A Expointer é um dos maiores eventos agropecuários da América Latina e, nesta edição, a atmosfera vibrante dos leilões, o brilho dos animais de elite e a agitação dos produtores rurais criaram um cenário fascinante. Entre os visitantes, Paul Riga, médico-veterinário nascido em Bruxelas e agora CEO da Elanco Brasil, assistia a tudo com grande interesse. Essa foi sua primeira experiência na feira, logo após assumir a liderança da subsidiária brasileira da Elanco, uma das principais empresas globais em saúde animal.
Para Paul, que veio de um país com apenas 11 milhões de habitantes, a magnitude da Expointer era impressionante, refletindo o tamanho das oportunidades que o aguardavam no Brasil. “Tudo no Brasil demanda uma adaptação à escala. O trânsito, a quantidade de pessoas e o volume de animais apresentam desafios totalmente diferentes dos que encontramos na Europa”, destacou o executivo.
Essa percepção inicial de Paul Riga resume seu desafio ao trocar a Bélgica por uma das operações mais estratégicas da Elanco. Em 2025, a companhia alcançou uma receita global de aproximadamente US$ 4,72 bilhões, consolidando-se como a quarta maior empresa de saúde animal em nível mundial, atrás apenas de Zoetis, MSD e Boehringer Ingelheim.
Em sua primeira entrevista a um veículo brasileiro, concedida à Forbes Agro, Paul compartilhou não apenas suas expectativas para a empresa, mas também a experiência de um executivo que trocou a realidade europeia pela vastidão do Brasil, país que abriga o maior rebanho comercial do mundo.
“Quando olho para o nosso negócio, vemos um rebanho de 230 milhões de cabeças de gado”, afirmou Paul, destacando a imensidão do mercado brasileiro.
Com uma sólida carreira como médico-veterinário e extensa experiência na indústria farmacêutica veterinária, Paul ingressou na Elanco há aproximadamente 16 anos. Ele passou por diversas áreas, como vendas e marketing, até assumir a liderança da subsidiária francesa. Contudo, antes de chegar ao Brasil, ele nunca havia vivido na América Latina.
Sua primeira visita a solo brasileiro ocorreu em agosto do ano anterior, quando veio a São Paulo para conhecer o cenário antes de aceitar o convite para liderar a operação nacional. Desde então, Paul vem descobrindo um país que desafia todas as expectativas, admitindo que “o que é pequeno para vocês é enorme para mim”.
Vale ressaltar que, enquanto a Bélgica possui aproximadamente 11 milhões de habitantes, somente a região metropolitana de São Paulo abriga quase o dobro dessa população. Além disso, a comparação entre as fazendas também é surpreendente: enquanto uma grande propriedade na França pode ter em média 800 bovinos, no Brasil é comum que fazendas tenham rebanhos superiores a 2,5 mil animais.
A Transição e a Nova Liderança
Paul Riga chega ao Brasil com a responsabilidade de suceder a médica-veterinária Fernanda Hoe, que agora ocupa um cargo de diretoria executiva na unidade global de Animais de Produção da Elanco, nos Estados Unidos. Fernanda esteve à frente da operação brasileira durante mais de uma década e, sob sua liderança, a empresa se fortaleceu e se tornou um ator central na estratégia global da Elanco.
Diante desse cenário, Paul entende que sua prioridade não é realizar mudanças drásticas, mas sim manter e valorizar o que Fernanda construiu, em especial no que se refere à equipe. “O crescimento da equipe é mais importante do que o meu desenvolvimento individual”, destacou.
Essa abordagem de liderança é marcada pela disposição em ouvir os colaboradores antes de tomar decisões. “Sou um estrangeiro no Brasil e, certamente, tenho mais a aprender com minha equipe do que vice-versa”, afirmou Riga. Nos primeiros meses à frente da empresa, ele dedicou tempo a visitar propriedades rurais e interagir com produtores, abrangendo diversos segmentos, de bovinos a pets.
Quando questionado sobre o legado que deseja deixar na Elanco, Paul desviou o foco de métricas financeiras e participação de mercado, enfatizando a importância das pessoas. “Se em quatro ou cinco anos, nossos colaboradores e clientes puderem afirmar que a Elanco impactou suas vidas de forma positiva, terei atingido meu objetivo maior”, concluiu.
O Brasil como Mercado Estratégico
A chegada de Paul à liderança da Elanco Brasil acontece em um momento crucial, já que o Brasil se tornou a segunda maior operação da empresa em termos de receita, logo atrás dos Estados Unidos. Esse crescimento é impulsionado não somente pela grandeza da pecuária nacional, mas também pelo aumento do mercado pet. A Elanco opera no Brasil desde 1973, contando com uma sede em São Paulo e uma fábrica em Barueri, além de aproximadamente 384 colaboradores.
Entretanto, o ambiente de atuação não é confortável. O setor de saúde animal no Brasil movimenta cerca de R$ 12 bilhões anualmente, concentrando grandes players do setor, como Zoetis e MSD. Essa competição abrange tanto produtos para animais de produção quanto soluções para pets, em um cenário marcado por investimentos intensivos em pesquisa e inovação.
“Vejo o mercado brasileiro como uma verdadeira terra de oportunidades”, destaca Paul.
O executivo acredita que o Brasil possui um enorme potencial a ser explorado, visto que o mercado ainda é menos maduro em comparação a outros países, o que proporciona espaço para crescimento conjunto com os clientes. No entanto, essa dimensão torna a competição ainda mais acirrada, já que diversas empresas buscam conquistar fatias desse “oceano vermelho” de oportunidades.
Inovar é Fundamental
Apesar da importância dos lançamentos de produtos, Paul Riga apresenta uma visão ampla sobre inovação. Para ele, inovar vai além do desenvolvimento de novos medicamentos; é essencial incluir a inteligência artificial, melhorar a automação, revisar processos internos e aguçar a produtividade das equipes. “Precisamos inovar em todos os aspectos, incluindo RH, finanças e operações comerciais.”
A transformação na indústria de saúde animal está cada vez mais voltada para a utilização de dados e para a digitalização. Na perspectiva de Paul, o Brasil tem um grande potencial para expandir tanto na pecuária quanto na saúde de animais de companhia. Ele aponta que, enquanto aproximadamente 85% dos cães e gatos na Europa têm acesso a cuidados veterinários regulares, essa cifra é de cerca de 50% no Brasil, o que evidencia um campo fértil para crescimento.
Na pecuária, o foco deve ser a adoção de tecnologias que aumentem a eficiência e sustentabilidade dos sistemas de produção.
O Brasil como Potência Global
A experiência de Paul na Europa também lhe proporciona uma visão única sobre a importância do agronegócio brasileiro. Ele acredita que poucos países têm um papel tão crucial na segurança alimentar mundial quanto o Brasil. Mesmo com as novas exigências comerciais que vêm surgindo, o país possui a capacidade técnica necessária para ampliar sua presença nos mercados internacionais.
“O Brasil é o centro da produção de proteína para alimentar o mundo.” Para garantir essa posição, Paul defende a importância de avançar em áreas como rastreabilidade e adaptação às novas normativas. “À medida que o mercado global muda, precisamos nos reinventar constantemente. O Brasil possui todas as condições para manter e expandir suas exportações”, conclui Riga.
Fique atento à cobertura da Expointer no site da Forbes Agro e não hesite em compartilhar suas impressões e reflexões sobre o impacto do agronegócio brasileiro na economia global.


