscos regulatórios.

Embora focamos nas usinas de etanol a partir da cana-de-açúcar, as questões referentes à transformação digital e à gestão baseada em dados afetam todas as rotas tecnológicas para biocombustíveis.

Governança de Dados e Cultura Organizacional

Contudo, o real valor dessa tecnologia não reside apenas na velocidade da análise, mas na qualidade das decisões que propicia.

Por anos, produzir mais foi o eixo de diferenciação competitivo. Agora, fazer melhores escolhas pode se tornar ainda mais crucial. E o desafio dessa transformação pode ser mais cultural do que tecnológico.

As usinas brasileiras geram vastos bancos de dados diariamente, mas a questão é que muitos desses dados estão em silos, distribuídos entre sistemas que não se comunicam.

Para investir em inteligência artificial, primeiro é preciso organizar: implementar uma governança de dados, padronizar informações, garantir integração entre sistemas e reforçar a segurança cibernética. Essas etapas são fundamentais para que a tecnologia traga resultados concretos.

Não há inteligência artificial que compense a desorganização dos dados. Metrificar processos e estruturar informações não só potencializa resultados, mas também transforma a maneira como as empresas operam.

Dados: Novos Ativos Estratégicos

Uma comparação interessante poderá ser feita entre dados e bagaço de cana. Anteriormente visto apenas como um resíduo, o bagaço agora se transforma em energia elétrica, oferecendo não apenas sustento, mas também sustentabilidade.

Os dados estão passando por uma jornada semelhante. Por muito tempo, foram apenas registros. Agora, estão se convertendo em insights valiosos. É importante lembrar que, nenhum algoritmo consegue compreender as nuances de um cultivo específico em solo particular.

É a experiência humana que continuará a ser essencial para interpretar contextos e tomar decisões estratégicas. A tecnologia atuará como uma aliada para maximizar o valor dessas decisões.

Um Futuro Construído Sobre Inteligência

Esse é o legado transformador que está por vir. Ao preservar e organizar o conhecimento adquirido ao longo dos anos, as empresas não só fortalecem sua capacidade de inovação, mas também garantem a continuidade em um ambiente em constante mutação.

O setor de etanol sempre demonstrou uma habilidade extraordinária de se adaptar, convertendo energia solar em biomassa e esta em alimento e combustível. Agora, estamos à beira de uma nova revolução que não será medida apenas pelo avanço tecnológico, mas pela capacidade de transformar experiência em inteligência e inteligência em decisões mais eficazes.

A cana-de-açúcar continuará a ser o motor de uma das mais exitosas jornadas de biocombustíveis do mundo. Contudo, será o conhecimento, ampliado pela inteligência artificial, que realmente definirá a competitividade no futuro.

À medida que a tecnologia avança, e os mercados mudam, a verdadeira vantagem competitiva estará na habilidade das organizações de aprender, se adaptar e transformar conhecimento em valor.

*Cíntia Cristina Ticianeli tem formação em Ciências Econômicas pela USP e é especialista em Engenharia de Produção pela POLI-USP PRO. Com mais de 30 anos de atuação no setor sucroenergético, é CFO da Agro Serra Industrial, Vice-Presidente da FIEMA e Diretora de Relações Institucionais do SINDICANALCOOL MA/PA.

Os artigos expressam a visão individual dos autores e não necessariamente refletem a posição da Forbes Brasil e de sua equipe editorial.

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